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“A Rouxinol e a Rosa” é fábula para gente grande

Sinopse

Inspirada em conto infantil de Oscar Wilde, peça leva ao palco a discussão sobre a violência contra a população LGBTQIA+

Por Sergio Roveri

Escrito pelo irlandês Oscar Wilde em 1888, o conto O Rouxinol e a Rosa pode ser entendido como uma fábula infantil de final não necessariamente feliz. Na história, que não chega a ocupar 30 páginas, um jovem aluno, apaixonado pela filha do professor, resolve convidá-la para o baile oferecido pelo príncipe do reino. A jovem responde que aceitaria o convite se fosse presenteada com uma rosa vermelha. Atento à conversa dos dois, um rouxinol toma para si a tarefa de ajudar o jovem a conseguir a flor. Voa até uma roseira, de galhos velhos e ressecados, e pede a ela que faça brotar uma rosa vermelha.

Como tudo no conto parece obedecer a uma lógica de toma lá dá cá, a roseira diz que, caso o rouxinol cante para ela uma noite toda, no dia seguinte a flor estaria desabrochada. O pássaro não se limita a cantar: ele deixa-se ferir de morte por um espinho no coração para que seu sangue tinja de vermelho a flor prometida. No dia seguinte, o estudante presenteia a jovem amada com a rosa que custou a vida do passarinho. Ela amassa a flor e a atira ao chão, alegando que recebeu presentes muito melhores de outros pretendentes. 

Cena do espetáculo A Rouxinol e a Rosa. Foto Barnabé Fotos

“Embora Oscar Wilde tenha escrito este conto para crianças, eu enxerguei nele um fundamento interessante: sacrificar-se por alguém é coisa de adulto”, diz o diretor e dramaturgo Rony Guilherme Deus, que usou a matéria-prima do conto para escrever o espetáculo A Rouxinol e a Rosa – Um Amor que Não Ousa Dizer seu Nome, em cartaz a partir de 15 de setembro no Teatro B32. “Acredito que o conto nos leva a refletir sobre até que ponto os nossos sacrifícios valem a pena. No espetáculo, tento mostrar que qualquer amor vale a pena, portanto, qualquer sacrifício feito em nome do amor é justificado.”

Ainda que empregue muitos elementos do conto, a montagem vai além de uma simples adaptação. Para compor o texto, Rony Deus lançou mão de passagens reais da vida de Oscar Wilde, de trechos de cartas trocadas entre ele e seu amante na época, o jovem estudante lorde Alfred Douglas, além de empregar personagens da mitologia celta, como a deusa Morrigan cuja imagem, associada à guerra e vingança, é interpretada no espetáculo pela atriz Bárbara Bruno. “O resultado, acredito, é uma fábula contemporânea, com seres míticos e um universo fantástico”, diz o dramaturgo. “A marca de Oscar Wilde, no entanto, é determinante no espetáculo, por meio de suas frases, cartas, episódios da vida pessoal e sua inconfundível ironia”.

Cena do espetáculo A Rouxinol e a Rosa. Foto Barnabé Fotos

Ambientada no século 19, a história criada por Rony Deus mostra um jovem soldado que, após revelar que se via como mulher num corpo masculino e declarar seu amor por outro soldado, é condenado à morte e tem seu corpo atirado em um poco seco. Tempos depois, o poço volta a se encher de água com poderes milagrosos. Além da água, nas noites de lua cheia emerge do poço uma figura exuberante, misto de rouxinol e mulher transgênero (papel da atriz trans Glamour Garcia), que passa a ser vista como protetora do amor e dos casais enamorados. Numa dessas noites, um jovem de família aristocrática (Augusto Zacchi) visita o poço para pedir ajuda na conquista de sua amada – a quem deseja ofertar uma rosa vermelha. Tão logo se vê diante do jovem, a figura mítica se apaixona imediatamente, mas, a conselho da feiticeira, aceita repetir a atitude do rouxinol do conto.

“O roteiro da peça pretende promover, também, uma oportuna discussão sobre o preconceito e a violência sofridos diariamente pela população LGBTQIA+  no Brasil”, diz o autor, que afirma ter perdido um patrocínio de R$ 300 mil em função da temática do espetáculo. “Ter Glamour Garcia no elenco se revelou fundamental para a montagem. Ela sabe o valor de cada palavra escrita ali: ela sofreu na pele toda violência e repressão que o texto revela”. A montagem só se tornou viável, segundo Rony Deus, graças a um  novo patrocínio, desta vez oferecido pela empresa Reag Investimentos, cuja CEO é mãe de um adolescente trans de 15 anos. “Depois de assistir a uma leitura da peça, ela nos disse: ‘vocês precisam de ajuda’. Ela se entusiasmou tanto que, além do aporte financeiro, acabou virando produtora de teatro.”

Serviço

A Rouxinol e a Rosa – Um Amor Que não Ousa Dizer seu Nome

Teatro B32

Avenida Brigadeiro Faria Lima, 3.732 – Itaim Bibi

Sextas e sábados, 23h50. R$ 60 a R$ 120

Até 28 de outubro.

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Ficha Técnica

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Serviço

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