O Grupo Clariô, coletivo de Taboão da Serra, festeja 20 anos e flerta com a comédia no espetáculo, dirigido por Naruna Costa, que estreia no Teatro Anchieta
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 24 de setembro de 2026)
A atriz e diretora Naruna Costa, de 43 anos, recorre a um pensamento da escritora e ativista Helena Silvestre para definir a trajetória de duas décadas do Grupo Clariô de Teatro. Fundado em 2005 por Naruna, o diretor Mário Pazini (1962-2014), as atrizes Martinha Soares e Naloana Lima e o ator e cenógrafo Alexandre Souza, o coletivo de Taboão da Serra sempre quis colocar em cena as riquezas de um território de onde só se noticiam as carências. “Mostramos a abundância de pensamentos, tecnologias e talentos das pessoas que vivem fora das regiões centrais de uma cidade como São Paulo”, afirma Naruna.
Os 20 anos, na verdade, foram no ano passado, mas a festa começa nesta sexta, dia 25, no Teatro Anchieta – Sesc Consolação, o tradicional palco do diretor Antunes Filho (1929-2019) e dos grandes astros e estrelas que, nas recentes temporadas, abriu espaço para coletivos de diferentes propostas. O espetáculo Casa do Norte, dramaturgia de Jhonny Salaberg, com direção cênica de Naruna e direção musical de Naloana, teve duas sessões de pré-estreia no Mirada — Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em Santos, e se inspira nas memórias de quem vive nas periferias e encontra rastros de afeto e humor ao compartilhar vivências do passado em mercearias e bares.
“Era um sonho antigo do grupo falar destes comércios que mantém vivas as raízes de quem veio do Norte, do Nordeste, de Minas Gerais ou do Espírito Santo, um Sudeste que vai além de São Paulo ou Rio de Janeiro, e podemos achar em cada esquina dos bairros descentralizados”, explica Naruna, que é filha de pai mineiro e mãe alagoana. “No Clariô, ninguém é filho de paulistano, e a Casa do Norte é o lugar de matar saudade das origens e comer as coisas da sua terra.”

Sem dispensar o recorte social, a ficção se apresenta na forma de comédia, algo inédito na trajetória do Clariô. Na trama, um estabelecimento funciona como mercearia durante o dia e, depois que o sol desaparece, abre espaço para um boteco, batizado de Fecha Nunca, onde todos descobrem novas alegrias para acordar na manhã seguinte. O administrador é o Seu Raimundo (o ator Alexandre Souza), que supervisiona a dupla de garçons que se reveza nos dois turnos, representados respectivamente por Cleydson Catarina e Rager Luan.
Entre os personagens passam por lá uma cantora (interpretada por Naruna), uma evangélica (vivida por Naloana) e uma mulher misteriosa com sotaque espanhol (papel de Martinha). Outra presença constante é do agiota e bicheiro (o ator Washington Gabriel), que empresta dinheiro aos vizinhos na hora do sufoco, mas não alivia a cobrança quando o prazo vence. “É um espetáculo bem-humorado em que a poética e a política saltam através da comédia”, afirma a diretora.
O ponto de virada da história se dá quando a caixa de correios comunitária, localizada na Casa do Norte, é roubada. Diversos moradores são apontados como suspeitas em um inquérito que revela segredos e diverte a plateia. “Em Taboão da Serra, muitas periferias não têm um endereço regular e é comum um estabelecimento centralizar o recebimento de cartas e documentos”, diz Naruna. “O desparecimento desta caixa de correios mexe com segredos, saudades e memórias inimagináveis.”
O Grupo Clariô foi criado em um momento em que a cultura periférica paulistana ganhou voz em diversas áreas, como a música, a literatura e o próprio teatro. São desta mesma época as fundações da Cia. Os Crespos e do Coletivo Negro, por exemplo. Em 2008, a primeira peça, Hospital da Gente, baseada em contos do escritor Marcelino Freire, chamou atenção para o grupo, que ficou três anos em cartaz e viajou para outros estados. Urubu Come Carniça e Voa (2011), montagem inspirada na obra do poeta João Flávio Cordeiro da Silva (1960-2022), conhecido como Miró de Muribeca, e Severina – Da Morte à Vida (2015), dramaturgia coletiva em cima do poema de João Cabral de Melo Neto, foram os trabalhos seguintes. “Começou com uma curiosidade sobre o que este povo da periferia estaria falando, o público pareceu e veio o conhecimento sobre um teatro que enriqueceu a cena teatral”, observa Naruna.

Em 2023, Boizinho Manso e a Santa Cruz do Deserto ganhou o palco do Sesc Pompeia com uma alegoria entre as injustiças sociais contemporâneas e o massacre da Irmandade Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, comunidade cearense liderada pelo beato José Lourenço na década de 1930. “Com tudo isto, veio a autoestima de muita gente que produz e assiste a um outro tipo de história que contrasta com a narrativa de uma branquitude tão esgarçada”, completa a atriz e diretora.
É a primeira vez que o dramaturgo Jhonny Salaberg escreve para o Clariô. Com Naruna, porém, ele já tem uma longa parceria de outras três montagens, Buraquinhos ou O Vento É Inimigo do Picumã (2018), Parto Pavilhão (2024) e Tá Pra Vencer (2025), que, apesar de tratar de assuntos como saúde mental, abriu caminhos para testar a linguagem cômica extravasada em Casa do Norte. Agora, nas palavras do autor, que acompanha o Clariô desde Hospital da Gente, a dupla mergulha em um humor sem freio, sem medo de ser feliz, em que o excesso e o brega dão o tom. “Existe uma relação de confiança estabelecida”, diz Naruna. “O Jhonny escreve entendendo a minha direção.”
Em paralelo ao teatro, Naruna festeja uma trajetória ascendente no audiovisual. Ela fez participações destacadas nas séries Irmandade, Colônia e Rota 66 – A Polícia que Mata e integrou o elenco das novelas Todas as Flores, Beleza Fatal e Coração Acelerado. No cinema, a artista acaba de receber o Kikito de melhor atriz coadjuvantes pelo filme Pele de Rinoceronte, dirigido por Marcello Ludwig Maia e, nesta mesma semana, estreia a série Habeas Corpus, na Netflix, em que interpreta Eliane, a mãe de Marina (papel de Any Gabrielly), uma estudante de direito cheia de contradições. “Eu estou bem feliz por mim”, assume. “A gente planta, planta e uma hora vem a colheita.”
Serviço
Casa do Norte
Sesc Consolação - Teatro Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245
Quinta a sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 70. Sessões extras nos dias 9 e 23/10 (sextas), às 15h. Não haverá sessões nos dias 1, 4 e 25/10
Até 1º de novembro (estreia dia 25 de setembro)
