Patrícia Fagundes, diretora do grupo gaúcho, apresenta no IBT três peças que pregam a celebração coletiva
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 29 de outubro de 2026)
É a quarta vez que a Cia. Rústica, coletivo do Rio Grande do Sul, se apresenta em São Paulo. Antes, o grupo fundado em 2004 pela dramaturga e diretora Patrícia Fagundes passou pela capital paulista com a peça Clube do Fracasso, em 2011, o solo O Fantástico Circo-Teatro de um Homem Só, protagonizado pelo ator Heinz Limaverde, em 2015, e, no ano seguinte, veio a intervenção urbana Cidade Proibida.
“Porto Alegre tem um grande movimento teatral e muita gente pensa que lá só existe Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (grupo fundado pelo diretor Paulo Flores em 1978) porque não nós apresentamos tanto em São Paulo e Rio”, afirma Patrícia, de 54 anos, que acaba de chegar de sessões em Caruaru, em Pernambuco. “No nosso caso, é uma proposta política de descentralização porque queremos levar teatro a diferentes pontos do país e populações que não têm tantas opções.”

Agora, a Cia. Rústica ocupa o IBT – Instituto Brasileiro de Teatro em um projeto de circulação contemplado pela Petrobras. Nesta quinta, 29, às 20h30, o espetáculo Cabaré do Amor Rasgado, em cartaz desde 2023, ganha a cena e, na próxima semana, é a vez de Cabaré da Vida Pequena, a mais recente produção da Rústica, ser vista na quarta, 4, e quinta, 5 de novembro.
Em comum, Cabaré do Amor Rasgado e Cabaré da Vida Pequena exploram a ideia de festividade para traduzir a linguagem da companhia que já encenou outras treze montagens. “O teatro é uma festa e uma festa em seu exercício e desejo político de outros modos de viver e imaginar mundos”, define Patrícia. “O cabaré não é só uma linguagem, mas um jeito de contar histórias em que tudo pode e os diferentes talentos dos artistas são explorados.”
Cabaré do Amor Rasgado é formado por cenas que giram em torno de diferentes emoções dos personagens. A dramaturgia é conduzida por canções como Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro, Ai, Que Saudade de Ocê, de Vital Farias, A Maçã, de Raul Seixas, e Não Quero Dinheiro, de Tim Maia. Uma das novidades das sessões desta semana é uma cena inédita criada em uma oficina ministrada por Patrícia e Limaverde no dia 26.
Cabaré da Vida Pequena, por sua vez, traz à tona cenas inspiradas em pessoas comuns que resistem ao cotidiano. Entre elas, aparecem a história do amor proibido de um peão de estância e a filha de um fazendeiro, a de uma cantora de ópera que largou o palco pelo casamento e a de uma faxineira que mora no porão da casa do filho e presta serviços a ele como uma funcionária. As canções Fé Cega, Faca Amolada e Cais, ambas de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e Dona Cila, de Maria Gadú, costuram a dramaturgia. “As histórias individuais atingem o coletivo por serem inseridas em um contexto social, político e econômico”, explica a diretora.
No elenco das duas peças estão os atores Heinz Limaverde, Sandra Possani, Diego Nardi, Priscilla Colombi, Bruno Fernandes, Juliana Kersting, Phill, André Varela, Brenno Di Napoli e Rodrigo Apolinário.
A porto-alegrense Patrícia Fagundes se formou em artes cênicas em 1995 com uma pesquisa em torno da linguagem de cabaré que misturava conceitos do dramaturgo alemão Bertolt Brecht e do movimento dadaísmo. Entre 1999 e 2003, fez mestrado em Londres e voltou a morar fora, de 2006 a 2010, para cursar doutorado em Madri, estudando o teatro como território de sociabilidade.

No intervalo entre as duas viagens, em 2004, ela fundou a Cia. Rústica, que reúne diferentes colaboradores em torno da pesquisa sobre festividade e sociabilização. A estreia do coletivo foi com a trilogia Em Busca de Shakespeare, reunião das peças Macbeth (2004), Sonho de uma Noite de Verão (2006) e A Megera Domada (2008), e, há três anos, vem sendo desenvolvido o projeto Cabarés do Sul do Mundo, que, além dos dois trabalhos em cartaz em São Paulo, rendeu as peças Cabaré da Mulher Braba (2023) e Cabaré do Tempo (2025). “É hora de recuperar o teatro como celebração do prazer de estar junto”, defende Patrícia. “O teatro é um luxo a ser preservado em meio às relações virtuais e pouca disponibilidade ao contato presencial.”
Patrícia defende as artes cênicas como experiências compartilhadas que provocam e ampliam a imaginação. Ela, no entanto, reconhece que muitas vezes os artistas se distanciam do espectador com espetáculos voltados às plateias iniciadas. “Nós queremos ser acessíveis a qualquer um nas grandes capitais ou fora dos centros urbanos”, comenta. “Meu trabalho tem uma elaboração teórica, mas, na hora de chegar ao público, nada pode parecer hermético.”
Aproveitando a viagem, a Cia. Rústica ainda mostra em São Paulo o monólogo A Vingança é um Jardim Selvagem, protagonizado por Priscilla Colombi e dirigido por Patrícia. O solo fez a primeira sessão no dia 27 e poderá ser visto de novo na próxima terça, dia 3, às 20h30, no IBT, mesmo que fora do projeto Petrobras Cultural — Novos Eixos.
A dramaturgia flerta com a autoficção ao se estruturar na busca da protagonista — uma artista-escritora — pela vida de Veronika V, que se desdobra em professora, viajante, cantora, pistoleira e aventureira. A trama brinca com imaginários de vingança e vingadoras, filmes e personagens, repertórios e memórias e, na trilha musical, aparece Agora Só Falta Você, de Rita Lee. “O espetáculo retrata mulheres que inspiram transformações e fala de nós, de sonhos, imaginações e criações”, completa Patrícia.
Serviço
Cia. Rústica. Cabaré do Amor Rasgado
Quinta (29), 20h30
A Vingança é um Jardim Selvagem
Terça (3), 20h30.
Cabaré da Vida Pequena
Dias 4 e 5/11, 20h30
IBT — Instituto Brasileiro de Teatro. Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 277. R$ 30 / R$ 60
