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“Amália”, adaptação de conto de Newton Moreno, retrata mulher de sentimentos intensos

Sinopse

Lara Córdulla e Marcos Azevedo são dirigidos por Ivan Andrade em peça que fala de amor e alteridade

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 5 de novembro de 2026)

A exemplo de A Raiz, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, um novo conto do dramaturgo Newton Moreno ganha a cena. Ao contrário do solo protagonizado por Claudio Fontana dirigido por Elias Andreato, levado ao palco em sua íntegra literária, o espetáculo Amália, que pode ser visto no Teatro Estúdio desde a segunda, 2, ganhou adaptação e direção de Ivan Andrade, com a atriz Lara Córdulla no papel-título e o ator Marcos Azevedo nos vários personagens masculinos.

Publicado em 2016 no livro Ópera e Outros Contos, reeditado esse ano pela Folhas de Relva, Amália é uma prosa curta de pouco mais de duas páginas em que a poética de Moreno salta aos olhos de leitor. Trata-se da história de uma mulher que ama demais e, cansada das constantes desilusões, decide anestesiar o seu coração tão intenso. 

Em um ato extremo, a personagem invade o consultório de um dentista e tenta aplicar uma injeção no próprio peito. Salva por um primo segundos antes da picada, ela percebe que não é o coração que a impulsiona, mas o desejo decorrente do olhar é que não a deixa sossegar. Além deste primo, Azevedo interpreta, entre outros, um narrador, um padre, um cafajeste e um menino por quem Amália se apaixona.

Lara Córdulla e Marcos Azevedo no espetáculo Amália. Foto Felipe Faim

Lara Córdulla, de 58 anos, demorou quase duas décadas para colocar Amália em cena. A história é carregada de uma teatralidade que, vez por outra, invade a vida real. Em 2007, ela enfrentava o luto de uma separação dolorida, daquelas que se faz perder o chão e a crença no ser humano. Jogada na cama, recebeu a visita de um amigo, o produtor Leopoldo De Leo Junior, que só enxergava no trabalho o remédio para a depressão. Ele levou um calhamaço impresso de textos de Newton Moreno, amigo comum da dupla, uns nove ou dez, todos inéditos. “Escolha um destes e vamos sair dessa fossa logo”, ordenou, preocupado.

Ao ler Amália, Lara se encantou e, mais que isso, transformou as palavras do autor em uma oração que repetia diariamente. A narrativa fala da abundância do amor e do desejo em contraste com a falta de tais sentimentos no mundo. O mais surpreendente, segundo ela, é que Moreno constrói uma trama de puro lirismo para surpreender o leitor com um final de contornos trágicos. “É o fascínio do mito e da tragédia, principalmente relacionado a Édipo, que, como consegue enxergar as coisas, resolve se cegar para se enxergar por dentro”, observa a atriz.

O tempo correu, a artista engatou outros trabalhos, e Amália continuou por perto, talvez esperando a ferida da separação cicatrizar e a mulher encontrar um distanciamento que seria importante para a intérprete. Em 2018, Ivan Andrade dirigiu a peça O Mal-Entendido, drama de Albert Camus (1913-1960), que tinha, entre outros, Lara no elenco. A afinidade no projeto fez a atriz procura Andrade durante a pandemia para quebrar o tédio do confinamento e a necessidade de trabalhar quando o teatro era algo inviável. “Eu não acredito em teatro on-line e, se não existe mais teatro, vou encontrar outra coisa para fazer”, respondeu ele. 

Lara, com paciência e amor por Amália, convenceu o amigo a dar início a uma adaptação do conto, e a troca se estabeleceu entre as telas dos computadores. “Quando terminei a primeira versão, começou a lenta abertura dos teatros e o avanço da vacinação”, lembra Andrade. “Vamos esperar mais um pouco e fazer presencial.”     

Há dois anos, Lara atravessou um novo turbilhão sentimental. No intervalo de 50 dias, perdeu a mãe e o pai. Ela, vítima das complicações do Alzheimer, tinha 84 anos, e os dois estavam separados há 28 anos. Ele, de 92, disse à filha no dia da viuvez: “Eu não vou ao velório porque senão vocês vão enterrar dois”. O pai, apesar da idade avançada, estava bem, ativo, tinha tocado a vida e se casado de novo, com uma companheira três décadas mais nova. Em pouco dias, sofreu uma infecção urinária, piorou e partiu. “Eu fiquei impressionada com isso, e Amália me veio de novo à cabeça”, comenta a atriz. “Tem coisas do amor que ficam guardadas e ninguém consegue acessar ou encontrar explicação.”

Marcos Azevedo e Lara Córdulla em outra cena de Amália. Foto Felipe Faim

Se o tema é o amor latente e incondicional, Andrade provocou ainda mais a sua protagonista para criar o texto. Durante o processo, Lara recuperou cartas românticas enviadas por amores do passado que guardava em casa e algumas delas ganharam a cena. Na adaptação, o dramaturgo atravessa os tempos e as diferentes formas de relacionar como, além das cartas, os contatos por telefonemas, celulares, aplicativos de paquera e os flertes através do Instagram. “É um longo caminho que leva a um distanciamento cada vez maior e, como sou de uma geração em que a troca presencial era uma necessidade, hoje estranho ao ver pessoas que vivem bem sozinhas ou se satisfazem com as paqueras virtuais”, comenta a atriz. “Talvez não seja uma supervalorização do outro e uma forma de olhar mais para si mesma.” 

Consciente da mentalidade da época atual, Andrade, de 45 anos, procurou fugir dos riscos de apresentar Amália como uma mulher dependente dos homens ou partidária da tese jobiniana de que é impossível ser feliz sozinho. “Não dá para ter uma protagonista feminina condicionada a ser feliz por causa de um homem, então sempre encarei essa peça como uma mensagem aberta”, explica. “É uma história sobre o desejo insaciável da vida, de que você só será feliz caso se castre de alguma maneira, mas entendi que, acima de tudo, estamos falando de alteridade e como enxergar o outro que ama diferente de você.”

Serviço

Amália

Teatro Estúdio. Rua Conselheiro Nébias, 891

Segunda e terça, 20h. Grátis. Os ingressos podem ser retirados na plataforma Sympla ou na bilheteria do teatro

Até 22 de dezembro (estreou em 2 de novembro)

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Ficha Técnica

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Serviço

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