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“O Sumidouro”, de Jorge Andrade, é desconstruído pela Cia. Triptal para dar voz às vítimas dos colonizadores

Sinopse

Na peça “Quase uma Estória – Água Parada que Sumiu no Buraco”, o ator Fabrício Pietro estreia como encenador em espetáculo codirigido por André Garolli

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 7 de outubro de 2026)

A Cia. Triptal, dirigida por André Garolli, foi criada no fim de 1990 e, ao longo de 35 anos, passou por várias fases em um repertório de 26 peças. Da etapa amadora, com As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena (1815-1848), Escola de Mulheres, de Molière (1622-1673), e Romeu e Julieta, de Shakespeare (1564-1616), o coletivo saltou para o teatro infantil de Maria Clara Machado (1921-2001) em montagens como A Menina e o Vento, Tribobó City e A Bruxinha que Era Boa. 

O reconhecimento chegou nos anos de 2000 através das premiadas encenações de Rumo a Cardiff e Zona de Guerra, de Eugene O’Neill (1888-1923), no projeto Homens ao Mar.  O mergulho nos grandes autores norteou a Triptal e, na sequência, vieram trabalhos baseados em textos de Plínio Marcos (1935-1999) e Tennessee Williams (1911-1983).

Desde 2022, estimulado pelo centenário do dramaturgo paulista Jorge Andrade (1922-1984), Garolli revisa a obra do autor, tendo como um dos focos iniciais a peça Pedreira das Almas (1958), que resultou no espetáculo Travessia Brasil – Um Caminho para Pedreira. A polarização, os contrastes de tradição e progresso e a exploração da mão-de-obra na trama ambientada no século XIX dialogaram com a contemporaneidade. “Eu sou fascinado pela forma que Jorge traz a questão da memória, a ligação com a família e o embate para se desprender do passado”, justifica Garolli, de 59 anos.

Neste processo de destrinchar Andrade, a Triptal adapta O Sumidouro, peça escrita em 1969, que remonta ao Brasil-Colônia em uma metalinguagem envolvendo um autor teatral, Vicente, alter ego de Andrade, interessado na biografia do bandeirante Fernão Dias (1608-1681). A evolução dos tempos falou alto, e o espetáculo Quase uma Estória – Água Parada que Sumiu no Buraco, que estreia nesta quinta, 8, no Teatro Alfredo Mesquita, desconstrói o original para estimular debates não aprofundados por Andrade. 

O elenco de Quase uma Estória – Água Parada que Sumiu no Buraco. Foto Ronaldo Gutierrez

A palavra “estória” reforça o significado de ficção em contraste ao de “história”, vocábulo associado aos fatos verídicos. A direção é de Fabrício Pietro e Garolli, com encenação e elaboração dramatúrgica encabeçada por Pietro, que ainda interpreta o protagonista Vicente. A bagagem conquistada junto aos grandes textos garante rigor à Triptal para promover diálogos contemporâneos sem frestas de oportunismo ou pontas soltas que compliquem a compreensão do espectador.   

Quase uma Estória – Água Parada que Sumiu no Buraco se estrutura no confronto entre três personagens e três lugares distintos. Vicente acredita estar questionando a narrativa oficial ao revelar as contradições de Fernão Dias, mas gradualmente se vê implicado na mesma lógica de poder que procura denunciar. José Dias (papel de Victor Barros), filho bastado do bandeirante, por sua vez, se vê em uma crise de identidade devido a sua origem indígena e a violência colonial, enquanto Martha (vivida por Maiara Astarte), funcionária de Vicente, se assume interlocutora crítica e reivindica o direito de narrar a própria experiência.

Depois da temporada no Alfredo Mesquita, a peça faz sessões no Teatro Maria Della Costa igualmente gratuitas. No elenco ainda aparecem os atores Thiery Maciel, Alexandre Adas, Bruno Macedo, Edu Rosa e Paulo Camilo e as atrizes Dai Oliveira, Lilian Menezes, Nay Fernandes, e Kelly Andrade. “Seria perigoso remontar O Sumidouro sem uma leitura crítica e nossa ideia é mostrar quem são estes personagens que o Jorge não destaca e o que eles significam hoje”, observa Garolli. 

Fabrício Pietro, de 46 anos, complementa que o apagamento escapa apenas do personagem José Dias, metade indígena e metade português, o herdeiro das contradições históricas. “O resto dos personagens indígenas são citado apenas em rubricas e, em 2026, entendemos que se não expusemos o genocídio do período, estaríamos confirmando a nossa confortável posição de herdeiro dos colonizadores”, declara.

Componente da Triptal desde 2018, Pietro participou dos espetáculos Inferno, Um Interlúdio Expressionista (2019), de Williams, Sede (2021), versão online da obra de O’Neill, e Travessia Brasil – Um Caminho para a Pedreira. Com uma passagem significativa pelo Núcleo Experimental, companhia dirigida por Zé Henrique de Paula, ele ganhou experiência nas peças R&J e Mojo, ambas de 2007, e O Livro dos Monstros Guardados (2009).

Nos últimos anos, ficou evidente a busca de Pietro por uma autoralidade. Depois de idealizar, produzir e protagonizar o drama Jardim de Inverno, dirigido por Marco Antônio Pâmio em 2019, o autor se uniu à encenadora e dramaturga Fernanda Stefanski para construir a quatro mãos o monólogo A Grande Obra (2023), que lhe propiciou uma maior provocação em relação a sua personalidade artística. 

O caminho para uma estreia como encenador em Quase uma Estória – Água Parada que Sumiu no Buraco veio naturalmente e quem atesta essa evolução é o próprio Garolli. “Começou como um processo colaborativo que o Fabrício encabeçou, passou a tocar o barco e senti que ele estava com vontade, com o ímpeto de experimentar algo além”, conta o fundador da Triptal. “Eu fiz uma supervisão em cima de tudo aquilo que ele tinha na cabeça e levava para a prática e, posso não gostar de tudo, mas é fundamental o cara imprimir a sua marca, errar e acertar, assim, como um dia, aconteceu comigo.”  

Pietro reconhece que desde o começo da pesquisa em cima de Andrade, mesmo sem ter consciência, cavou espaço para essa autonomia. Foi um entusiasta da ideia de montar O Sumidouro, defendeu que a dramaturgia fosse construída ao longo dos ensaios, um método contrário ao que costuma ser desenvolvido por Garolli, e, se, de novembro a junho, as atenções foram voltadas para a pesquisa, desde julho, a montagem é levantada na sala de ensaio sob o seu comando. 

Outra imagem do elenco de Quase uma Estória – Água Parada que Sumiu no Buraco. Foto Ronaldo Gutierrez

“Ficou definido que eu focaria na dramaturgia e na encenação, e o Garolli cuidaria especificamente da direção de atores”, comenta Pietro. “E só sendo diretor para entender algumas coisas que eu mesmo reclamava, como a falta de atenção para o ator, mas o fato é que, em meio a tanta coisa, não sobra tempo para o diretor se dedicar às interpretações, por isso essa divisão tornou o trabalho mais produtivo.”

A intensificação do diálogo para que O Sumidouro chegasse a Quase uma Estória – Água Parada que Sumiu no Buraco passa pelas vivências do elenco. Três artistas da equipe se declaram indígenas e, pelo outros dois, como Victor Barros e Bruno Macedo, começaram a pesquisar as ancestralidades. Intérprete de José Dias, Barros é paraense, vive em São Paulo e a sua inquietação pode ser considerada um importante detonador pelas questões identitárias que moldaram a montagem. “O Victor começou a fazer o resgate dentro da família e encontrar pessoas que nem os seus parentes diretos tinham conhecimento e tudo isso faz parte de revelar quem somos nós”, reconhece Garolli. 

Imbuído pelo aprendizado do projeto, Pietro faz o “mea culpa” da sociedade branca capitalista e define que cada um é aquilo que escolhe ser. “A gente escolhe aprender inglês e francês, ver os filmes do cineasta russo Andrei Tarkovski e trata o que é relacionado à cultura indígena como folclore, lenda”, diz. “Isso acontece porque não temos capacidade de entender a tecnologia avançada dos povos originários para lidar com um mundo diferente do nosso e achamos melhor desprezá-los.”  

Serviço

Quase uma Estória – Água Parada que Sumiu no Buraco

Teatro Alfredo Mesquita. Avenida Santos Dumont, 1770
Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h. Sessões extras na quarta, 28, 20h, e nas quintas, 22 e 29, 14h30. Grátis. Ingressos distribuídos uma hora antes
Até 1º de novembro (estreia em 8 de outubro)

Teatro Maria Della Costa. Rua Paim, 72
Dias 6 e 7/11, 20h. Dia 8/11, 18h. Dias 10 e 12/11, 20h. Dia 11/11, 14h30 e 20h. Grátis. Ingressos distribuídos uma hora antes.

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Ficha Técnica

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Serviço

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