Sob a direção de Kleber Montanheiro, a comédia de Emílio Boechat parte de um ator famoso para satirizar a vaidade reinante na sociedade
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 1º de outubro de 2026)
De um lado, o ator Fernando Pavão, de 55 anos, cabelos e olhos castanhos, 1m87, 89 quilos e porte atlético de quem treinou futebol até os 20 no São Paulo, Flamengo e Grêmio. Em três décadas de carreira e quase trinta peças no currículo, ele nunca participou de uma comédia. Quer dizer, nos tempos de escola, no Célia Helena Centro de Artes e Educação, Pavão fez Os Divertimentos do Rei, peça de José Eduardo Vendramini, sobre um monarca maluco. E foi só.
Do outro lado aparece Rodrigo Contreiras, o galã consagrado em dezenas de novelas, homem que o Brasil inveja e acha lindo, milhões de seguidores, cabelos e olhos castanhos, 1m87, 89 quilos. Apesar da extensa carreira na televisão, Contreiras só tem uma experiência no teatro, na peça infantil Pluft, O Fantasminha, de Maria Clara Machado (1921-2001). E foi só. Agora, quer mudar de rota
Se Contreiras passou a acreditar que a beleza mais atrapalha que ajuda na carreira, Pavão acha que chegou a hora de tirar sarro de si mesmo por ser considerado um “homem padrão” e mostrar que é engraçado, leve e debochado. Ele vive o protagonista da comédia Cansei de Ser Belo, texto inédito de Emílio Boechat dirigido por Kleber Montanheiro, que estreia neste sábado, dia 3, no Teatro YouTube – Sala Eva Herz, da Galeria Magalu, no Conjunto Nacional.

Em meio às trapalhadas de Contreiras, a atriz Erica Montanheiro e os atores Wilson de Santos e Marcelo Goes se revezam em uma dezena de tipos que orbitam em torno do protagonista. A última do galã é que, para ser respeitado pelos colegas e pela crítica especializada, precisa fazer teatro. De preferência, quer trabalhar com o dramaturgo e o diretor mais experimental, aquele capaz de descontruir a sua imagem a ponto de colocá-lo entre os indicados aos principais prêmios do ano.
Se Contreiras atravessa uma profunda crise existencial por ter virado personagem de si mesmo, Pavão reconhece que, mesmo mostrado com uma lente de aumento, o conflito em torno da imagem atinge diversos e irracionais níveis no meio artístico. Contreiras, logo, pode não estar tão distante assim de muitos colegas. “Claro que para acelerar a comédia toda a história dele é levada com um pé no absurdo, mas chegamos ao ponto em que as pessoas desfiguram os seus rostos em nome da vaidade”, comenta. “Mas uma verdade que está no texto do Emílio é que o ator passa a vida querendo provar versatilidade e acaba sempre escalado para os mesmos papéis.”
Com Pavão, claro, não é diferente. Mesmo que no teatro tenha sido dirigido por nomes como Jô Soares (1938-2022), Nelson Baskerville, Otávio Martins e Sérgio Ferrara, o convite para uma comédia nunca tinha aparecido até agora – e ele nunca lutou contra. O dramaturgo Emílio Boechat, de 59 anos, por sua vez, andou nas últimas décadas brigando contra um talento óbvio – o de comediógrafo.
Ele é o autor dois grandes sucessos do gênero, Camila Becker, que, lançada em 1990, teve outras duas versões, e Eu Era Tudo pra Ela… E Ela me Deixou, montada pelos atores Marcelo Médici e Ricardo Rathsam em 2011. “Acho meio maluco que as minhas duas peças mais conhecidas tenham sido escritas quando eu tinha 20 e poucos anos e, então, procurei fazer coisas diferentes”, confessa ele, que passou 15 anos envolvido com roteiros para canais de TV aberta e de streaming.

Mais recentemente, Boechat teve, pelo menos, três experiências bem-sucedidas no terreno dos musicais, em dobradinha com a parceira Marília Toledo. Ele é coautor de, entre outros, Silvio Santos Vem Aí, Ney Matogrosso – Homem com H e Gal, O Musical, trabalhos que ele considera um tanto complexos em comparação à facilidade que garante ter para escrever comédias.
Observando a produção atual, porém, ele viu que era hora de desengavetar Cansei de Ser Belo, guardada desde 2012, e, depois de pequenos ajustes feitos em sala de ensaio, acha que a peça chega ao palco na hora certa. “Há um buraco no teatro brasileiro para este tipo de diversão nonsense que muita gente gosta de ver”, comenta. “Se a gente for pensar, mesmo a turma vinda do besteirol dos anos de 1980 e a galera do Porta dos Fundos renegaram o absurdo e apostam em um outro tipo de comédia.”
Enquanto Pavão quer ser visto com engraçado e Boechat se debate diante do rótulo de autor cômico, o diretor Kleber Montanheiro, de 56 anos, transita entre o drama, a comédia e os musicais sem crises. Ainda é ator, figurinista, cenógrafo, iluminador e só escapa de escrever dramaturgia. É o chamado multiartista. Justamente, por isso, ele alertou Boechat, depois de ler a primeira versão do texto que a peça parecia nichada e repleta de piadas que só o meio artístico entenderia. “A premissa é a de um ator que conquistou visibilidade pela beleza, mas com as redes sociais qualquer um estabelece as próprias metas em nome do engajamento”, compara o diretor.
Para que o público na plateia se sinta um pouco Contreiras, Montanheiro estica a corda do absurdo até que beire o ridículo. Assim, o protagonista corre no palco e faz pose, esquece do texto e jogo o calhamaço de papel no chão, grita e fala baixo ao mesmo tempo. Com os outros personagens não é diferente. Erica Montanheiro, por exemplo, vai da mulher de Contreiras, passa por diversos perfis de atrizes, como a hippie e a intensa, até chegar a uma jornalista e a uma jurada de prêmio. “São situações e tipos engraçados que as pessoas costumam ver no dia a dia e podem identificar em cena”, explica o diretor. “Só cabe a nós controlar o exagero para não cair em algo que não pareça real.”
Serviço
Cansei de Ser Belo
Teatro YouTube – Sala Eva Herz. Galeria Magalu do Conjunto Nacional. Avenida Paulista, 2073
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Não haverá sessão no dia 4 de outubro. R$ 120
Até 22 de novembro (estreia 3 de outubro)
