Assim é “Coração de Gravetos”, da Cia. Articularte, que estreia no Teatro Cacilda Becker, um espetáculo recheado de bonecos muito criativos, que espalham conceitos como pertencimento, diversidade e amizade
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 11 de setembro de 2026)
Cansada de brincar sozinha em seu quintal, a menina Dália faz amizade com um guaxinim e, juntos, criam um boneco-curumim, juntando gravetos. Só que o curumim fica sem coração e isso é o mote para uma jornada dos três em busca desse coração. Esse é o enredo de Coração de Gravetos, da Cia. Articularte, que estreia no sábado, dia 12, gratuitamente, no Teatro Cacilda Becker, na Lapa paulistana.
Passar a peça toda procurando o coração de um curumim é de uma simbologia incrível, muito bem pensada, já que representa o renascimento dos laços com os povos originários ou com a sabedoria da terra – e esse tema é fundamental para atiçar a consciência de diversidade e pertencimento nas novas gerações. Texto e direção são de Dario Uzam, à frente da Articularte há nada menos do que 26 anos.
A quantidade de personagens é grande, o que certamente fará a plateia não desgrudar os olhos de tantos e tantos bonecos diferenciados, criados pela treinada imaginação de Surley Valério, com figurinos de Deborah Correa. Podermos ver em cena, entre outros, uma Carranca gigante, o guardião-bicho Quem Quem, uma Feiticeira Patuxa, o Cão Morcego Babão, a cobra Boiúna pantaneira, uma Águia de asas gigantes e até um Lago em Pé – espelho visionário que projeta os corações e destinos dos personagens.

“Acho que a relação da Cia. Articularte com a manipulação de bonecos mudou bastante ao longo de toda a nossa trajetória”, diz Uzam. “No começo, havia uma preocupação grande em dominar as técnicas: manipulação direta, bonecos de balcão, objetos, sombras, formas animadas. Com o tempo, a técnica deixou de ser um fim e passou a servir à dramaturgia. A técnica precisa desaparecer um pouco. Hoje pensamos primeiro: como esse personagem respira, olha, escuta, caminha? Depois encontramos a técnica. E não o contrário.”
E, já que Dario Uzam falou em técnica, ele dá mais exemplos de como o grupo foi evoluindo a cada novo espetáculo. “Também aprendemos que manipular não é movimentar o boneco o tempo inteiro”, acrescenta ele. “Às vezes, uma inclinação da cabeça, uma pausa ou a direção de um olhar dizem tudo. Às vezes, quase nada é muito. Em Coração de Gravetos, isso também chega ao espaço. Os atores montam, desmontam, transformam cenários e fazem surgir paisagens e criaturas diante das crianças, quase como magia. O público vê a matéria, vê o mecanismo e vê quem manipula. Mas chega um momento em que o olhar atravessa tudo isso e fica com o boneco. É uma passagem livre e ativa. Um pacto. Todos sabem que aquilo é espuma, tecido, madeira ou galho. E ninguém se importa mais. Porque, por alguns instantes, aquilo vibra, pensa e respira.”
O diretor fala um pouco sobre as características dos personagens que criou: “Dália é o motor da travessia. Curiosa, humana, aberta ao encontro, ela caminha sem couraça. Aproxima-se antes de desconfiar. Sua pureza não é a de quem desconhece o mundo, mas a de quem ainda permite que o mundo a espante. Xinim é quase o excesso da curiosidade. Pega coisas, atravessa limites, se mete em encrencas e praticamente não fala. Mas está o tempo inteiro conversando. Usa o corpo, os gestos e os ecos das palavras de Dália. É um guaxinim de mãos falantes. Kururu, o curumim feito de gravetos, começa como aquele que precisa de alguma coisa, mas pouco a pouco recupera sua energia e aprende a ser companheiro, a proteger e a fazer escolhas. Há nele também uma espécie de instinto originário, ainda mirim. Sem revelar o desfecho, acho que ele começa a perceber que um coração não é apenas algo que se encontra. É algo que se constrói. Que cresce.”

A música também tem papel fundamental na trama. “Pedimos ao diretor musical Raul Teixeira uma sonoridade simples, ligada ao sopro, à pele, à madeira e às cordas: chinelofone, rabeca, cuíca, violas, flautas indígenas e bumbos, aproximando referências afros e indígenas”, adianta Uzam. “É uma música que parece vir da terra e do vento. As canções atravessam o corpo de Kururu, os rios voadores, as matas, as raízes e a amizade. A música também cria raiz.”
Impossível ainda não dissociar da dramaturgia os trabalhos de cenografia e figurinos da peça, conforme faz questão de lembrar o diretor. “Na cenografia de Michele Rolandi, os atores transformam o espaço diante das crianças quase como magia: o quintal vira floresta, o abismo vira desafio e o pântano muda até a maneira de caminhar. Já os figurinos de Deborah Correa são discretos e delicados, com folhas escuras que acompanham suavemente os corpos. Quase não pedem atenção. Mas respiram junto com a floresta. No fundo, tudo converge para uma pergunta muito simples: como nasce uma amizade? Talvez comece quando alguém decide caminhar ao lado do outro sem saber onde aquela vereda vai terminar.”
Por fim, vale investigar com Dario Uzam o conceito de “comicidade grotesca”, que o grupo faz questão de mencionar no material de divulgação do espetáculo. “Quando falamos em comicidade grotesca, não pensamos no grotesco como algo adulto, necessariamente feio ou assustador”, explica ele. “Interessa-nos aquela pequena deformação que provoca estranhamento e, logo depois, abre uma fresta para o riso. É quase um tropeço da lógica. O corpo do ator, o objeto, a voz ou uma situação escapam do cotidiano e passam a obedecer outras camadas de lógicas, mais enviesadas.”
Para a Cia. Articularte, o teatro de bonecos é muito fértil para experimentações. “O boneco pode tudo”, confirma Dario Uzam. “Pode ter proporções impossíveis, morrer e nascer no minuto seguinte, desmontar uma realidade e inventar outra. Entre o A e o Z, suas manias e distâncias habitam outros tempos. Em ‘Coração de Gravetos’, brincamos nessa fronteira entre suspense, medo e humor. Algumas criaturas parecem ameaçadoras e logo revelam algo frágil, absurdo ou ridículo. O medo muda de lugar. Talvez a criança acabe rindo também do próprio susto. Mas nem todo monstro é só monstro. Nem todo susto termina em medo.”
Serviço
Coração de Gravetos
Teatro Cacilda Becker. Rua Tito, 295
Sábados e domingos, 16h. Grátis, ingressos distribuídos 30 minutos antes de cada sessão
Até 27 de setembro (estreia 12 de setembro)
