A montagem da Cia. Epigenia, dirigida por Gustavo Paso, chega no TeatroIquè, em São Paulo, quatro anos depois da estreia no Rio
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 10 de setembro de 2026)
Em 2022, o cenário se apresentava ainda mais tenso e frágil que nos dias de hoje. O Brasil era governado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e começava a se livrar das consequências da pandemia da Covid-19 com o avanço da vacinação. Em março daquele ano, o diretor carioca Gustavo Paso e a Cia. Epigenia de Teatro estrearam no Rio de Janeiro o espetáculo O Alienista, livre adaptação do conto de Machado de Assis (1839-1908), com a perspectiva de chegar a São Paulo no segundo semestre. Os patrocínios previstos caíram e não deu certo.
Finalmente, nesta sexta, 11, mais de quatros anos depois, O Alienista poderá visto nos palcos da cidade em temporada no TeatroIquè, na Vila Indiana, região do Butantã. Ainda em 2022, a montagem viajou para Belo Horizonte, Ouro Preto e Niterói, no ano seguinte, voltou ao Rio, no Teatro João Caetano, e, em 2024, excursionou pelo interior paulista. Desde então, os grandiosos cenários e os elaborados figurinos ficaram guardados na sede do grupo à espera de um novo patrocínio que nunca chegou.
Paso e seu elenco, que reúne catorze atores e atrizes, organizaram uma campanha de financiamento coletivo para as despesas mínimas, alcançaram 70% da meta e encaram a temporada paulistana na raça. “Era fundamental retomar o espetáculo antes das eleições para justificar o nosso esforço de ter preservado essa produção”, diz o diretor. “Se não fosse agora, perderia o sentido fazer mais adiante e partiríamos para outro projeto.”

A montagem, com dramaturgia de Paso e Celso Taddei, confere à obra machadiana um tom de fábula contemporânea para tratar de jogos de poder, negação à ciência, corrupção e autoritarismo. O doutor Simão Bacamarte (interpretado por Roger Gobeth, que, em 2024, substituiu Rômulo Estrela) é um médico renomado, que ostenta um currículo invejável, embora ninguém entenda direito as suas qualificações e especialidades. Junto da mulher, a deslumbrada Dona Evarista (papel de Luciana Fávero), ele se instala em Itaguaí, pequena cidade com aspirações à metrópole, e inaugura um hospital, a Casa Verde, onde planeja aplicar pesquisas sobre a loucura.
Como um ditador, Bacamarte passa a internar os habitantes baseado em discutíveis julgamentos. Ele decide quem perdeu a sanidade de acordo com os interesses pessoais e aqueles que ousam desafiá-lo são obrigados a vestir a camisa-de-força. Influenciada pelo cinema expressionista alemão da década de 1920, a encenação é marcada pela iluminação de Paulo Cesar Medeiros, com o predomínio de tons de branco, preto e cinza, que oferece uma estética sombria, e Simão Bacamarte é uma figura que lembra o cientista Frankenstein, protagonista do romance da inglesa Mary Shelley (1797-1851).
Se em 2022, O Alienista da Cia. Epigenia de Teatro trazia contundentes críticas ao negacionismo científico e aos desmandos bolsonaristas, a atual montagem passou por uma revisão que Paso compara àquelas que eram comuns nas dramaturgias dos espetáculos do teatro de revista, nas décadas de 1940 e 1950.
“A herança bolsonarista continua evidente, e O Alienista se tornou uma espécie de revista que atualizamos todo final de ano com as últimas notícias da política, tanto que estamos indo para a terceira versão”, diz o diretor. “Fizemos várias adequações em que citamos o caso do Banco Master e temos um personagem, o Chupetinha (vivido pelo Gustavo Delayte), que é um menino de 12 anos e preside a Câmara Municipal de Itaguaí, em uma alusão aos moleques que temos por aí na política.”

Paso reconhece que a força satírica da adaptação teatral é a responsável pela desistência dos fomentadores privados. Ele, porém, não se arrepende de não ter mudado nada no espetáculo porque acredita em um compromisso que precisa ser honrado pela companhia. “Na estreia, no Rio, sei de três diretores da empresa que nos patrocinou que deixaram o teatro quinze minutos depois do começo da sessão e tudo bem, arcamos com as consequências”, afirma. “É hora de os artistas se perguntarem onde estão os herdeiros do Zé Celso Martinez Corrêa, do Antunes Filho e do Aderbal Freire-Filho e não se corromperem por qualquer financiamento.”
Fundada em 2000, a Cia. Epigenia de Teatro tem uma sólida trajetória nos palcos cariocas e ganhou reconhecimento em São Paulo por espetáculos mais intimistas, como Oleanna (2015), Race (2017) e Hollywood (2018), todos do dramaturgo estadunidense David Mamet. Em 2023, veio a exceção, e o grupo ocupou o Teatro do Sesi com a comédia De Perto Ninguém É Normal, que tinha no elenco, além de Luciana, Milhem Cortaz, Clara Carvalho e Marcelo Varzea, entre outros, em uma temporada gratuita de três meses.
Um recomeço começa a ser planejado com as apresentações de O Alienista no TeatroIquè. Fundadores do coletivo, o casal Paso e Luciana concretiza uma mudança para São Paulo nos próximos meses. Ela vive na cidade desde janeiro e respondeu pela produção de Hamlet, Sonhos que Virão, peça dirigida por Rafael Gomes. A filha do casal, Diana, estuda letras na Universidade de São Paulo (USP), e o filho, Davi, prestes a se formar em cinema e teatro no Rio, planeja morar na capital paulista no ano que vem.
A Paso, aos 58 anos, coube testar mais esta coragem e fazer as malas. O objetivo, agora, é procurar um imóvel para a família se instalar e um outro para montar a sede da companhia. Assim como no Rio, Paso e Luciana pretendem desenvolver um cronograma de cursos de aprofundamento de interpretação para atores e atrizes, que aplicam, inclusive, para artistas de televisão interessados em, entre uma novela e outra, buscar se exercitarem na linguagem teatral. “O teatro acabou no Rio e não temos nenhum tipo de apoio”, lamenta. “A companhia sempre cumpriu aquilo que se propôs com coragem e continuaremos assim.”
Serviço
O Alienista
TeatroIquè. Rua Iquiririm, 110, Vila Indiana
Sexta, 21h. Sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 100
Até 1º de novembro (estreia 11 de setembro)
