“Inter Alia”, novo texto da dramaturga Suzie Miller, mergulha no universo jurídico para debater temas como responsabilidade moral, poder e os conflitos éticos entre vida pública e privada
Por Ubiratan Brasil (publicada em 4 de agosto de 2026)
A dramaturga australiana Suzie Miller alcançou um sucesso mundial com a peça Prima Facie ao levar para o palco o universo jurídico como espaço para discutir temas delicados como responsabilidades por crimes sexuais. Encenado por Débora Falabella desde 2024, o espetáculo atraiu mais de 150 mil espectadores.
O mais recente texto da autora, Inter Alia, chegou a São Paulo, no Teatro Vivo, agora protagonizado por Drica Moraes. E, se o anterior era um monólogo, agora ela divide a cena com Caco Ciocler e Caio Cesar Passos.
Drica vive Jéssica, uma juíza que, além de incorruptível, tem um olhar mais humano especialmente para as mulheres vítimas de estupro. Ela é casada com o advogado criminalista Michael (Ciocler) com quem tem um filho adolescente, Harry (Passos). Jéssica acredita viver uma rotina equilibrada entre carreira e família, quando um acontecimento inesperado coloca sua vida em colapso. O que parecia normalidade revela-se desregulado.

“Ela é uma juíza implacável no modo como lida com as vítimas vulneráveis, especialmente mulheres feridas e crianças”, conta Drica. “É casada com um homem com quem mantém uma disputa de poder dentro de casa, apesar do afeto. É um texto que também tem a presença do filho, que sofre bullying a vida toda e depois se envolve em um caso complicado.”
O crime cometido por Harry torna evidente a falha na criação, especialmente pelo lado paterno. “A peça toca em temas como abuso, violência, feminicídio, dificuldade de ocupar espaços de poder no mercado de trabalho e até a relação íntima de um casal, na qual a mulher ganha mais que o marido, é mais poderosa que o homem no campo profissional”, conta a atriz. “Também traça bem o que é o patriarcado, quem educa melhor o filho, especialmente o papel do pai e sua falta de conversa e colocação de limite, além da presença excessiva da mãe.”
A direção de Rodrigo Portella, um dos mais criativos encenadores da atualidade, torna a ação em um movimento crescente, com as dúvidas da juíza sendo assumidas pela plateia. Ele também teve a feliz ideia de o cenário ser aos poucos montado pelo elenco masculino: inicialmente vazio, o palco recebe elementos como cama, cadeiras e estrados que o transformam tanto em um ambiente familiar como na sala de um julgamento.
Equilibrar a compaixão pelo filho em um caso de abuso, mas ao mesmo tempo manter a responsabilidade como juíza é a dualidade vivida por Jéssica. “Esse pêndulo é a força motriz da peça, que revela o grande conflito da história. Inter Alia quer dizer ‘entre tantas coisas’, ou seja, é uma mulher sobrecarregada entre ser mãe, mulher, esposa, juíza, cidadã, feminista”, diz Drica, cuja preciosa interpretação transforma Jéssica em um dos mais interessantes personagens montados em São Paulo neste ano.
Serviço
Inter Alia
Teatro Vivo. Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460
Sextas e sábados, 20h. Domingos, 18h. R$ 200
Até 20 de setembro (estreou 31 de julho)
