Inspirado no clássico romance de Marcelo Rubens Paiva, espetáculo traz canções de Cazuza, Legião Urbana e Lulu Santos para relembrar a geração dos anos 1980
Por Ubiratan Brasil (publicada em 22 de setembro de 2026)
Há alguns anos, o diretor Gustavo Barchilon assistiu, em Londres, ao musical The Little Big Things. Emocionado, ligou para a mãe para contar como a trama o tinha sensibilizado. Ela respondeu imediatamente: “Mas essa é a história de Feliz Ano Velho. Esse livro marcou a minha vida”.
De fato, o musical tinha vários pontos em comum com a trajetória de Marcelo Rubens Paiva, a diferença está que, no espetáculo, o protagonista, depois de sofrer um acidente, tornava-se pintor.
“Logo pensei em transformar o Feliz Ano Velho em um musical porque, desde que o livro foi lançado, em 1982, tornou-se referência para uma geração”, disse o encenador que pesquisou a obra e a carreira de seu autor, Marcelo Rubens Paiva. “Consegui seu contato e ele me orientou a procurar Alcides Nogueira, que detém os direitos teatrais da obra e confiou a mim a missão de transformá-la em um musical.”

Nogueira dirigiu uma versão teatral do livro em 1983, dirigida por Paulo Betti e estrelada por Denise Del Vecchio, Lilia Cabral, Adilson Barros, Christiane Rando e Marcos Frota.
Com uma escrita viva, corriqueira, apaixonante, o livro marcou os jovens da geração dos anos 1980, que se preparava para a redemocratização, estabelecendo-se durante quatro anos na ponta da lista dos mais lidos com a venda de mais de 700 mil exemplares – isso em uma época em que o grupo de leitores era bem menor do que o de hoje.
A trama gira em torno da vida do adolescente Paiva, cujo rumo mudou radicalmente no dia 14 de dezembro de 1979 – naquela data, ele foi com amigos aproveitar o dia de sol em uma cachoeira às margens da Rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo. Confiante, ele subiu até o alto de uma pedra e de lá gritou, empolgado, que estava na caça de um tesouro – em seguida, deu um pulo no estilo Tio Patinhas, como descreveu depois.

O local, porém, era raso e Paiva bateu a cabeça no fundo do lago. Imediatamente, um zumbido invadiu seus ouvidos (Piiiiiii), seguido do desespero – ele não conseguia mexer as pernas. Retirado da água pelos amigos, foi levado a um hospital e socorrido por médicos, que constataram fratura da vértebra cervical, que comprimiu sua medula. Dali em diante, o jovem que completara 20 anos viu sua vida mudar radicalmente, dependendo de uma cadeira de rodas.
Em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, Feliz Ano Velho reúne lembranças de sua juventude e relata, com detalhes íntimos, a vida pré e pós-acidente. Permitiu também que muita gente descobrisse a história do pai, o deputado federal Rubens Paiva, morto em janeiro de 1971, um dia após ser preso pelo regime militar sem nenhum motivo que justificasse.
“Esta não é uma história sobre uma cadeira de rodas. Também não é apenas a história de um acidente. É a história de uma geração que cresceu durante a ditadura e chegou à vida adulta com vontade de liberdade, experimentando novos comportamentos e tentando reinventar o país: a chamada ‘geração Coca-Cola'”, comenta Barchilon, que se cercou de um grupo de profissionais para criar o musica, como Marilia Toledo, autora da adaptação, Gabriel Malo na direção de movimentos, Carlos Bauzys na direção musical e Natália Lana na cenografia.
Ciente de que o romance vai muito além da época em que foi escrito, Barchilon criou uma encenação que não se prende a datas. “Fragmentamos o tempo e misturamos memória, música, imagens, vídeos e sensações. Criamos um musical atemporal, em que o passado e o presente se encontram o tempo todo.”
Caminho semelhante o adotado por Marilia Toledo, que define a essência do espetáculo na primeira cena. Ao ser perguntado por um entrevistado sobre um momento marcante de sua vida, Paiva não cita o acidente que o deixou paraplégico ou o violento desaparecimento do pai. “Para ele, foi o fato de ter se tornado um escritor”, conta a dramaturga. “Esse olhar otimista marca o musical.”
Marilia também fez a primeira seleção das canções apresentadas no espetáculo, um trabalho criterioso pois as letras ajudam a contar a história. A lista foi montada com sucessos de Legião Urbana, Titãs, Lulu Santos e Barão Vermelho, entre outros. Músicas que embalam uma história onírica, despreocupada com o realismo. “São momentos delicados em que vivo o Marcelo mais velho e, de repente, com apenas um casaco, eu me transformo no pai dele”, conta o ator Bruno Garcia, que contracena diversas vezes com Hugo Bonemer no papel do Marcelo jovem, estabelecendo uma conversa franca entre o presente e o futuro. “Marcelo não romantiza as situações, preferindo manter a autocrítica e o humor mesmo em situações trágicas.”
Bonemer tem uma atuação destacada em que tanto reproduz as limitações de uma pessoa presa a uma cadeira de rodas como participa ativamente dos movimentos criados por Gabriel Malo que, como um balé, revelam as dificuldades e as imposições da vida. “Estamos falando de uma geração que tem uma vitalidade e uma visceralidade física, que beiram a inconsequência”, diz Malo. “Estamos falando sobre o corpo de um jovem de 20 anos que precisou reaprender a existir fisicamente.”
“Isso me exige uma grande variedade de emoções”, conta Bonemer, que aponta Feliz Ano Velho como seu musical mais desafiador. “É uma dinâmica que exige uma grande movimentação principalmente dos protagonistas.”
O único contraste é o personagem Eunice Paiva, mãe de Marcelo, vivida por Heloisa Perissé. Em meio a uma narrativa onírica, ela é a única que se prende à realidade. “É uma mulher que, depois de perder o marido assassinado, enfrenta a mudança radical na vida do filho. São muitas provações que exaltam sua força de luta”, diz a atriz.
Outro detalhe destacável é o cenário criado por Natalia Lana, com rampas móveis que exigem esforço físico dos atores, simbolizando as dificuldades enfrentadas por cadeirantes. Detalhe: o vermelho é o tom predominante, pois é a cor associada às pessoas com deficiência física.
Serviço
Feliz Ano Velho, o Musical
Teatro Sabesp Frei Caneca. Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, 7º andar
Sexta-feira, 20h. Sábado, 17h e 20h. Domingo, 15h e 18h. R$ 50 / R$ 120
Até 22 de novembro (estreou em 19 de setembro)
