Escrita por Samir Yazbek e dirigida por Ulysses Cruz, peça mostra também os contrastes entre Brasil e França, o racismo no país e o preconceito contra a mulher
Por Ubiratan Brasil (publicada em 4 de novembro de 2026)
Pode-se dizer que a atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923) é a inventora de um fenômeno abraçado pelas redes sociais, o da celebridade. A exposição pública não só trouxe notoriedade como teve seu preço – ela cumpriu suas vontades sem submissão em uma época em que isso era inimaginável para uma mulher.
“A primeira celebridade conhecida por todo o mundo ocidental, a mulher que forjou seu destino, fugindo de tudo que não queria ser ou não podia enfrentar, empresária, escultora de talento, musa, escritora, atriz etc., veio atuar em São Paulo dois anos antes da abolição oficial da escravatura”, conta Ulysses Cruz, diretor de Sarah Bernhardt em São Paulo, peça de Samir Yazbek em cartaz no Sesc Santana.
Como o próprio título aponta, o espetáculo é inspirado na primeira visita da lendária Bernhardt ao Brasil em 1886, quando esteve em contato com os estudantes da Academia de Direito de São Paulo (hoje Faculdade de Direito do Largo de São Francisco), cidade onde se apresentou com peças como A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, e Fedra, de Racine, entre outras.

A partir da relação da atriz com os estudantes paulistas, a peça é uma parábola que aborda temas como a importância do teatro na evolução da sociedade, os contrastes entre o Brasil e a França, o racismo no país e o preconceito contra a mulher.
“O que aconteceu aqui, de fato, poucos sabem”, observa Cruz. “Samir Yazbek preencheu com imaginação os encontros da atriz com seus fãs, então estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, além de outras personagens, revelando o choque de culturas e um encontro de mundos. A França sofisticada de Sarah Bernhardt se depara com o Brasil em transformação, em um momento de efervescência cultural e política.”
Yazbek relembra o interesse teatral da narrativa que lhe foi contada por Cruz. “Logo notei que essa história, tão pouco conhecida dos brasileiros, possibilitava um mergulho em temas que marcaram a nossa formação e que continuam ecoando em nossa sociedade”, afirma.
A atriz Arietha Corrêa interpreta Sarah Bernhardt e o elenco conta, ainda, com a participação especial de Bárbara Bruno e com nomes como Daniel Haidar, Jorge Neto, e Gabriela Correa, além de quatro jovens egressos da Escola Superior de Artes Célia Helena: Flávio Passos, Gabriel Amaral, Gabriel Frossard e Henrique Fredel.

Em 1905, ao atuar em La Tosca, de Victorien Sardou, no Teatro Municipal do Rio, Sarah machucou o joelho direito em uma cena e nunca mais se recuperou do ferimento. Em 1915, ela decidiu amputar a perna direita, atingida por dores insuportáveis. Sua morte, em 1923, provocou um funeral de três dias, em Paris, agitação comparável ao enterro de Victor Hugo, 40 anos antes.
A um de seus incontáveis amantes, o ator Mounet-Sully, ela se confessou: “Não é minha culpa que eu sempre esteja à procura de novas sensações e emoções. Meu coração exige excitamento maior do que alguém pode oferecer. Sou uma pessoa incompleta”.
Serviço
Sarah Bernhardt em São Paulo
Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579
Sexta e sábado, 20h. Domingo e feriado, 18h. Sessões extras dias 12/11 (quinta-feira) e 13/11 (sexta-feira), 15h. R$ 60
Até 22 de novembro (estreou em 16 de outubro)