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Felipe Hintze desafia a imagem do gordinho bem-humorado com personagem soturno em “Proibido para Menores de 18 Anos”

Sinopse

O monólogo, dirigido por Nicolas Ahnert, apresenta personagem envolvido em questões complexas, como a associação da violência ao prazer

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 30 de julho de 2026)

O ator paulista Felipe Hintze, de 33 anos, é grato à forma e até a rapidez com que sua carreira deslanchou em pouco mais de uma década. Em 2009, ele deixou Campinas para estudar teatro em São Paulo, quatro anos depois contracenou com a atriz Maria Fernanda Cândido e o ator Reynaldo Gianecchini na peça A Toca do Coelho e, em 2014, deu as caras pela primeira vez na Rede Globo na série Dupla Identidade. 

O sucesso, tão perseguido pelos colegas, veio com a novela Verdades Secretas, de Walcyr Carrasco, no ano seguinte. Na pele de Eziel, o melhor amigo da protagonista, Angel (a atriz Camila Queiroz), o jovem levantou discussões sobre bullying e gordofobia e não parou mais de trabalhar.

Hintze fez peças marcantes, como Senhor das Moscas (2017) e A Herança (2023), dirigidas por Zé Henrique de Paula, e Névoa (2022/2024), comandada por Lavínia Pannunzio, e voltou à televisão nas novelas O Sétimo Guardião (2018), Quanto Mais Vida, Melhor! (2021) e Família É Tudo (2024). No ano passado, ele se destacou no musical intimista Aqui Jazz, escrito e dirigido por Giovani Tozi, e filmou os longas-metragens No Jardim do Ogro e A Cuidadora, com as atrizes Alice Braga e Débora Falabella, respectivamente. 

Em um mercado tão instável, não havia muito do que reclamar, mas Hintze, de uns anos para cá, se sentia inquieto, incomodado, limitado a quase sempre um mesmo tipo de papel: o do gordinho bem-humorado e coadjuvante. “Eu era a prova de que o corpo gordo é sempre estereotipado e explorado pelo viés cômico”, reconhece. “Queria trabalhar um lado mais sombrio e me testar em lugares para o qual dificilmente seria chamado.”

Felipe Hintze no monólogo Proibido para Menores de 18 Anos. Foto Caio Oviedo

Ao invés de se sentar no sofá e desfiar um rosário de lamentações, Hintze foi para a prática e, neste sábado, dia 1º, estreia o monólogo Proibido para Menores de 18 Anos, dirigido por Nicolas Ahnert, coautor da dramaturgia ao lado do protagonista. O solo entra em cartaz no Teatro Estúdio, nos Campos Elíseos, sem qualquer tipo de patrocínio, bancado pelo ator e saltou do terreno das ideias para a cena em pouco mais de seis meses. 

Em outubro, Hintze assistiu ao solo Triste! Triste… Triste?, escrito e dirigido por Ahnert e protagonizado por Thalles Cabral, e, duas semanas depois, os dois, que se conheciam dos bastidores da novela Quanto Mais Vida, Melhor!, começaram as pesquisas para desenvolver um texto.

O livro Diante da Dor dos Outros, da escritora e filósofa estadunidense Susan Sontag (1933-2004), foi uma das bases. “A gente se encontrava três tardes por semana, entre abril e maio escrevemos a peça e, nos últimos dois meses, ensaiamos”, conta Hintze. “Vejo os artistas da minha geração reclamando e se achando injustiçados, mas falta a muitos tomar as rédeas e fazer a coisa acontecer.”

O sugestivo título Proibido para Menores de 18 Anos não é uma propaganda enganosa, e a peça fala de questões complexas da vida contemporânea, como a associação de violência e prazer. Hintze interpreta o funcionário daquela que seria a última lan house de uma grande cidade. Sua rotina monótona é sacudida ao testemunhar um acidente de carro que deixa o motorista morto. 

O corpo retorcido entre as ferragens desperta uma obsessão no protagonista e, de posse dos dados do sujeito, ele levanta detalhes da sua história, invadindo redes sociais e se comunicando com a ex-namorada do morto (representada em off pela voz da atriz Débora Falabella). O espetáculo propõe um mergulho em zonas contraditórias, em que horror e desejo, repulsa e atração, convivem lado a lado. “Aquele acidente foi o primeiro sinal de vida que personagem sentiu no tédio que era o dia a dia dele”, explica o ator. “Ele começa a erotizar a violência em cima da identidade do morto.”

Como dramaturgo e diretor, Nicolas Ahnert, de 27 anos, afirma que a agressividade é um tema que lhe desperta interesse e mapeia a sua obra em diferentes derivações. Se Proibido para Menores de 18 Anos trata da violência, Triste! Triste… Triste? aborda o luto e a depressão de um filho diante da morte da mãe. O autor ainda tem uma dramaturgia inédita sobre as consequências trágicas da repressão do desejo.

Felipe Hintze em outro momento de Proibido para Menores de 18 Anos. Foto Caio Oviedo

Assim que Hintze lhe apresentou o rascunho de uma dramaturgia ancorada na banalização da violência, Ahnert passou a destrinchar como a questão alinhada ao desejo é representada o tempo inteiro pela mídia.  “Consumimos diariamente conteúdos pesados e estamos diante de tanta glamorização que, na maioria das vezes, nem nos damos conta, basta pensar que várias gerações cresceram assistindo ao desenho do Pica-Pau”, alerta Ahnert. “O que nos interessa é instigar o espectador para que ele se sinta incomodado a ponto de querer entender o que lhe inspira prazer nas imagens que vê diariamente.” 

Ahnert é de Vila Velha, no Espírito Santo, e mora em São Paulo desde 2017. Foi assistente de direção de Ulysses Cruz no monólogo Gala Dalí, protagonizado por Mara Carvalho, e em Susi, O Musical, espetáculo idealizado e escrito por Mara inspirado na famosa boneca que fez sucesso nas décadas de 1960 e 1970. Da mesma forma que Hintze, ele acredita que, muitas vezes, o teatro perde a hora certa para abordar assuntos relevantes, seja pela burocracia que envolve a obtenção de um patrocínio ou até por falta de iniciativa dos artistas. “Tem histórias que vão pulsando na gente e precisam ser contadas logo”, diz o autor e diretor. “Por isso, o teatro é uma arte do ‘aqui e agora’, não dá para deixar para depois.” 

Serviço

Proibido para Menores de 18 Anos

Teatro Estúdio. Rua Conselheiro Nébias, 891

Sábados, 20h30. R$ 80

Até 27 de setembro (estreia 1º de agosto) 

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Ficha Técnica

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Serviço

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