Com o solo “Manifesto”, o ator divulga as ideias de um homem que rompeu com as regras sociais para falar de alteridade
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 23 de julho de 2026)
Ator, dramaturgo, diretor e professor, Lee Taylor, de 42 anos, tem batalhado para colocar em prática uma consciência adquirida ao longo de suas duas décadas de carreira: ele procura se dedicar somente a trabalhos que lhe façam sentido como indivíduo e artista.
Mais recentemente, neste percurso, Taylor encontrou uma figura real que poderia ser alçada a objeto de inspiração e dialogar com o seu discurso – o artista plástico, filósofo e ativista social capixaba Eduardo Marinho, de 65 anos. Nascida em uma classe média alta, filho de militar, Marinho abandonou no começo da juventude uma estrutura privilegiada para viver nas ruas, vendendo seus quadros e se integrando a uma realidade para a qual a maioria faz vistas grossas.
É sobre Eduardo Marinho, mas não somente sobre ele ou apoiado em uma estrutura biográfica, Manifesto, monólogo idealizado, escrito e protagonizado por Taylor, que, sob a direção de Georgette Fadel, estreou nesta quarta, 22, no Complexo Cultural Funarte, em São Paulo. No pátio central da sede da instituição, em Santa Cecília, Taylor montou uma estrutura de 108 lugares, levou um kombi e instalou um poste de luz para, ao ar livre, fora das quatros paredes de um teatro convencional, divulgar o pensamento de um homem que aplica suas ideias no cotidiano.

“O Marinho fala da desconstrução do ego por uma vida que faz sentido”, explica o artista. “O mais importante não são as reflexões, mas a raiz do pensamento de um ser humano que queria viver plenamente e não ficar engessado nas regras impostas pela sociedade.”
Manifesto não é mais um solo de um intérprete ansioso para expressar seus conflitos pessoais no palco. É a consequência de uma trajetória que atinge uma maturidade na qual um monólogo aparece com naturalidade. O ator goiano chegou a São Paulo aos 18 anos, em 2002, para estudar na Escola de Comunicação e Arte da USP e, dois anos depois, entrou para o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), coordenado pelo diretor Antunes Filho (1929-2019), em que ficou até 2013.
Em uma trajetória rápida e surpreendente, ganhou experiência, reconhecimento e aplausos como protagonistas de peças emblemáticas como A Pedra do Reino (2006), Senhora dos Afogados (2008) e Policarpo Quaresma (2010). No mesmo 2013 em que saiu do CPT, fundou o Núcleo de Artes Cênicas (NAC) e exerce o seu talento de artista pedagogo no curso de interpretação que já preparou uma centena de atores e atrizes.
No audiovisual, Taylor teve trabalhos relevantes nas novelas Velho Chico (2016) e A Dona do Pedaço (2019) e nas séries Onde Nascem os Fortes (2016) e Dias Perfeitos (2024), todas na Rede Globo, além da série Irmandade (2019/2022), da Netflix. “Na minha carreira, não foi nada fácil e, por isso, sei que preciso honrar o meu momento e falar sobre o que acredito”, ressalta. “Quanto mais bagagem a gente tem, mais se presta atenção no que vai fazer.”

O longo percurso até o espetáculo Manifesto é diretamente ligado ao artista pedagogo. O estudo de Taylor surge do interesse da pesquisa documental ligada à visão de mundo e vem sendo desenvolvida desde os tempos da USP. “Descobri que era um ponto de vista eficiente não só como dramaturgia, mas como atuação porque tira o intérprete do senso comum”, explica. “Você se depara com pessoas reais que têm contradições que uma dramaturgia convencional não contempla.”
Quando começou a ensaiar no CPT, Taylor percebeu a riqueza deste estudo que já desenvolvia na universidade e todos os trabalhos do NAC são frutos de pesquisa documental. O desejo de fazer um monólogo vem desde a fase do rompimento com Antunes e a fundação do próprio curso. Neste caminho, ele foi sendo tomado por outros projetos, principalmente relacionados aos processos de formação, e só agora veio a brecha aliada à inspiração.
Tanto que, neste período, Taylor participou de apenas dois espetáculos como ator, Na Selva das Cidades, dirigido por Cibele Forjaz em 2016, e Avenida Paulista, da Consolação ao Paraíso, encenação de Felipe Hirsch vista no ano passado, em que contracenou com Georgette Fadel e se aproximou da futura diretora. “Georgette veio para o projeto para me provocar e me colocar em um outro lugar que não alcançaria sozinho”, justifica.
Alguns vídeos sobre Marinho viralizaram no Youtube, Taylor ouviu melhor suas opiniões em podcasts e, depois de um primeiro contato por e-mail, encarado com um pouco receio por Marinho, os dois se conheceram, ganharam intimidade e o projeto deslanchou.
Marinho morava em Mendes, no Rio de Janeiro, e está se mudando para Niterói, praticamente do lado da capital fluminense. Com sua Kombi, ele perambula de praça em praça, expondo seus quadros, vendendo alguns e, principalmente, conversando com as pessoas, trocando ideais. “Tenho certeza de que todo mundo tem um Eduardo Marinho dentro de si e não pode dar vazão por algum motivo”, provoca Taylor. “Não quero discursar somente para a plateia do teatro porque isto já fiz muito, então, agora, meu objetivo é falar na rua para quem quiser ouvir.”
Serviço
Manifesto
Complexo Cultural Funarte. Alameda Nothmann, 1058
Quinta a sábado, 19h30. Domingo, 19h. Grátis. Ingressos distribuídos uma hora antes na bilheteria da Funarte. Não haverá sessão no domingo, 26 de julho
Até 30 de agosto (estreia 22 de julho)
