“Idiota Convicto”, que reúne textos de vários dramaturgos e dramaturgas, é a narrativa da memória de um ator preso em casa e que passeia por diversos quadros e temas; com uso de sua comicidade crítica, o ator mira em questões políticas contemporâneas
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 6 de julho de 2026)
O palhaço Hugo Possolo comemora 45 anos de carreira e segue com o alarme das inquietações aceso. Suas intranquilidades miram para o fato de que a sociedade contemporânea está cada vez “mais intolerante, tensa e agressiva”. E esta reflexão se apoia em diversos fatores históricos mundiais significativos apontados por ele.
“O advento das redes sociais e os comportamentos dela derivados; a volta e violência do fascismo e dos grupos de extrema direita, o militarismo à máfia miliciana; as guerras que ameaçam uma Terceira Guerra Mundial, com possibilidade de utilização de bombas atômicas; o aquecimento global e a destruição do planeta por interesses econômicos e, por fim, o desprezo às Ciências e às Artes, gerando incompreensíveis elogios à ignorância”, são fatos que ele apresenta para justificar a criação do seu mais novo espetáculo, Idiota Convicto.

Por meio do humor, marca constante do seu trabalho, e com diferentes personagens que zombam da normalização crescente da mediocridade que vem tornando a sociedade cada vez mais embrutecida, a dramaturgia reúne textos exclusivos de renomados dramaturgos e dramaturgas como Luís Alberto de Abreu, Ana Saggese, Maíra Dvorek, Michelle Ferreira e Sérgio Roveri.
Luís Alberto de Abreu, que foi mestre de Possolo na dramaturgia, traz a situação insólita de um homem que encontra uma argola viva no meio da calçada, até entender que era uma pessoa que virou do avesso. Michelle Ferreira fala de um professor de cinema que, com sua arrogância diante dos alunos, trata a sua própria vida como um roteiro. Ana Saggese e Maíra Dvorek apresentam Deus no comando de tudo, tomando atitudes descontroladas e autoritárias. Sérgio Roveri mostra um pai que não aceita que o filho possa sonhar e ser feliz.
Mais uma vez ele faz uso da comicidade para explorar na cena seu desagravo com o mundo. “No fundo, os desafios do humor estão em saber questionar os temas contemporâneos sem querer definir para o público quais são as soluções. Até mesmo porque não as temos”, completa o ator.
Assim, Possolo procurou uma dramaturgia que definisse uma persona múltipla, que se mostra o idiota absoluto do título, totalmente convicto de que está sempre certo. Esse idiota, a persona central, é um ator que não consegue sair de seu apartamento, porque perdeu as chaves. Preocupado com sua memória, ele repassa o que fez antes, para tentar lembrar onde deixou a chave. É aí que entra a escrita dos dramaturgos e dramaturgas.
O esforço da personagem traz lembranças de outros fatos que o fazem reviver suas várias personagens, do passado e do presente. Os protagonistas que revive, enquanto tenta sair de casa, são um pouco dele mesmo e um pouco da visão que teve sobre essas personagens que representou um dia. Essas diversas pessoas e situações, a partir do momento em que ele se ridiculariza, chegam ao público igualmente idiotas.
Possolo define a peça como “mais uma provocação parlapatônica, sem julgamentos condenatórios aos idiotas, até porque sou um. Quero deixar ao público as reflexões de como e porque nos tornamos assim, tão tolos e tão convictos de nosso destino errático e sem sentido”.

Se em Prego na Testa, solo de 2005 escrito por Aimar Labaki, que lhe valeu uma indicação ao Prêmio Shell de melhor ator, o foco estava nas personagens que enlouquecem com a solidão das grandes cidades; e em Eu Cão Eu, texto escrito por ele em 2012, indicado ao Shell na categoria de melhor dramaturgia, mergulhava na força que tem um vício em mudar a vida das pessoas; Idiota Convicto trata da dificuldade de relações sociais das personagens e de como isso as embrutece.
Mais que um solo, o espetáculo resulta de um processo longo de pesquisa que vem celebrar junto a diversos artistas o trabalho em torno da palhaçaria e do teatro popular. Com comicidade e lirismo, o grupo busca trazer um diferente ângulo de visão que possa, com a comunicação direta com a plateia – típica da linguagem dos Parlapatões -, contribuir na construção de uma cidadania mais solidária.
Não à toa, as comemorações não se limitam apenas a Possolo, mas também aos 35 anos do grupo Parlapatões e aos 20 anos de atividades do Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, em São Paulo.
Serviço
Idiota Convicto
Espaço Parlapatões. Praça Franklin Roosevelt, 158
Sábados, 22h. Não haverá sessão dia 1º/8. R$ 70
Até 29 de agosto (estreou 4 de julho)
