“Um Amigo Não Imaginário’” da Cia. Navega Jangada de Teatro, em cartaz no Sesc Santo Amaro, fala com as crianças consumistas e tecnológicas de hoje sobre o “intangível da vida”, em um enredo que surpreende até os adultos
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 26 de junho de 2026)
A ideia é incrível. Criar uma peça sobre um amigo imaginário que precisa, por assim dizer, ser ‘desvirginado’, porque até agora nenhuma criança o acessou. Sim, ele existe – e precisa ‘estrear’ como amigo invisível de alguém. Seu desafio é conquistar o imaginário de uma criança e, a partir daí, ganhar vida. Ele passa a viver a angústia de ser uma figura solitária no mundo da imaginação. Assim é Um Amigo Não Imaginário, espetáculo infantil da Cia. Navega Jangada de Teatro, em cartaz até início de agosto no Sesc Santo Amaro.
Houve uma temporada de estreia em janeiro e fevereiro no Sesc Pinheiros e agora o sucesso continua. “Tem sido bem bacana a recepção”, confirma a autora e diretora da peça, Talita Cabral. “Principalmente porque os adultos também se dispõem a rir e a chorar com a gente. Assim como em todos os espetáculos da nossa companhia, acreditamos em um teatro para a família, em que o adulto possa também se envolver com o enredo. Levamos sempre as palavras do grande mestre Ilo Krugli: ‘O bom teatro para crianças é o bom teatro para todo o público’.”
Como será que Talita Cabral teve a ideia desse inusitado enredo? Ela responde: “Em algumas conversas sobre infância com amigos, alguns deles me descreveram suas experiências com amigos imaginários. Relatando essas conversas em um café com uma grande amiga, ela me deu o pontapé com a frase: ‘Por que você não faz uma peça sobre isso?’. Resolvi então falar sobre o tema, mas na visão também do adulto”. Ela própria, em sua infância, não se lembra de um amigo imaginário, mas a mãe lhe garante que havia, sim, ‘alguém’ com quem a pequena Talita conversava. “Me recordo pouco, mas minha mãe me conta que, com cerca de 2 anos e meio mais ou menos, eu relatava que havia sempre um amigo comigo. Na hora de jantar, eu dava comida na boca dele, e é claro que a comida ia para o chão.”

O mágico desse enredo é que, para muito além de valorizar a imaginação, o que já é por si só uma boa premissa, ele também instiga o público – sem pregações nem frases construtivas chatas – a tentar compreender o intangível da vida, desafiando as convenções do mundo racional. Isso é fundamental para as crianças, sobretudo nos dias de hoje, como argumenta a dramaturga. O essencial, muitas vezes, é invisível aos olhos. Ela diz: “Num cenário cotidiano em que tudo é tão descartável, em que ‘ter algo’ é importante para grande parte das crianças, falar sobre a possibilidade de criação, de diversão, de conexão com o que não se pode ‘pegar’ se faz necessário. Às vezes, as grandes descobertas e encantamentos estão no simples”.
Para Talita, dirigir o próprio texto não é mais nenhum desafio. Ela tira de letra. “Há 18 anos escrevo e dirijo todos os espetáculos da Navega Jangada”, relembra. “O texto para mim pode facilmente ser um pretexto, dando espaço ao ator criador. Algumas cenas já chegam à sala de ensaio escritas, mas outras não. A partir de um roteiro prévio, nascem as improvisações que muitas vezes ajudam a compor parte da dramaturgia. Poderia dizer que, no meu caso, a encenadora estará sempre à frente, sem apego fiel ao próprio texto.”
Serviço
Um Amigo Não Imaginário
Sesc Santo Amaro. Rua Amador Bueno 5055
Domingos, 16h. R$ 40. Grátis para crianças de até 12 anos
Até 2 de agosto (estreou em 21 de junho)
