O espetáculo, criação dos grupos Virada da Encruza e Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, realiza temporadas lotadas desde 2024 e transforma uma das obras mais conhecidas do dramaturgo em um campo de disputa sobre quem pode representar, narrar e ocupar determinados espaços
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 22 de junho de 2026)
Há uma cena no filme Os Sete Gatinhos, de 1980, dirigido por Neville d’Almeida, na qual o personagem Noronha, vivido por Lima Duarte, está sentado na privada e se depara com vários pênis com asas desenhados na parede branca do banheiro. Diante disso, ele insurge pela casa com a pergunta: “Quem foi que desenhou caralhinhos voadores na parede do banheiro?”.
O questionamento é feito de forma bruta e autoritária a sua esposa e filhas. Essa passagem icônica do filme não está no texto escrito por Nelson Rodrigues, em 1958, mas sintetiza a ideia da obra que exprime o caráter devastador do patriarcado na família. É a personagem de Noronha, o pai da família, que quer a todo custo reger os costumes e a ordem da casa.

Com direção de Joana Medeiros, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona propõe uma leitura contemporânea ao clássico rodriguiano. Com a presença expressiva de artistas trans em diferentes áreas da criação, a cena é transposta do Rio de Janeiro para um cortiço do Bexiga, em São Paulo.
Para o diretor de cena Gii Lisboa, revisitar Nelson Rodrigues hoje significa justamente confrontar sua obra com subjetividades historicamente excluídas dos palcos. “Ao mesmo tempo que Nelson se mostra muito atual, a gente tem que lembrar que também houve um tantão de montagens dele. Então como reatualizar e renovar Nelson? Nada como irmos ao encontro dele na integridade de nossas subjetividades dissidentes”, afirma o artista.

Segundo ele, a presença trans não suaviza os conflitos da dramaturgia, mas potencializa sua dimensão crítica. “Aqui a gente tem total alinhamento da construção em cena desta violência para chegarmos à queda desse patriarca, à execução desta podridão de patriarcado. A presença trans indica também a força dessas dissidências na nossa luta cotidiana em sociedade para enterrar o patriarcado.”
As discussões sobre gênero atravessaram toda a construção do espetáculo e sem alterar uma linha da dramaturgia, a montagem responde ao autor a partir da própria presença de artistas que desafiam as normas de gênero e ampliam as possibilidades de leitura de um clássico brasileiro.
Gil destaca que a própria dramaturgia já aborda temas como o controle dos corpos femininos, a virgindade e as relações de poder dentro da família, mas que a montagem amplia essas questões a partir de experiências contemporâneas. Um dos exemplos está na personagem Silene, interpretado por Zizi Yndio do Brasil.
“Na nossa montagem, a gente desvira Nelson apresentando uma Silene trans, que não tem útero e está grávida, e que se diz inclusive ‘até mais mulher’ que as irmãs. Em vez de retalhar a dramaturgia ou apagar suas contradições, respondemos com a própria presença em cena, lembrando ao público que existe mulher sem útero, sim.”
Serviço
7 Gatinhos
Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Rua Jaceguai, 520
Sextas e sábados, 20h. Domingos, 19h. R$ 100
Até 12 de julho (reestreou 20 de junho)
