“À Procura de João”, que chega no Teatro Arthur Azevedo, retrata a história real de um menino que não consegue mais falar e tem como tentativa de cura uma jornada de fabulação proporcionada pelos pais e pela irmã
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 24 de abril de 2026)
Em um só espetáculo, vários tipos conhecidos de João. Isso mesmo, você nem vai acreditar. Tem o do pé de feijão, tem aquele que é o irmão da Maria na história da bruxa da casinha de chocolates, tem o João Pestana (figura folclórica portuguesa que carrega um pó mágico para fazer as pessoas dormirem) e, olha só, tem até o João Grilo, personagem da maioria das histórias de cordel e que você certamente conhece do Auto da Compadecida. Todos eles aparecem na peça À Procura de João, que estreia no sábado, dia 25, no Teatro Artur Azevedo, na Mooca, com entrada franca.
Mas o que é que eles estão fazendo aí? São artifícios da pena esperta da autora da peça, Paula Chagas Autran, que também assina a direção, em parceria com Fábio Brandi Torres. Ela quis usar esses personagens fictícios para falar de um João real, um menino que perdeu a vontade de falar, doença rara que exige a cumplicidade dos pais e da irmã, Carol. “A ideia inicial foi falar do João que não sai da cama há anos por conta de uma doença, e não consegue falar, só sua irmã consegue acessá-lo”, detalha a dramaturga.
“Seus pais vivem em volta dessa doença”, prossegue ela. “A peça se passa na última noite em casa, quando eles não têm mais saídas e resolvem levá-lo para um hospital, o que vai separá-lo da irmã. Aí surge a fabulação, como possibilidade de cura. Tentativa. Os pais contam essas histórias para eles todas as noites, eles se sentem próximos desses Joões. Daí a entrada deles na história. O que acompanhamos é a aventura dos irmãos com esses personagens. A importância de sonhar, mas de ter um ‘chão’ para isso, dado pela contação de histórias que os pais fazem todas as noites. Os personagens são parceiros de vida deles. Foi assim que a literatura sempre foi para mim também. Parceira de vida.”

Paula considera que a fabulação é ainda o caminho mais certeiro para se falar de temas sérios com as crianças no teatro. Ela diz: “Sim, a fábula, sem lição de moral, sem mensagem direta, sem venda de produtos. Fazer a criança passar por todos os assuntos, vivenciando uma história, sendo cúmplice dos personagens. Criança não tem medo da quarta parede, não liga para distanciamento, nem para teorias. Ela vivencia a história, sente e pensa ao mesmo tempo. Nada como a fabulação para isso. Até Brecht no final da vida voltou para a fabulação, com sua linda última peça Galileu Galilei. E como dizia David Mamet: ‘É da natureza humana dramatizar’. A criança faz isso instintivamente. Que o teatro, então, a ajude a construir mundos melhores e lembrar que o futuro nada é mais é do que fabulação. Podemos juntos fazer um futuro melhor. Creio mesmo nisso!”
À Procura de João é uma peça que fala das dificuldades de comunicação e da importância da cumplicidade. Paula Autran defende muito esse tipo de tema o teatro infantil. “Eu acredito de verdade que a narrativa ficcional (mesmo que baseada em fatos reais) pode chegar em locais dentro da criança que nenhuma outra forma de comunicação chega. O inconsciente infantil é muito forte e trabalha o tempo todo, muitas vezes pela forma da fabulação. Não é necessário ser literal e usar a linguagem do ‘tatibitati’ com elas. Crianças são muito mais espertas do que se pensa. Mas também sofrem e têm dores verdadeiras, muitas vezes negligenciadas pelos adultos. O teatro liberta e faz sonhar, mas também faz pensar, e de um jeito único, que pode ficar para a vida toda.”
Paula é autora também de peças para adultos e conta um pouco sobre o que ela acessa dentro dela na hora de virar a chave e começar a escrever um texto que será prioritariamente destinado ao público infantil. “É engraçado responder isso, pois é mesmo bem dicotômico”, comenta. “Ao mesmo tempo me dá uma liberdade muito grande e uma grande responsabilidade. Na hora da escrita, tento ‘soltar a mão’ e pensar, antes de tudo, que as crianças não têm nada de bobas. Mas também que cada uma vai entender da história o que puder. Tento dar camadas à história.”

Mãe de um filho único e cheia de irmãos, ela própria cabe dentro da história que escreveu: “Tenho quatro irmãos. Duas cresceram comigo, dormindo no mesmo quarto, dividindo beliche, dificuldades, medos e sonhos. Por aí tenho bastante material para trabalhar essa história. Uma pena meu filho não ter irmãos da mesma idade. Ele tem três irmãos por parte de pai, mas moram longe e são mais velhos, ele já tem três sobrinhos. E amigos que até escova de dente têm aqui em casa! O companheirismo mora nisso tudo. E foi isso que tentei passar nessa peça”.
E como foi a experiência de codirigir, além de escrever? “Foi muito bacana”, ela responde, de pronto. “Pude ver o que funciona e o que não funciona na hora, no palco, na boca do ator. E insistir em algumas ideias, porque só como dramaturga, muitas vezes, você não é ‘ouvida’. Meu parceiro de jornada é muito bom de cena, o Fabio Brandi Torres. Aprendo muito com ele. Mas a cena é soberana e estar perto dela é essencial para que a peça aconteça da melhor forma possível. Me torno uma dramaturga melhor se estou vendo a cena de perto!”
Serviço
À Procura de João
Teatro Arthur Azevedo. Av. Paes de Barros, 955
Sábados e domingos, 16h. Dia 6 de maio, quarta-feira, 10h30 e 14h. Grátis
Até 17 de maio (estreia 25 de abril)