Na peça que estreia sábado no Sesc Consolação, o coletivo Casca propõe um ‘entre-mundos’, em que as pontes de convivência entre adultos e crianças são mais seguras, com menos solidão e mais escuta e mediação
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 10 de abril de 2026)
Muitas crianças querem crescer antes do tempo. Adquirem hábitos fora de sua faixa etária, imitam os adultos, se sentem ansiosas, acham que se forem mais velhas serão mais respeitadas. Esse é o ponto de partida para a peça Planeta Pelúcia, que estreia no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, com sessões sempre aos sábados, às 11 horas.
O grupo responsável por esse desafio temático é o Casca – Coletivo de Criação, o mesmo que brilhou anos atrás falando de morte para crianças em Aqui Tem Vida Demais!. Os personagens remexiam em uma cova, em busca de respostas sobre o fim da vida. Agora, em Planeta Pelúcia, uma criança, ao desejar crescer antes do tempo, invade o quartinho de bagunça dos adultos, lugar onde ainda não deveria entrar. Para falar desse tema tão importante, a síndrome de adultopia, conversamos com o autor do espetáculo, também integrante do elenco, Bruno Canabarro.

Que aprendizado você trouxe da peça anterior do coletivo para esta nova produção?
No trabalho anterior, Aqui Tem Vida Demais!, o coletivo investigava a infância a partir da experiência do luto vivida por duas crianças que encaram a morte, sem o suporte dos adultos. Já em Planeta Pelúcia, esse aprendizado se desdobra ao apresentar uma inversão: uma criança que vive sozinha, apenas com a presença de seus brinquedos e dos adultos, o que faz com que ela seja ‘adultizada’. Com isso, compreende-se que é preciso também imergir na relação entre os mundos que foram construídos socialmente, distinguindo e separando a infância da ‘adultice’. A proposta aqui é a criação de um “entre-mundos”, ou seja, um planeta novo, comum a todas as pessoas, grandes ou pequenas, cada qual com sua especificidade e vivendo suas etapas de desenvolvimento em segurança. Assim, nascem possibilidades de outras configurações para a convivência entre eles, a partir de suas fricções e seus desafios. Surge, então, uma ampliação da pesquisa: em vez de crianças isoladas nos próprios conflitos, agora pensamos em como construir pontes de convivência. O espetáculo traz como aprendizado central a necessidade de escuta e mediação, evitando uma relação colonizadora dos adultos sobre as crianças e propondo um espaço compartilhado de existência. Por fim, desejamos que o nosso mundo tenha cada vez mais adultos-crianças e cada vez menos crianças-adultas.
Você foi uma criança que queria ser adulto? Como lidou com isso? Se não foi, de onde veio a ideia da peça?
Acredito que já passou pela cabeça de toda criança a ideia de ser maior, de crescer logo, como se o mundo apresentado a elas não bastasse (e, talvez, realmente não seja o suficiente). Comigo não foi diferente, porém, tive a possibilidade de experimentar o trânsito entre estes universos com a ajuda, mediação e presença de minha mãe e meu pai durante o meu crescimento. Lembro-me que tive de aprender a gostar de ser criança. Aprendi um tanto e outro tanto sigo aprendendo diariamente junto das crianças. Vestir as roupas e os calçados dos responsáveis, usar os objetos que não são apropriados à sua idade, falar em dialetos baseados na lógica dos adultos e da mídia, dentre tantas outras atitudes que nos mostram o quanto as crianças precisam de atenção e cuidado. Entendemos em nossa pesquisa para a criação deste espetáculo que o desejo de crescer é inato às crianças, e elas podem querer alcançar esse desejo por diversas motivações. Então, o espetáculo nasce da observação deste desejo contemporâneo bastante presente: o de crescer rápido para ser vista e ouvida. Em Planeta Pelúcia, isso aparece na trajetória de Pati, que acredita que só será “alguém” quando for adulta, já que, enquanto é criança, não se sente considerada. Esse impulso não é tratado como algo individual apenas, mas como reflexo de um mundo que valoriza produtividade, autonomia precoce e consumo exacerbado – elementos que atravessam também as infâncias. A ideia da peça surge justamente desse atrito: entre o tempo do desenvolvimento da criança e a pressão para que ela antecipe etapas, muitas vezes sem compreender que, o que está em jogo, é sua própria maneira de ser e existir neste mundo. E sempre é importante lembrar: se há um lugar onde todas as pessoas se encontram, é nas experiências das nossas infâncias.

O que a peça propõe como ferramenta para se lidar com a Síndrome da Adultopia?
O principal aparato proposto em Planeta Pelúcia para que Pati se livre da Síndrome da Adultopia – que é como um sonho-sem-graça que acomete crianças que querem crescer antes do tempo – é o retorno à escuta e à memória de si. “É preciso lembrar de quem se é”, como dizem Traça e Cupim. Com isso, a “cura” da Adultopia não está em negar o crescimento, mas em não se atropelar no tempo. Assim, o espetáculo sugere que o brincar, a imaginação e a construção de outras formas de comunicação (não apenas a linguagem racional e verbal) são caminhos fundamentais para restabelecer vínculos entre crianças e adultos. Além disso, aponta para uma responsabilidade coletiva: cabe aos adultos criar espaços de proteção e diálogo, onde a infância possa existir com plenitude, sem pressa, já que atropelar o desenvolvimento é desalinhar o mundo e sair da própria órbita. Quando nos conectamos às nossas infâncias, algo novo e bonito pode ser criado na nossa relação com as crianças hoje.
Fale um pouco sobre o uso de projeções e câmera ao vivo em seu espetáculo. De que forma isso auxilia em sua dramaturgia? Foi escolha sua como autor ou foram sugestões que vieram da direção?
Assim como o espetáculo anterior, o coletivo cria em cena uma relação de aproximação e interação com a plateia, já sugerida desde a dramaturgia. Entretanto, o uso de câmera ao vivo e projeções em Planeta Pelúcia está ligado também à construção da encenação, tornando o “quartinho dos adultos” um espaço expandido – que é ao mesmo tempo íntimo e infinito, concreto e imaginário. Desta forma, a câmera amplia detalhes de uma maquete cenográfica, transformando pequenos objetos em grandes paisagens e dialogando com o ponto de vista da criança onde tudo pode crescer, distorcer e ganhar novas dimensões. Além disso, a câmera ao vivo também contribui com a aproximação da plateia, trazendo-a para a cena. Com isso, as projeções tensionam o universo de referências ao consumo, à cultura da imagem e à velocidade do mundo adulto, porém, algo que tomamos cuidado foi o de não exacerbar o seu uso, criando então, outros suportes em cena para que a videografia seja apresentada e projetada de maneira não convencional. Esses recursos não são apenas estéticos, mas estruturais para a narrativa, ajudando a materializar o “sonho-sem-graça” da Adultopia e a sensação de deslocamento que Pati vive. Contudo, trata-se de uma construção em diálogo coletivo, integrando linguagem visual, verbal e sensível como partes da mesma proposta cênica.
Serviço
Planeta Pelúcia
Teatro Anchieta. Sesc Consolação. Rua Doutor Vila Nova, 245
Sábados, 11h. Sessão no feriado de 1º de maio, 11h. R$ 40. Sessão gratuita no dia 16/5, 11h. Grátis para crianças até 12 anos
Até 23 de maio (estreia 11 de abril)
