Comemorando 12 anos de teatro, a companhia Circo di SóLadies – Nem SóLadies monta o espetáculo “O que será que tem na mala?’” para introduzir as crianças em um tema esperançoso: a coragem de tentar realizar desejos que parecem impossíveis
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 1º de maio de 2026)
O espetáculo O que será que tem na mala?, que estreou na semana passada no Sesc Bom Retiro, marca os 12 anos de trajetória do Circo di SóLadies – Nem SóLadies. Não é pouco. Ao contrário, é raro neste país as companhias serem tão longevas e bem-sucedidas ao longo de todo o percurso. Mas tem mais: a montagem também inaugura um novo momento artístico do grupo – é o primeiro espetáculo em dupla da companhia. Só sobem ao palco Theo Oliveira (Palhace Augustine) e Verônica Mello (Palhaça Úrsula).
“Gostamos de trabalhar todos juntos, em quinteto, em quarteto, em trio, e foi bem diferente ensaiar em dupla, só eu e o Theo, mas temos uma equipe maravilhosa, gigante, junto com a gente”, diz Verônica. “Estamos relembrando nosso início, quando eram só o Theo e a Lilyan Teles, os dois fundadores da companhia. Foi um presente a Lilyan ter topado nos dirigir. Virou quase um resgate. Ela assina a direção artística e a dramaturgia é de Lui Castanho.”
Ao longo do espetáculo, o casal de palhaços também se perde um do outro em cena, então, além dos momentos em dupla, ambos também têm a chance de fazer seus solos. “Tem sido um desafio muito positivo, uma nova experiência. Isso só soma em nossa trajetória tão diversificada”, comemora Verônica.

No enredo, Úrsula e Augustine “acordam” em um quarto onde tudo pode acontecer: objetos tocam músicas, roupas se mexem sozinhas. No meio desse universo estranho e divertido, uma mala misteriosa aparece e desaparece sem explicação. “A conexão com a plateia foi maravilhosa, o público ficou o tempo todo com a gente”, relembra Verônica, sobre o primeiro domingo no Bom Retiro. “Adultos se emocionaram também. Foi legal perceber o quanto texto e encenação ficaram fortes juntos, estética e conteúdo funcionaram muito bem. A linguagem remete a quadrinhos, a desenhos animados, e tudo ficou bem agradável. Saímos de lá bem felizes.”
“A mala surge nesse espetáculo simbolizando tudo o que carregamos, tudo o que queremos e podemos realizar”, conta Verônica. “Muitas vezes os nossos sonhos estão em malas e basta abri-las para realizá-los. Sonhos virando realidades. Essa é a metáfora, essa é a brincadeira. Uma peça de possibilidades apontadas. Elas estão mais perto da gente do que, muitas vezes, supomos.” O público, assim, é levado a imaginar futuros possíveis — começando pela coragem de abrir as malas onde trancamos nossos sonhos.

Um lance legal do espetáculo é que, além de tudo o que a dupla faz em cena (mágica, malabarismo, cenas típicas de palhaçaria e, claro, teatro), eles também criam e executam a trilha sonora ao vivo. “Com um pedal, vou construindo a música a cada cena em que entro”, detalha Theo Oliveira.
“Primeiro faço a base no ukulele, depois coloco trompete e, por último, o pandeiro. Para fazer isso ao vivo, lidamos, claro, com as intempéries, os problemas, os improvisos, mas palhaçaria é isso, errar e consertar em cena. O melhor dessa ideia é que o público vai percebendo que a trilha está sendo construída junto com cada cena. Nos ensaios, quando a trilha entrava, tudo se modificava. Para nós, que sempre fizemos espetáculos com música ao vivo, é um aprendizado agora lidar com música mecânica de pedal, mas, ao mesmo tempo, nos deixa mais livres para brincar. Os três instrumentos musicais – ukulele, trompete e pandeiro – são brinquedos das palhaças, ganham um lugar lúdico e de descobertas, sem regras clássicas, cartesianas. A palhaçaria nos deixa brincar com a música. É muito gostoso para nós e para o público”, continua.
Serviço
O Que Será que Tem na Mala?
Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185
Domingos, 12h. Sessões extras dias 1º/ (12h), 4/6 (12h) e 10/6 (15h). R$40
Até 14 de junho (estreou dia 26 de abril)
