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Uma forma poética de mostrar as agruras da migração para as crianças

Sinopse

“Foi o Rio Quem Disse”, da cia. Plataforma Casca, faz no Itaú Cultural sua terceira temporada, contando histórias tocantes de uma menina de Minas Gerais, outra de Alagoas, que chegam a São Paulo e passam por bullying, adaptação escolar, xenofobia, saudade e preconceito

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 6 de março de 2026)

Migração, identidade e pertencimento. Três pontos que precisam ser criativamente “martelados” na cabeça do público mirim, na esperança de que as crianças da atual geração cresçam com mente saudável, aberta, justa e diversa, compreendendo a importância da empatia. A programação para crianças do Itaú Cultural, em São Paulo, tem uma curadoria que compreende isso como poucas e, mais uma vez, escolheu para as tardes de domingo da instituição um espetáculo com pleno potencial para fazer a diferença no circuito.

Trata-se de Foi o Rio Quem Disse, da companhia Plataforma Casca, que conta a história de duas meninas migrantes, que chegam a São Paulo vindas de Alagoas e Minas Gerais, e enfrentam desafios como adaptação escolar, saudade e preconceito.

“Estamos muito felizes em fazer essa temporada estendida na Sala Vermelha do Itaú Cultural, um espaço tão importante destinado a projetos voltados às infâncias”, comenta João Filho que dirige e atua na peça. “Essa é nossa terceira temporada com a peça e, desde a estreia, em abril de 2025, no Sesc Pinheiros, percebemos que o trabalho alcança um público muito amplo. Recebemos relatos de primeiras experiências teatrais de crianças que acompanharam e interagiram ao longo da apresentação, o que para nós é muito significativo. Há uma participação viva, seja no silêncio atento, nas reações espontâneas ou nas pequenas interações, que demonstra como a obra cria um ambiente de confiança e envolvimento. Também percebemos uma forte identificação do público adulto. Muitos compartilham relatos emocionantes de histórias pessoais ligadas à migração regional, à memória e às próprias infâncias. Isso evidencia que, embora dialogue diretamente com as crianças, o espetáculo atravessa gerações e se consolida como uma experiência sensível e significativa para todas as idades.”

Cena do infantil Foi o Rio Quem Disse, da Cia. Plataforma Casca. Foto Ethel Braga

João Filho detalha sua direção neste espetáculo. Ele diz: “O que define a direção do espetáculo, para mim, é um mergulho no exercício de imaginar, que além de ser um ponto de encontro entre teatro e infância, trouxe uma liberdade criativa para tratarmos de temas tão sensíveis como migração e xenofobia regional”.

Ele prossegue, dando pistas sobre o que o público pode esperar do espetáculo: “Cada cena possui jogos de relação específicos criados junto com a dramaturgia. O espetáculo é uma mistura de gêneros e linguagens (comédia, drama, melodrama, narrativo), que pavimentam o caminho para enaltecer a pluralidade das referências artísticas, estéticas e culturais, principalmente dos estados de Alagoas e Minas Gerais.”

João faz questão de ressaltar a força do coletivo: “Atuar e dirigir só foi possível a partir de um diálogo direto e uma escuta ativa com toda a equipe, possibilitando uma encenação rica de detalhes e pontos de vista de artistas majoritariamente migrantes residentes na cidade de São Paulo”.

Um desafio para os encenadores do dito “teatro infantil” é conseguir também fisgar o interesse dos adultos, que, afinal, acompanham as crianças no teatro. João Filho comenta sobre isso: “Talvez o humor e a contradição presentes nos diálogos e nas relações das personagens sejam ingredientes que atraem a atenção dos adultos. A gente trata de um tema muito antigo, que é a migração, que atravessa diariamente crianças e adultos por todo o mundo, que forma culturas. E, mesmo que a dramaturgia do espetáculo trate da migração a partir da cidade de São Paulo, trazendo as especificidades regionais de Alagoas e Minas Gerais, continuamos a falar de um tema universal. Muitos adultos nos procuram depois da peça para dizer de onde vieram, contar suas histórias e dizer há quanto tempo estão em São Paulo”.

Lorena Tófani, que assina dramaturgia, conta como teve a ideia da peça: “A dramaturgia se transformou muito ao longo do processo de criação, mas a vontade de falar sobre as experiências e choques culturais de quem migra era o assunto mais caro para mim desde o princípio. A ideia surgiu inicialmente da minha própria experiência, e da experiência de amigos e amigas que também migraram para São Paulo, que em sua maioria formam a rede de apoio uns dos outros. Meu encontro com Joelle Malta, que é atriz da peça, reacendeu ainda mais essa vontade de falar sobre migração e de reafirmar a importância das nossas identidades culturais, das histórias que cada um carrega quando chega em um novo lugar”.

Outra cena do infantil Foi o Rio Quem Disse, da Cia. Plataforma Casca. Foto Ethel Braga

Reparem como a autora fala com propriedade e poesia sobre um tema tão urgente no mundo de hoje: “Migrar, de algum modo, é estender o fio da sua própria cultura e, ao mesmo tempo, se deixar atravessar por outros lugares e outras culturas”. Lorena cita uma frase da peça, inspirada numa entrevista do Mestre Nêgo Bispo que, segundo ela, resume bem o encontro das duas personagens e de tantas pessoas que migram e são apoio umas das outras: “O rio nasce, faz o seu caminho, e quando encontra outro rio ele não deixa de ser quem ele é, passa a ser ele e mais um rio”.

Ela prossegue: “Essa questão também apareceu muito forte na minha experiência como educadora, desde que cheguei em São Paulo. Em sala de aula, muitas vezes me deparei com crianças que vieram com suas famílias de outros estados e até de outros países, vivendo os desafios de se adaptar a uma nova cidade. Era comum eu perguntar quem tinha nascido em outro lugar, ou se os pais, mães ou avós eram de fora de São Paulo, e quase sempre surgiam muitas histórias diferentes. Era difícil encontrar uma família que não fosse atravessada, de alguma forma, pela experiência da migração”.

Lorena lembra da importância e coerência da trajetória de sua companhia. Ela diz: “Esse tema também atravessa o próprio lugar da Plataforma Casca na cidade, que vem se constituindo como um espaço de criação e de encontro entre artistas, e hoje se reconhece muito como um lugar de troca entre artistas que migraram para São Paulo. A peça também nasce desse encontro entre diferentes trajetórias, no encontro com estes parceiros e parceiras que hoje colaboram com a Casca”.

Como se depreende de cada palavra do diretor e da autora, temos ao nosso dispor e de nossas crianças um espetáculo com muita sensibilidade.  “Na dramaturgia e na encenação da peça, o bullying e a xenofobia são abordados a partir de uma perspectiva sensível e poética, construída no diálogo com a direção”, ressalta a dramaturga.

“A ideia não era tratar o tema de forma moralizante ou explicativa, mas como algo que atravessa as relações entre os personagens, assim como acontece na vida. Buscamos abordar essas situações criando imagens e atmosferas que permitissem que crianças e jovens reconhecessem emoções e conflitos, sem que a experiência fosse reduzida a apenas uma lição. A peça aborda estes temas, mas não firma a centralidade da narrativa nesses conflitos, e sim busca ultrapassá-los.”

Outro momento do infantil Foi o Rio Quem Disse, da Cia. Plataforma Casca. Foto Ethel Braga

E como será que o Rio São Francisco foi parar nessa história? Lorena Tófani sabe responder isso muito bem. Ela diz: “O que nos interessa também é imaginar outros caminhos possíveis para o tema, é aí que a viagem pelo Rio São Francisco vem como símbolo de deslocamento e pertencimento. A partir da amizade, do encontro e da escuta e da imaginação, as personagens vão descobrindo jeitos de se fortalecer. Existe uma aposta de que, quando a gente consegue se reconhecer no outro, abre espaço para imaginar outros mundos, com menos violência e intolerância, e mais atravessados pelo cuidado, pela presença e pela possibilidade de caminhar lado a lado”.

Um livro auxiliou muito no processo de criação. A direção trouxe como referência poética a obra Futuro Ancestral, de Ailton Krenak. Lorena comenta: “Nesse texto, no capítulo ‘Saudações aos rios’, ele fala de forma muito bonita e provocadora sobre os rios que foram escondidos nas cidades, canalizados, silenciados, quase como se também sofressem um tipo de bullying. Essa imagem me tocou e atravessou também a escrita da peça, porque ela amplia a ideia de violência e exclusão, um processo que não acontece apenas entre pessoas, mas também na forma como tratamos a natureza e aquilo que parece mais frágil ou invisível. A dramaturgia também parte do princípio de que a natureza, em especial os rios, têm algo a nos ensinar”.

E arremata: “Para nós, falar sobre bullying e xenofobia no teatro continua sendo fundamental primeiro porque infelizmente este tipo de violência se faz muito presente no cotidiano de muita gente, depois por acreditarmos que o teatro é um espaço seguro de encontro e diálogo. Para muitas crianças e jovens, ver essas situações representadas artisticamente pode ser a primeira oportunidade de nomear sentimentos, reconhecer injustiças e imaginar outras formas de convivência mais respeitosas. Me interessa muito pensar o teatro como um espaço de reflexão coletiva, de criar imaginários de mundo que desejamos. Ao longo da trajetória da peça, vemos que ao acompanhar as personagens e suas experiências, o público se identifica, percebe diferentes pontos de vista e pensa sobre as consequências de atitudes que, muitas vezes, parecem pequenas, mas podem ferir profundamente. O teatro não resolve o problema, mas pode abrir perguntas, criar empatia e lembrar que ninguém está sozinho dentro dessas experiências.”

Lindo demais. Urgente demais.  Vamos lá ver? 

Serviço

Foi o Rio Quem Disse 

Itaú Cultural – Sala Vermelha. Avenida Paulista, 149, piso 3

Domingos, 16h. Grátis

Até 28 de junho (estreou em 22 de fevereiro)

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Ficha Técnica

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Serviço

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