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Festival de Curitiba faz balanço da recente produção nacional para celebrar fidelidade do público

Sinopse

Mostra, que se realiza de 30 de março a 12 de abril com 300 espetáculos, recebe, entre outros, o ator Eduardo Moscovis, grandes companhias brasileiras e a estreia do ex-jogador Casagrande nos palcos 

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 9 de fevereiro de 2026)

No ano passado, em fevereiro, Fabíula Passini, uma das diretoras do Festival de Curitiba, acompanhou pela primeira vez a abertura das vendas de ingressos nas bilheterias físicas do Shopping Mueller, no centro da cidade. Uma fila com várias dezenas de pessoas se formava na frente do prédio que permitiria a entrada às 10h, mesmo horário da liberação dos guichês, e Fabíula observou admirada a movimentação. Quando as portas se abriram, veio a maior surpresa. “Pessoas de diferentes idades corriam pelos corredores para ver quem compraria os primeiros tickets”, conta. “Parecia uma ansiedade coletiva por um show de rock e fico feliz que essa sensação seja gerada pelo teatro.”

Em sua 34ª edição, o Festival de Teatro de Curitiba dá a largada em ritmo de celebração da vida, da arte e da fidelidade de um público, que, no ano passado, somou 200 mil espectadores em 300 espetáculos. O evento de 2026, de 30 de março a 12 de abril, volta a superar as três centenas de atrações, com montagens vindas de todas as regiões do país que serão apresentadas em teatros, espaços culturais, ruas e praças da capital e região metropolitana. De Moçambique e da Argentina poderão ser vistos respectivamente os espetáculos Brase, performance do coreógrafo Edivaldo Ernesto, e Bailarinas Incendiadas, da Cia. Plágio, de Buenos Aires. 

Herson Capri e Natalia do Valle em A Sabedoria dos Pais. Foto Nana Moraes

Os ingressos para as 30 montagens que compõem a Mostra Lúcia Camargo, a vitrine principal, começam a ser vendidos nesta terça, 10, no site oficial do festival e no Shopping Mueller, com o preço máximo de R$ 85. “Claro que o festival tem um caráter nacional, mas o foco é sempre o público de Curitiba e cidades vizinhas que esperam o ano inteiro pelo evento”, diz Fabíula. “Acho que a programação tem potencial para atingir diferentes plateias e vai dar o que falar pela variedade de assuntos.”

A curadoria, formada há quatro anos pela pesquisadora Daniele Sampaio, a atriz e produtora Giovana Soar e o crítico Patrick Pessoa, ficou atenta aos destaques dos palcos em 2025 e pescou o que poderia sintetizar esse conceito de festa e resistência. O resultado é o mapeamento das melhores atrações com algumas frestas provocativas. “Pela primeira vez, não começamos os trabalhos com uma ideia, e fomos sondando, assistindo aos espetáculos, trocando impressões, desenhando um conceito”, afirma Daniele. “Estamos no meio de uma mudança profunda na geopolítica mundial e olhamos para dentro, para enxergar como ler esse mundo agora.”  

Tim Maia – Vale Tudo, O Musical, de Nelson Motta, sob a direção de Pedro Brício, A Sabedoria dos Pais, comédia dramática de Miguel Falabella protagonizada por Herson Capri e Natalia do Valle, Dois Papas, duelo interpretativo de Celso Frateschi e Zécarlos Machado, respectivamente, como o Papa Francisco e o Papa Bento XVI, e Piracema, nova coreografia do Grupo Corpo, estão entre as atrações que devem lotar os 2,5 mil lugares do Teatro Guaíra. 

Du Moscovis em O Motociclista no Globo da Morte. Foto Catarina Ribeiro

Se, ao longo dos anos, o Festival de Curitiba foi uma plataforma de estreias nacionais, este ano as novidades deixaram de ser prioridade. A exceção é Na Marca do Pênalti, monólogo dirigido por Fernando Philbert que promove a estreia do ex-jogador e comentarista esportivo Walter Casagrande Jr. nos palcos. Com sessões marcadas para 3 e 4 de abril no Guaíra, o solo revive sua trajetória nos gramados e a luta contra a dependência química. “Casagrande é nosso frescor desta edição e brincamos que vai ser um interessante contraponto”, diz Fabíula. “Os atores dizem que se sentem no Guairão como se estivessem no Maracanã e, agora, um jogador de futebol pisará no Maracanã dos teatros brasileiros.” 

Quem procura nomes estelares pode apostar em Mulher em Fuga, adaptação dos livros Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2021) e Monique se Liberta (2024), do francês Édouard Louis, com a atriz Malu Galli e o ator Tiago Martelli, e o monólogo O Motociclista no Globo da Morte, protagonizado por Eduardo Moscovis, a partir de texto de Leonardo Netto dirigido por Rodrigo Portella. “Este ano equilibramos o compromisso com o que é esperado pela plateia das diversas Curitibas que formam essa cidade e o que podemos acenar para aumentar um diálogo em relação a trabalhos experimentais”, comenta Daniele   

No conceito de celebração e resistência, o Festival de Curitiba 2026 presta uma homenagem às grandes companhias que se mantêm em efervescente atividade ao longo das décadas. “Pensamos em dez coletivos longevos que, a despeito das intempéries políticas e econômicas, sobrevivem e impõem renovações estéticas e de representação”, declara a curadora. “A despeito da reconstrução democrática desde 2023, continuamos mal no âmbito da política cultural, então utilizamos propostas viáveis que propiciam a circulação destes trabalhos.”  

O elenco do espetáculo Reparação. Foto ~Mari Chama

Além dos mineiros do Grupo Corpo, os conterrâneos do Galpão apresentam (Um) Ensaio sobre a Cegueira, direção de Rodrigo Portella para o romance de José Saramago (1922-2010), e os paranaenses radicados no Rio da Armazém Companhia de Teatro celebram o dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989) com Dias Felizes. Os pernambucanos do Magiluth trazem o catártico Édipo Rec, que promete transformar a Ópera de Arame em uma grande balada. O grupo cearense Carroça de Mamulengos, presença rara no sudeste e sul, será visto com Histórias de Teatro e Circo – Três Gerações de Arte Brincante, que reúne no elenco desde um bebê de seis meses até um artista de quase 80 anos. 

Trabalhos significativos de São Paulo, como A Boca que Tudo Come Tem Fome (Do Cárcere às Ruas), da Companhia de Teatro Heliópolis, Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo, do Coletivo Negro, e {FÉ}STA, do Coletivo Prot{agô}nistas, estão entre as atrações. Os curitibanos da Súbita Companhia de Teatro apresentam Deriva, que promove uma experiência entre a cidade e os espectadores. Já os cariocas do coletivo Aquela Cia. trazem Veias Abertas 60 30 15 Seg, inspirado no livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano (1940-2015), e o espetáculo Vinte!, também do Rio, dirigido por Maurício Lima, combina música, teatro e artes visuais. 

Duas das melhores peças vistas nos palcos paulistanos em 2025 aterrissam em Curitiba. Reparação, dramaturgia e direção de Carlos Canhameiro, que recria ficcionalmente um caso de estupro na década de 1980 através do ponto de vista de clientes e funcionários de um salão de beleza, deve ser analisada com atenção.

A outra é um clássico recente, A Máquina, que ganhou montagem dirigida pelo mesmo João Falcão. Os integrantes do Coletivo Ocutá, Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto, além da atriz Agnes Brichta, revivem na Ópera de Arame os papéis que lançaram nacionalmente Gustavo Falcão, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Wagner Moura. “Vai ser emocionante porque foi aqui no festival que A Máquina fez umas das primeiras apresentações fora do Recife há 25 anos”, ressalta Fabíula.

O elenco do espetáculo {FÉ}STA, do Coletivo Protagonistas. Foto Sergio Fernandes

Grande parte dos 300 espetáculos da programação, porém, pode ser vista no Fringe, a vitrine paralela da mostra curitibana, inspirada no Festival Internacional de Edimburgo. São espetáculos de todas as regiões do país divididos em mostras temáticas, vários com entrada franca. 

Desde 2023, o festival mudou as regras do Fringe. Antes bastava as companhias se inscreverem para, dentro de um número limite, serem aceitas. Agora, é feita uma seleção de acordo com o conceito das submostras. Um dos destaques deste ano será um intercâmbio entre montagens da Mostra Lucia Camargo que ganharão reapresentações no Campo das Artes, o centro cultural mantido pelo ator Luís Melo em Balsa Nova, a quarenta quilômetros de Curitiba. 

Os espetáculos Cabo Enrolado, criado e interpretado por Julio Lorosh, Jonathan, de Rafael Souza-Ribeiro, e Sidarta, de Angel Ferreira, estão previstos para ocuparem o Campo das Artes depois de passarem pelo centro de Curitiba. “Houve um aumento significativo de público no Fringe e, se antes, chegava a nós reclamações de plateias vazias, esse problema acabou”, garante Fabíula. “Os espectadores aprenderam a se organizarem de acordo com as temáticas das mostras e encontram as peças que lhe agradam.”     

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Ficha Técnica

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Serviço

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