“Tertúlia e o Fantástico Circo de Pulgas”, no Sesc Pompeia, convoca o público a imaginar, a acreditar e a brincar, com apenas 25 minutos de duração e equilíbrio perfeito entre técnica e arte
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 6 de novembro de 2026)
Agora quero ver alguém dizer que as peças para crianças ficaram longas demais para essa geração que não aguenta mais ficar muito tempo concentrada, focada e interessada. Quero só ver. O Sesc Pompeia terá quatro sessões gratuitas, em dois dias, 7 e 8 de novembro, sábado e domingo, de um infantil que dura apenas… 25 minutos. Tomou, papudo? Tertúlia e o Fantástico Circo De Pulgas é um solo de palhaça, com Fernanda Nunes, com direção de outro palhaço, Cláudio Saltini.
Eles já avisam de antemão que é um convite para desacelerar, em um cotidiano cada vez mais tomado pela pressa. Uma pequena fresta para o público parar, brincar e acreditar. Tertúlia está em cena com sua pulga Fifi, que ninguém consegue enxergar. É um número típico – muito bem feito – do chamado circo de pulgas, como diz o título. “Para que o espetáculo aconteça é necessário estimular algo muito genuíno no público: a imaginação. O circo de pulgas só existe se a plateia imaginar e escolher acreditar no impossível”, explica Fernanda Nunes.
Ela sempre foi apaixonada por essa modalidade, por assim dizer, e muito admirava o trabalho de Saltini, com seu circo de pulgas aclamado e premiado. Aproximou-se dele até que ele a estimulou tanto, tanto, que acabou por dirigi-la. “O encantamento que o espetáculo provoca não está somente na beleza plástica ou nas acrobacias, mas, fundamentalmente, na capacidade que a Fernanda tem de fazer o público enxergar a existência e a história de uma minúscula pulga”, aponta o diretor.
“O circo de pulgas é uma forma teatral de tradição popular antiga e possui uma estrutura dramática bastante consolidada”, explica a dramaturga do espetáculo, Sofia Fransolin, cujo trabalho premiado você já conheceu em Do Que São Feitas as Estrelas? e no mais recente E Se Fosse Uma Bomba?. “O foco desse espetáculo não é o texto, mas a virtuose da pulguinha que, contra todas as expectativas, realiza ações surpreendentes e inimagináveis. É um teatro que joga com o imaginário circense, e com a ilusão. Isso só é possível graças a um pacto entre a artista e o público. Do lado da artista temos a habilidade técnica em promover o jogo de ilusionismo partindo da maquinaria do pequeno teatro; do lado do público temos a capacidade imaginativa.”

E onde entra o texto nessa proposta? Ela responde: “Se temos uma estrutura tão bem delimitada, e uma sequência de acontecimentos que é intrinsecamente dependente dos números que a pulguinha sabe fazer, a dramaturgia opera em duas instâncias. A primeira: a costura desses números por meio de textos que alimentem e engrandeçam a expectativa do público diante do porvir. A segunda, que se deu graças ao diálogo entre dramaturga, atriz e diretor, é o desejo de se atualizar a tradição, dialogando com o nosso momento histórico. Aqui, é o terreno de maior liberdade dramática: jogar com a tradição e a contemporaneidade e atualizar uma linguagem tão antiga para um público atual”.
Sofia fala do prazeroso desafio: “O mais gostoso de todo o processo foi enfrentar o desafio de se trabalhar com uma estrutura tão fechada (que é reproduzida há tanto tempo) e, ainda assim, encontrar brechas de liberdade em que o diálogo direto com a plateia permita um momento de reflexão. Veja bem, não é uma reflexão distanciando-se da ação. É uma reflexão a partir da ação. Se o espetáculo e o público estabelecem um pacto de crença no possível, é porque a imaginação permanece viva mesmo em um tempo histórico regado por distrações, e pelo imperativo da ‘produtividade a qualquer custo’. Imaginar é um ato revolucionário, pois nos permite questionar as coisas ‘como elas são’ e propor outros modos de encarar o cotidiano”.
Serviço
Tertúlia e o Fantástico Circo de Pulgas
Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93
Sábado (7/11) e domingo (8/11), 16h30 e 17h30. Grátis