“A Menina que Inundou o Mundo”, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, aborda o tema das descobertas sensíveis que se fazem na pré-adolescência, sem que ainda se consiga lidar com as intempéries ligadas ao verbo sentir
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 16 de outubro de 2026)
Beleza, raiva, medo, solidão, gratidão. Cada palavra dessas contém um mar de profundezas abstratas, conceituais, filosóficas. E quando uma peça para crianças resolve abordar todas elas de uma vez só? Será possível? Se até os adultos têm suas limitações ao tentar compreender tantos sentimentos que brotam dentro da gente, como será então que se fala disso no teatro com as crianças? Esse desafio está todinho contido dentro do musical infantojuvenil A Menina que Inundou o Mundo, com direção de Kiko Marques, que estreou na semana passada no Teatro Sérgio Cardoso.
Com dramaturgia de Andressa Secchin e Laura Sciulli, que também são atrizes e estão no elenco, a peça fala da menina Biê, de 9 anos, que, ao começar a fazer descobertas sobre a vida, desaba a chorar, como se fosse inundar o mundo, exatamente como sugere o título do espetáculo. As pessoas, claro, começam a julgá-la e a dizer o tempo todo que ela chora demais. Isso resulta em estigmatizá-la, a ponto de, depois de uma briga com o irmão, Biê pedir aos céus que sua “bolsinha de choro” se esvazie.
Para entender melhor a proposta do espetáculo e suas intenções ao conjugar um verbo tão complexo quanto sentir, o Canal Teatro MF foi ouvir o diretor Kiko Marques, que, em suas respostas, como a menina Biê, também nos inundou de profundidades sensíveis, encharcadas de honestidade e emoção. Confiram.

Propor-se a abordar para crianças assuntos que nem os adultos dominam, como educação emocional, autocontrole e autorregulação emocional, é um desafio hercúleo, não? O que o atraiu nesse texto a ponto de aceitar dirigi-lo?
O que me atraiu foi justamente essa tarefa de falar para as crianças e também para os adultos que estão acompanhando as crianças, ou acompanhados das crianças que foram, desse tema que me toca tão profundamente, que é o sentir e, com ele, a liberdade, a coragem e a importância de vivenciar em sua plenitude esse estado. Acho um assunto bastante complexo e amplo, mas necessário de ser falado no teatro, principalmente nessa fase da vida e da formação de um ser humano, em que essas questões estão começando a se processar em cada uma daquelas pessoas.
Você é um premiado e diferenciado autor de incríveis espetáculos teatrais sobre os mistérios da alma humana e, ainda assim, sem preconceito, debruça-se em frente às crianças e cria para elas também. De onde vem seu interesse e sustentabilidade em torno do teatro infantojuvenil?
Eu me apaixonei pelo teatro assistindo a uma peça pela primeira vez, aos 13 anos de idade. De alguma maneira, era ainda uma criança e também já era um homem. Aquela experiência me marcou para sempre e acho que, de alguma forma, estou sempre dialogando ora com esse menino, ora com esse homem, que estavam sentados juntos naquela plateia e que decidiram dedicar sua vida àquela experiência, plena, ao mesmo tempo, de relações humanas e de transcendência poética. Acho que por isso nunca distingui muito bem essa separação entre o teatro para adultos e para crianças. A infância é caminho, assim como a juventude, a maturidade, a velhice e, quem sabe, até a morte. Em todos esses momentos, somos os mesmos seres complexos, contraditórios, ao mesmo tempo fortes e fragilíssimos, tentando nos entender, nos aceitar e viver a vida em sua plenitude, ao mesmo tempo conosco e com o mundo à nossa volta. E, para isso, a arte e o teatro cumprem uma função absolutamente necessária de nos suspender de nós mesmos, para nos conectar com o melhor em nós. E isso acontece em qualquer idade.
Como foi encarar um musical pela primeira vez e o que você fez para evitar o “jeito Broadway”?
Foi divertidíssimo e, ao mesmo tempo, muito educativo! Tive a sorte de encontrar uma equipe espetacular, com atores e atrizes muito preparados e sensíveis, uma equipe de criação também absurdamente competente, talentosa e conectada com a peça e seu sentido. Esse tão falado trabalho conjunto do teatro. Acho que por isso não pensei em hora nenhuma em evitar qualquer forma de estilo padronizado e importado que pudesse estar presente, porque sabia que estávamos falando de algo e fazendo algo que era muito importante e, ao mesmo tempo, urgente e genuíno em cada um de nós.

Você foi uma criança que chorava muito? De alguma forma você se identifica com a menina da peça?
Sim, fui uma criança que chorava, até decidir parar de chorar, para depois me transformar em um adulto que busca o choro, cultiva lágrimas sob todas as formas. Tive uma parte da infância em que o sentir foi pleno e preenchido de uma intensidade que me faz crer hoje que a vida me permitiu experimentar ali a sua plenitude. Mas também vivi com a mesma força a repressão desse sentir, pelos mais variados motivos internos e externos, e, com ela, o surgimento de monstros (imagem tirada do espetáculo) devoradores desse sentir represado, monstros que me acompanham ainda agora, em minha maturidade, e com os quais tive de aprender a conviver.
Conte um pouco sobre a reação da plateia neste início de temporada.
Sinto que o público tem se deliciado com o espetáculo. É claro que há nessa opinião a subjetividade do meu olhar de diretor-espectador que se delicia. Mas sinto que há na peça um jogo de forma e conteúdo que convida o espectador a se entregar sem travas ou limites ao que se apresenta a ele, que precisa ser vivido, assim como faz a Biê, nossa pequena heroína, e que esse público tem aceitado com coragem e muito prazer esse chamado.
Serviço
A Menina que Inundou o Mundo
Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno. Rua Rui Barbosa, 15
Sábados e domingos, 15h. R$ 120
Até 1º de novembro (estreou em 10 de outubro)
