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“Reset América Latina” transforma cruzeiro de luxo em alegoria da formação latino-americana

Sinopse

Espetáculo do Coletivo Estopô Balaio, terceiro e último trabalho da Trilogia da Amnésia, reconhece que toda identidade é atravessada por disputas e que honrar o passado pode implicar também trair legados violentos

Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 1º de junho de 2026)

Dentro de um cruzeiro de luxo, passageiros embarcam para viver uma experiência de consumo cultural e identitário em águas internacionais. Aos poucos, surgem fissuras. Conflitos de classe, raça e pertencimento atravessam dois núcleos de personagens: um casal em ascensão social e um grupo de amigos que ganha uma viagem premiada.

Esse é o resumo de Reset América Latina, terceiro e último trabalho da Trilogia da Amnésia, do Coletivo Estopô Balaio, iniciada com Reset Nordeste (2020) e seguida por Reset Brasil (2023). Em cartaz no Sesc Belenzinho, o espetáculo ocupa um espaço fechado. “Estamos trocando de pele em todos os sentidos”, afirma a diretora e atriz Ana Carolina Marinho. “A trilogia é um mergulho para dentro. Investigamos o que esquecemos de lembrar quando inventamos identidades que nos homogeneizam. O nordestino, o brasileiro e agora o latino-americano são construções que encobrem camadas étnicas, raciais e territoriais muito mais complexas.”

O cruzeiro de luxo é uma metáfora do próprio teatro. O primeiro ato assume a forma de um musical: canções populares do imaginário brasileiro conduzem um espetáculo que revisita simbolicamente as grandes navegações e o projeto colonial.

Cena do espetáculo Reset América Latina. Foto Cassandra Mello

“O cruzeiro atravessa o Atlântico como uma espiral do tempo”, explica o dramaturgo e ator Juão Nyn. “Caravelas, navios negreiros – tudo ecoa nesse percurso. A ideia é questionar essas identidades criadas pelos invasores da terra e perguntar: o que somos antes de sermos latino-americanos?”

No segundo ato, o espetáculo desloca o olhar para os bastidores da embarcação – cozinha, limpeza e maquinário. Trabalhadores exaustos, ainda que financeiramente recompensados, confrontam a sensação de esvaziamento e saque simbólico.

Já o terceiro momento rompe com a narrativa realista e avança para uma dimensão imagética e pós-dramática. A figura da cobra – demonizada na tradição cristã e reverenciada em diversas cosmologias indígenas – torna-se eixo simbólico da transformação. Trocar de pele, aqui, é abandonar camadas coloniais para acessar outras temporalidades e cosmovisões.

O grupo propõe o que chama de “ancestralidade crítica”: reconhecer que toda identidade é atravessada por disputas e que honrar o passado pode implicar também trair legados violentos. A discussão inclui a branquitude latino-americana e suas estratégias de pertencimento simbólico, tensionando a ideia de uma experiência homogênea no continente.

Serviço

Reset América Latina

Sesc Belenzinho. R. Padre Adelino, 1000

Sextas e sábados, 20h30. Domingos, 17h30. R$ 60

Até 28 de junho (estreou 14 de maio)

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Ficha Técnica

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Serviço

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