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Poesia de Ana Cristina Cesar ganha novo porto

Sinopse

Dirigido por Nelson Baskerville, ‘Ana Marginal – Um Navio Ancorado no Espaço’ traz três atrizes em busca da compreensão da vida e da obra da escritora carioca

Por Dirceu Alves Jr.

O diretor Nelson Baskerville, de 62 anos, se lembra ainda do impacto da notícia da morte da poeta carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983) recebida pelos jornais e pela televisão. Ele tinha 21 anos, dava os primeiros passos no teatro e ficou agoniado ao imaginar as razões que teriam levado aquela moça de 31 anos a se jogar da janela do apartamento dos pais, no Rio de Janeiro.

“Esse choque, porém, infelizmente, não me despertou interesse por sua obra”, confessa. “Sou parte da grande porcentagem da população que nunca descobriu uma escritora que merece ser apreciada e estudada.”

Quem trouxe Ana Cristina Cesar de volta à cabeça de Baskerville foi a atriz Nataly Cavalcantti, de 39 anos, que o convidou para um projeto gerado há pelo menos quatro anos. Os dois se conheceram no começo da década de 2000, como professor e aluna do Célia Helena Centro de Artes e Educação, e ele a dirigiu em 2007 na peça O Holandês, de Amiri Baraka (1934-2014).

A dupla se reencontra em Ana Marginal – Um Navio Ancorado no Espaço, espetáculo inspirado na vida e na obra da poeta, que chega ao Espaço Elevador, na Bela Vista. Nataly divide a cena com as atrizes Bruna Brignol e Carol Gierwiatowski em uma dramaturgia de Michelle Ferreira que tenta decodificar enigmas em torno de Ana Cristina Cesar.

Cena da peça Ana Marginal – Um Navio Ancorado no Espaço. Foto Bruna Castanheira

Tomado pelo que chamada de “remorso da ignorância”, Baskerville correu atrás de tudo o que pudesse explorar sobre a personagem do futuro espetáculo. Leu livros, cartas e artigos acadêmicos, entendeu melhor o que foi a tal “geração mimeógrafo”, que sacudiu a cultura carioca dos anos de 1970, com poetas à margem das editoras, como Cacaso, Chacal, Torquato Neto e a própria Ana Cristina, e refletiu sobre os tormentos da personagem. “O meu entendimento das coisas nunca chega sozinho e o teatro sempre me ajuda porque preciso ler, conversar com outras pessoas e, assim, vou desvendando os assuntos”, conta ele. 

Nataly descobriu a escritora há 13 anos ao ler A Pasta Rosa, uma edição limitada, encontrada na estante de sua irmã. “Quem é essa mulher?”, perguntou a si mesma, incrédula, com a singularidade daquelas palavras, para, em seguida, procurar outros escritos. “Eu lia, lia, achava que estava perto de alguma compreensão e ela me escapava de novo. Percebi que só levando Ana Cristina ao teatro, dando um corpo a ela, poderia acessar melhor tanta subjetividade.”

Primeiro, a idealizadora pensou em um monólogo escrito por ela e encenado por Baskerville. Com o fim da pandemia, decidiu que queria muita gente ao seu redor, e o solo virou uma peça para três atrizes que escreveriam o texto em processo coletivo. Não, por favor, pediu o diretor, antevendo um possível caos. A dramaturga Michelle Ferreira se juntou ao grupo e veio a sugestão de criar um meta-teatro em que três intérpretes ensaiam uma peça sobre Ana Cristina Cesar e a dividiu em três personagens.

Cena da peça Ana Marginal – Um Navio Ancorado no Espaço. Foto Bruna Castanheira

Ana, a poeta, é representada por Nataly, Cristina, a bailarina, ganha o corpo e a voz de Carol e, por fim, Bruna é Cesar, a acadêmica. “Dentro do espetáculo começa a surgir uma identificação das atrizes com a personagem e o conflito que isso gera entre elas, um caos inerente ao universo da autora”, antecipa Nataly. “A Michelle faz uma coisa maravilhosa que é mostrar as atrizes brigando com os textos da poeta”, completa o diretor.

A primeira imagem da peça mostra Ana, a poeta, olhando o mundo por uma janela, tentando enxergar o buraco. Baskerville reafirma que a morte de Ana Cristina pode ter sido um espanto, mas, em meio às pesquisas, o grupo encontrou textos que falam nas entrelinhas sobre janelas e suicídio.

A homossexualidade reprimida pode ter sido determinante para tanta angústia. “Às vezes, eu me desculpo com a memória da Ana Cristina pelo excesso de sensualidade que o espetáculo traz, mas a questão é que hoje podemos e, se ela tivesse sido uma jovem da década de 2020, talvez não se matasse”, pensa o encenador.

Poeta menos incompreendida

Nataly concorda que o mundo ficou menos preconceituoso e as novas gerações mais atentas e livres, logo a poeta se sentiria menos incompreendida. Em uma conversa, no entanto, com a professora, escritora e editora Heloísa Teixeira, uma das grandes amigas e responsáveis pela divulgação da obra de Ana Cristina, a atriz entendeu que talvez na atualidade as apreensões seriam outras.

“Heloísa falou que ela não suportaria viver nesse mundo tão aflitivo, cheio de pressões e teria dificuldades com a aceitação da idade”, revela Nataly. “Mas acho importante mostrar para as meninas e os meninos que atravessam conflitos semelhantes que muitas pessoas já se sentiram assim e o espetáculo pode ser uma forma de acolhimento.”   

*

Leia trecho de Ana Marginal – Um Navio Ancorado no Espaço:

CESAR – Não se preocupe, é confuso mesmo.

ANA – Não, não é confuso, é simples. Nós estamos criando algo que não existe.

CESAR – Sim, até porque se estivéssemos criando algo que já existe, não estaríamos criando nada, estaríamos reproduzindo.

ANA – A Célia disse que você é muito criativa. Enfim, é isso.

CRISTINA – Olha, eu não estou entendendo muito bem.

CESAR – É confuso mesmo.

ANA – Não, é simples. É muito simples. É um espetáculo sobre Ana Cristina Cesar.

CESAR – Sabe quem é?

ANA – Claro que ela sabe quem é.

CÉSAR – Ela pode não saber.

ANA – Você sabe quem é?

CRISTINA – Ela foi homenageada na Flip uns anos atrás.

Serviço

Ana Marginal – Um Navio Ancorado no Espaço

Espaço Elevador. Rua Treze de Maio, 222

Sábado e segunda, 20h; domingo, 19h. R$ 40

Até 30 de outubro

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Ficha Técnica

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Serviço

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