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“Pawana” une Celso Frateschi e a direção de José Roberto Jardim em torno da emoção e da essência do teatro

Sinopse

A peça do francês J.M.G. Le Clézio, também interpretada por Rodolfo Valente, é formada por quatro monólogos que questionam a fúria capitalista capaz de destruir o que sustenta a humanidade

Por Dirceu Alves Jr.

O celular do diretor José Roberto Jardim, de 47 anos, tocou lá pelo fim de julho do ano passado. Era o ator Celso Frateschi, de 71, comentando que gostaria de lhe mostrar um texto e, caso se interessasse, podiam conversar sobre fazê-lo juntos. Jardim, que também é ator, mora no Rio de Janeiro e foi aluno de Frateschi na Escola de Arte Dramática (EAD) no final da década de 1990, ficou em dúvida de qual seria sua participação no provável projeto do mestre. “Eu acho que você pode querer dirigir”, disse Frateschi, que já tinha aprovado o trabalho do encenador em, pelo menos, dois espetáculos, Adeus, Palhaços Mortos (2016) e A Desumanização (2019). 

Devido às distâncias entre São Paulo e Rio de Janeiro, as conversas tiveram sequência através da tela do computador e, aos poucos, Jardim começou a decifrar Pawana, única peça do escritor francês J.M.G. Le Clézio, publicada em 1992, e, até agora, oficialmente inédita em montagem brasileira. Em 2009, um ano depois de Le Clézio ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, Frateschi participou junto do ator Otávio Martins de uma leitura dramática sob a direção do francês Georges Lavaudant, que teve duas sessões no Tusp, em São Paulo, e, desde então, a obra não saiu de sua cabeça.

Rodolfo Valente e Celso Frateschi em cena de Pawana. Foto Lígia Jardim

O processo entre Frateschi e Jardim ganhou forma, junto do ator Rodolfo Valente, de 30 anos, que interpreta o segundo personagem da história, e saltou do virtual para o presencial. Às vésperas da estreia, ocorrida na quarta, dia 15, no Ágora Teatro, o diretor detecta a mesma intensidade do veterano intérprete em duas passagens do texto. “Celso se emociona, a voz embarga desde a primeira leitura, quando o personagem fala ‘como alguém pode matar aquilo que ama’ e ‘como alguém ousa matar aquilo que amou’”, revela Jardim. “É extraordinário vê-lo nesse grau de sentimento e todo meu esforço é para que isso não se perca quando a peça estiver em cartaz.”

Pawana é estruturado em quatro monólogos, dois para cada um dos personagens, que, em 1911, tratam de um acontecimento ocorrido em 1856. Frateschi e Valente interpretam, respectivamente, o capitão Charles Melville Scammon e o jovem marinheiro John, que embarcam em um navio rumo a um refúgio onde baleias cinzentas vão parir seus filhotes. O objetivo da dupla é conseguir o valioso óleo do animal, o principal motor da economia mundial da época, pós-Revolução Industrial, para a produção de combustível e o fornecimento de iluminação.

Celso Frateschi em cena de Pawana. Foto Lígia Jardim

Frateschi reconhece a emoção diante da abordagem de Le Clézio sobre a ambição e a cobiça que cada vez mais soterra a humanidade. “Pawana questiona as ações do homem contra o planeta e essa burrice de destruir o que nos sustenta em nome do lucro a qualquer custo”, define. “As áreas conflituosas estão em qualquer canto, seja na Palestina ou no centro de São Paulo, e tudo se resume ao desprezo pela vida do outro e aos interesses capitalistas.”

O encanto de Jardim em torno da sensibilidade de Frateschi pode até ser explicado pela própria trajetória do intérprete. Em cinco décadas, o artista construiu uma carreira marcada por espetáculos de forte posicionamento político e função social e, claro, Pawana não rompe esta coerência. Foi das peças de Bertolt Brecht a William Shakespeare, de Anton Tchekhov a Dostoievski, integrou escalões políticos, filiado ao PT (Partido dos Trabalhadores) e, talvez, diante de uma visão tão racional, o lado emocional tenha ficado dissociado de sua imagem, pelo menos aos olhos do público e, claro, do diretor. “Por isso, o que acho mais bonito é quando a palavra dele falha e vem a lágrima”, ressalta Jardim. “Mas temos demonstrações desse imenso coração do Celso o tempo todo, seja quando ele resolve parar tudo para passear com o neto ou prepara o almoço para nós em meio aos ensaios.”

Rodolfo Valente e Celso Frateschi em cena de Pawana. Foto Lígia Jardim

A resistência faz parte das opções de vida de Frateschi, mas, pelo visto, sem perder a ternura. Ele gosta da luta e garante não se se sentir angustiado com a veia inconformada que o acompanha. Para o ator, o que o deixa angustiado é a pasmaceira, a não-ação. “Vivi uma época muito agitada e, apesar de ter passado por momentos desagradáveis, não troco essa experiência por nada”, diz, referindo-se aos tempos da repressão militar.

A estreia de Pawana também celebra outra de suas vitórias, a reabertura do Ágora, a sua casa e o seu teatro, que mantém desde 1999 e não recebia público desde o estouro da pandemia. “Nós tínhamos três estreias marcadas para aquela semana de março e tudo precisou parar”, lembra. As obras da estação Bela Vista da linha laranja do metrô também atravessaram o Ágora. O estreito trecho da Rua Rui Barbosa foi fechado para o trânsito e uma parte da estrutura do casarão ficou comprometida e precisou de reformas para a reabertura. “O pessoal do metrô até que foi legal com a gente, sugeriu que nós procurássemos um outro espaço, fossemos para um galpão, mas não dava, porque até reformar tudo e retomar as atividades levaria muito tempo e já tenho 71 anos”, afirma.

Se José Roberto Jardim decidiu provocar Celso Frateschi pela emoção, o ator também propôs desafios ao diretor. O encenador chamou atenção nos palcos paulistanos por espetáculos marcados pelo diálogo com o audiovisual e a exploração da interação dos seus protagonistas com a imagem. Desta vez, criou uma montagem limpa, apoiada apenas na essência do texto integral de Le Clézio e no que pode ser extraído da dupla Frateschi e Valente. “Jardim foi no fundo da narrativa porque não é o efeito que conduz a história e sim a história que causa o efeito”, justifica o intérprete.

O diretor reconhece que a encenação é um risco artístico em sua trajetória porque é o oposto de tudo o que vem fazendo – ainda mais diante do espaço intimista no formato de uma semiarena idealizado para 50 espectadores no Ágora Teatro. “Fui descobrindo neste processo lugares que me libertaram para buscar a menor grandeza e encontrar a maior grandeza”, conclui Jardim.   

Serviço

Pawana

Ágora Teatro. Rua Rui Barbosa, 664, Bela Vista.

Sexta e segunda, 20h; sábado e domingo, 19h. R$ 40.

Até 11 de dezembro.

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Ficha Técnica

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Serviço

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