Espetáculo dirigido por Abilio Tavares cria paralelos entre a peça escrita em 1966, o Brasil Colônia retratado na história e questões contemporâneas como intolerância, diversidade, liberdade e a posição de quem interpreta os fatos
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 10 de agosto de 2026)
Há exatos sessenta anos, dois após o início da ditadura militar, Dias Gomes lançava O Santo Inquérito, em uma montagem dirigida pelo polonês Ziembinski com o papel da protagonista feito por Eva Wilma. A peça conta a história de Branca Dias, jovem descendente de cristãos-novos perseguida pela Inquisição na Paraíba de 1750. Ao tratar de um episódio do Brasil Colônia, Gomes construía uma metáfora para o próprio momento histórico em que vivia, marcado pelos primeiros anos da ditadura militar.
Desde então, muitas montagens foram feitas. Uma das mais conhecidas foi no ano de 1976, no Rio de Janeiro, com direção de Flavio Rangel e Isabel Ribeiro protagonizando a montagem, para um ano depois o espetáculo ser remontado em São Paulo, sob direção do mesmo Rangel e Regina Duarte no papel principal. Agora, seis décadas depois, uma nova geração assume a obra. Com direção de Abilio Tavares e integrantes da Escola de Arte Dramática (EAD-ECA-USP), o espetáculo cumpre temporada no Tusp, no Centro MariAntonia da USP, em São Paulo.
A nova montagem retoma a obra a partir de outra posição no tempo e lança uma pergunta que acompanha todo o processo de criação: por que montar O Santo Inquérito hoje? “Talvez seja porque essa história ainda encontra eco no Brasil contemporâneo”, afirma Abilio. Para o diretor, depois da abertura política, textos diretamente relacionados à ditadura chegaram a parecer datados. “De uns tempos para cá, com todo esse movimento de direita, de extrema direita, essas evocações saudosistas do período da ditadura militar, esses textos voltaram a ficar muito atuais.” A montagem parte da tentativa de identificar essas conexões com o Brasil de hoje.

Cenografia e figurinos de Marco Lima também recusam uma reconstrução histórica do Brasil de 1750. Há referências pontuais ao período na roupa de Branca Dias, enquanto os personagens masculinos vestem roupas contemporâneas. A escolha desloca a ação para o presente e amplia a questão da intolerância religiosa. “Hoje em dia a intolerância religiosa não está circunscrita apenas à Igreja Católica, então a gente procurou ampliar esse espectro, abrindo possibilidades de leituras nesse sentido”, diz Abilio.
Entre as questões identificadas no processo estão a intolerância religiosa, de costumes e de modos de vida, além da resistência àquilo que é diferente. A questão da mulher também ganha centralidade. Branca Dias é perseguida por suas ideias e por sua disposição de questionar o poder estabelecido. “É uma mulher que é levada à fogueira pela Inquisição, por suas ideias, por sua ousadia de pensar fora dos cânones daquele poder estabelecido”, afirma o diretor. Para ele, a fala da personagem de que não é a primeira e nem será a última encontra ecos no cotidiano contemporâneo.
Mais do que atualizar O Santo Inquérito, a montagem procura observar o que acontece quando uma obra muda de lugar no tempo. Para Abilio, “a intolerância com a alteridade” e a mudança de posição de quem olha são as duas grandes questões que a peça apresenta ao público em 2026. A resposta para a pergunta sobre por que remontá-la hoje permanece aberta: cabe também ao espectador encontrá-la.
Serviço
O Santo Inquérito
Tusp. Rua Maria Antônia, 294
Quarta a Domingo, 20h. Entrada Franca – Retirada de ingressos com uma hora de antecedência, na bilheteria do Teatro
Até 23 de agosto (estreia 12 de agosto)
