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“Kafka e a Boneca Viajante” apresenta obra do escritor checo sob uma visão lúdica

Sinopse

O musical, com dramaturgia de Rafael Primot e direção de João Fonseca, estreia no Teatro Villa Lobos para abordar diferentes sentimentos sobre a perda

Por Dirceu Alves Jr.

Bastante abalado pela tuberculose, o escritor checo Franz Kafka (1883-1924) procurava ar puro em curtas caminhadas pelo Parque de Steglitz, em Berlim, naquele que seria o último ano de sua vida. Ele se via sem estímulo e saúde para se concentrar em um novo livro e, em um dos passeios, deparou com uma imagem que virou sua derradeira inspiração. Uma menina chorava por causa de uma boneca perdida. O autor inventou na hora uma história para consolá-la: a boneca, chamada Brígida, tinha viajado e ele, um carteiro, lhe entregaria as correspondências enviadas por ela.

Lenda ou não, o fato é que nunca foram encontradas essas cartas em que Kafka teria assumido o ponto de vista do brinquedo para dar um pouco de alegria a tal garota do parque. Dora Dymant (1900-1952), mulher do autor na época, confirmava a existência delas. Entre as diversas versões para este encontro aparece o livro do espanhol Jordi Sierra i Fabra, inspiração inicial do musical Kafka e a Boneca Viajante, com dramaturgia de Rafael Primot e direção de João Fonseca, que estreia nesta sexta, 20, no Teatro Villa Lobos. Alessandra Maestrini, André Dias, Carol Garcia e Lilian Valeska estão no elenco da montagem lançada em junho no Rio de Janeiro e que, antes de chegar a São Paulo, passou por Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre e São Luís. 

Elenco do espetáculo Kafka e a Boneca Viajante Fotos – Ale Catan

Trata-se de uma história de acolhimento mútuo em um espetáculo adulto, mas que costuma agradar a plateia infanto-juvenil. Kafka (interpretado por André Dias) é um homem à beira da morte que ao devolver a esperança à pequena Rita (papel de Carol Garcia) encontra um sentido para sua vida. “Kafka começa a criar as cartas para a menina e descobre que está escrevendo para ele mesmo, suprindo sua necessidade literária”, explica Fonseca. “A Rita também entra no jogo, aceita a mentirinha, porque ela sabe que a boneca não fala ou escreve, mas, como, na sua imaginação, elas conversam, por que não acreditar?”

Quem representa Brígida é a atriz e cantora Alessandra Maestrini, que, acostumada a mergulhar no lúdico em seus papéis cômicos, quebrou qualquer barreira realista e se assumiu como uma boneca. “A nossa meta sempre foi encontrar o equilíbrio entre a profundidade de Kafka e a comunicação com os adultos e as crianças, já que transitamos entre esses dois públicos”, afirma Alessandra. “Então, quando a cena parece infantil demais nós puxamos os espectadores para a realidade e se o assunto está denso a gente solta uma piada, apela para a descontração.”

Para Alessandra, um dos grandes acertos da dramaturgia é a sutileza com que Rafael Primot explora assuntos filosóficos não só relacionados à morte como também ao universo feminino. “Quando eu faço uma boneca, penso em como é se sentir uma boneca, aquela pessoa que sempre quer agradar o outro ao invés de direcionar sua vida e, aos poucos, Brígida começa a manifestar vontades, não ser mais carregada e vai para onde bem entende”, declara a atriz.

O texto estabelece uma ligação com os livros mais conhecidos de Kafka. Brígida, por exemplo, se apaixona por um soldadinho de chumbo (vivido por Dias) batizado como Gregor, o protagonista da novela A Metamorfose. Também relacionado a esse livro, a boneca, lá pelas tantas, se converte em um inseto e o mesmo Gregor descobre que enfrenta pendências com a justiça por motivos desconhecidos, referência ao romance O Processo. “Através das cartas, eu também aproveitei para contar um pouco da história pessoal do Kafka, como os problemas enfrentados com o pai dele que coloquei na vida da menina”, comenta Primot.

Elenco do espetáculo Kafka e a Boneca Viajante Fotos – Ale Catan

Além da trilha sonora original composta pelo diretor musical Tony Lucchesi que costura as cenas, Kafka e a Boneca Viajante apresenta canções conhecidas do público que ajudam a narrativa. De Djavan aparece a composição Um Amor Puro, tema da paixão da boneca e do soldadinho de chumbo. Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, Todo o Sentimento, de Chico Buarque, Metamorfose Ambulante, de Raul Seixas, e Balada do Louco, de Arnaldo Baptista e Rita Lee, também figuram na peça. As viagens de Brígida pelo mundo são embaladas por um medley que remete a diferentes países, como Guantanamera, sobre Cuba, La Bamba, para falar do México, e O Sole Mio, da Itália. “É um espetáculo que me toca profundamente por essa questão do conforto de que você não perdeu alguém, a pessoa pode só estar viajando e, depois de tanto sofrimento na pandemia, acho que esse trabalho limpou um pouco a minha tristeza”, completa João Fonseca.

Serviço:

Kafka e a Boneca Viajante. Teatro Villa Lobos. Shopping Villa Lobos. Avenida Doutora Ruth Cardoso, 4777, Pinheiros. Sexta, 21h; sábado, 20h; domingo, 18h. R$ 40,00 a R$ 150,00. Até 10 de dezembro. A partir de sexta (20).

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Ficha Técnica

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Serviço

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