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Fernanda Maia espelha angústias de sua geração no monólogo “Denise”

Sinopse

Sob a direção de Zé Henrique de Paula, atriz e autora dá voz aos sentimentos em solo que aborda questões pessoais, mas não a sua própria história

Por Dirceu Alves Jr.

Aos 56 anos, a atriz, dramaturga, diretora e musicista Fernanda Maia confessa que anda perdida no tempo. Não sabe exatamente qual é o seu lugar neste mundo que lhe apresenta constantes questionamentos pessoais e profissionais. “Tenho uma interlocução intensa com pessoas que são muito mais jovens e, claro, não faço parte da geração delas”, afirma. “Esse mundo novo e legal que se abre é tão diferente daquele em que fui criada que preciso descontruir meus valores para fazer parte dele.”

Conhecida como diretora musical, Fernanda formou uma dupla profícua ao lado do encenador Zé Henrique de Paula, seu conterrâneo de Sorocaba, amigo desde a infância. Levam as assinaturas deles espetáculos como Senhora dos Afogados (2008), Urinal (2015), Chaves, Um Tributo Musical (2019) e Sweeney Todd (2022), mas, quando, em 1995, ela saiu do interior paulista, o seu desejo mesmo era ser atriz. “Só que logo entendi que não me enquadrava nos padrões e ficaria limitada aos papéis da gordinha engraçada”, conta. O diploma de bacharelado em música, entretanto, lhe deu chance de explorar múltiplas potencialidades quando um novo mercado começou a vingar e o lugar do maestro até então era reservado aos homens. “Percebi que meu perfil era diferenciado nos musicais porque muitos maestros não tinham tato para lidar com os atores e, para mim, como atriz, seria um facilitador.”

Fernanda Maia no monólogo Denise. Foto Laerte Késsimos

Fernanda cavou o próprio espaço, mesmo que, algumas vezes, tenha conquistado na marra o respeito de atores que duvidavam da sua capacidade. “Como grande parte das mulheres da minha geração, abafei as emoções para firmar uma carreira porque não podia reger uma orquestra chorosa”, assume. Talvez por isso a vocação de atriz tenha ficado camuflada e a necessidade de voltar ao palco, na condição de autora e intérprete, se fez voz prioritária ao dar ouvidos aos seus sentimentos nos últimos anos. 

Sob a direção de Zé Henrique, o monólogo Denise, que estreia nesta sexta, 1º, no Teatro do Núcleo Experimental, traz à tona várias angústias que perturbam Fernanda, embora nada tenha a ver com sua história pessoal. Em cena, ela representa Nina, uma mulher de meia-idade, confrontada com outras duas que moldam a sua vida. A filha sofre de depressão, tentou o suicídio há dois anos e, agora, desperta aflição porque se apaixonou novamente. Enquanto isso, a protagonista se muda para a casa da mãe, que enfrenta o avanço do mal de Alzheimer e precisa de companhia constante.

Por lá, vasculhando o passado, Nina descobre segredos que ajudam a montar o quebra-cabeça da sua história. ‘É uma personagem em contato com a finitude da mãe e preocupada com a filha que, apesar de ter uma longa vida pela frente, atravessa questões árduas”, explica ela, que não encarava uma temporada como atriz desde O Rei da Vela, adaptação da peça de Oswald de Andrade, dirigida por Hugo Possolo em 2016.  

Circunstâncias trágicas

Se, em 2023, a artista se vê desafiada pelas transformações sociais e comportamentais, ela sabe bem que o mundo era bastante diferente para as contemporâneas de sua mãe, suas tias e, nem se fala, de suas avós. Fernanda vem de uma família em que os homens partiram cedo e em circunstâncias trágicas. O avô paterno foi assassinado e o materno cometeu suicídio. “Sempre penso como minha mãe, então uma adolescente, lidou com isso”, diz. Coube às mulheres assumirem as rédeas e, dentro que foi possível, bancarem a estrutura matriarcal.  

Mais velha de três irmãos, Fernanda, assim como a caçula, nunca se casou ou teve filhos. Apenas o irmão do meio, varão, construiu uma família. “A minha geração precisou fazer opções porque não era possível dar conta das nossas pessoas físicas e jurídicas ao mesmo tempo, algo que hoje se tornou mais fácil”, salienta. Escolhas, lógico, têm preços, mas, por outro lado, Fernanda vai bem, obrigada. Jamais se imaginou, nesta idade, tão ativa, reconhecida e cercada dos afetos que consolidou na vida artística. “Eu me sinto gratificada quando ouço de pessoas que viram meus espetáculos que aquilo tocou a emoção delas.”

Brenda Lee

Foi dessa forma que nasceu Brenda Lee e o Palácio das Princesas. O musical, encenação comandada por Zé Henrique, enfoca a militante transexual dos direitos LGBT que, nas décadas de 1980 e 1990, abriu sua casa para dar assistência aos portadores do vírus HIV. Fernanda criou a dramaturgia e escreveu as letras das canções compostas por Rafa Miranda, responsável pela direção musical. “Uma senhora de 80 anos me chamou depois de uma sessão de Lembro Todo Dia de Você, outro trabalho meu, e disse: ‘adorei sua abordagem a respeito do HIV, você escreveria um lindo musical sobre Brenda Lee, que é uma injustiçada’”, reproduz a artista.

Fernanda correu para garimpar os raros registros em torno da história de Brenda Lee (1948-1996) e, impactada, se concentrou com afinco durante a pandemia na construção da peça. O resultado surpreendeu a própria autora. O espetáculo foi considerado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) o melhor do ano passado e rendeu o Prêmio Shell a Verónica Valentino, a primeira atriz trans a levar o troféu. “Foi um projeto meu que abriu caminhos para tanta gente”, comemora. “Eu procurei valorizar o caráter afetivo, fazer um novelão para que a tiazinha que fosse ao teatro se emocionasse com as personagens e até repensasse os seus preconceitos.”

Diante da comoção gerada por Brenda Lee e o Palácio das Princesas, Fernanda deu um tempo no coletivo e enxergou a hora de abraçar uma temática intimista em Denise. O título vem do nome de uma pessoa será decifrada pelo espectador ao longo da trama. “Cheguei a um ponto da carreira que preciso falar de coisas mais próximas de mim, mas me sentia protelando a hora de abordar a passagem dos anos para as mulheres da minha idade”, justifica. “Os homens ainda são valorizados no envelhecimento, mas o que resta para nós? Resta discutir um pouco quem somos nestes novos tempos.”

Serviço

Denise

Teatro do Núcleo Experimental. Rua Barra Funda, 637, Barra Funda. Sexta, sábado e segunda, 21h; domingo, 19h. R$ 50.

Até 2 de outubro

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Ficha Técnica

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Serviço

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