Grupo amadurece seu trabalho de 2024, “GranCirco DuNavô”, e faz curta temporada no Galpão do Folias, em que privilegia o tributo ao afeto e à união que sempre marcaram a vida dos artistas de picadeiro
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 22 de outubro de 2026)
O público que comparecer ao Galpão do Folias, no bairro de Santa Cecília, entre quinta e sábado, dias 22, 23 e 24, será recebido por quatro palhaços – Claudiu’s (Renato Ribeiro), Clóvis (Vinicius Ramos), Elisabetana (Gislaine Pereira) e Pamplona (Gabi Zanola). Logo, estarão todos entrosados e envolvidos por risadas, canções e improvisos. Nessa Grancirco DuNavô, a ideia é compartilhar memórias que ecoam o passado e o presente das famílias circenses: a mulher que fugiu com o circo, o filho de equilibristas, o poeta que fez do picadeiro sua casa e a palhaça que encontrou na estrada o seu lar.
Com direção de Cida Almeida e dramaturgia assinada pela própria Trupe du Navô, em colaboração com Nereu Afonso, o espetáculo, de verdade mesmo, em essência, quer falar da arte de conviver. Assim, o Grancirco reverencia tanto as famílias circenses tradicionais quanto as famílias escolhidas. “Nos conhecemos há 16 anos e já passamos por muitas situações juntos, boas e ruins. Bem coisa de família mesmo. Nossa relação é assim: ao mesmo tempo em que falamos da cena, estamos falando de algo que aconteceu em casa. É tudo meio junto e misturado”, afirma Renato Ribeiro.
Os quatro artistas tinham esse desejo de estar em todas as fases de um projeto, desde o início. Chamaram a diretora, que fez com eles um exercício de criação de cenas. Criaram tanta cena, com tanto jorro de criatividade, que o dramaturgo teve de ser chamado para dar uma organizada nessa ‘coisa’ toda. Ainda assim, desde que estreou em 2024, o espetáculo já passou por outras ‘arrumações’. E essa versão novíssima, no Galpão do Folias, marca o amadurecimento do projeto.

Entre números clássicos de mágica, dança, equilíbrio e palhaçaria, o espetáculo mistura humor e poesia para refletir, de forma leve e brincante, sobre o que sustenta um grupo circense. “A cena de palhaçaria mais atraente para mim será sempre aquela que é feita com o vigor de uma explosão de verdade e com uma espontaneidade que contagia quem está participando daquele momento”, diz Cida Almeida. “Já o número circense que amo é o de acrobacias em grupo, aquele de voo, segunda altura, gangorra… Ah! Aqueles que fazem a gente vibrar e querer virar criança só para fazer aquilo que eles estão fazendo e que parece ser tão fácil e divertido.”
Nereu Afonso, dramaturgo do espetáculo, também opina: “Meu número preferido no circo é o de mágica. Porque é fascinante ser iludido daquele jeito. Sobre tantos palhaços que já vi na vida, destaco o número do origami, que Vera Abbud (palhaça Emily) criou e faz com sua parceira de cena, Paola Musatti (palhaça Manela). É simples na estrutura, porém muito minucioso na execução. Já é um clássico.”
Já que Grancirco DuNavô é essa coletânea de momentos inesquecíveis e clássicos, o elenco também foi levado a opinar sobre suas preferências de picadeiro – na vida, não só no espetáculo. Gabi Zanola diz que gosta muito das gags clássicas de circo, “aquelas cenas que atravessam gerações e continuam funcionando, com algumas adaptações, é claro, para dialogar com o momento em que estamos inseridos”. E prossegue, falando agora dos palhaços: “As entradas clássicas de palhaçaria me interessam porque geralmente partem de uma estrutura muito simples, mas que, quando bem executada, pode provocar o riso de públicos tão diferentes. É como se, por alguns instantes, as pessoas ocupassem o mesmo lugar no mundo, independentemente das diferenças que possam existir entre elas.”
“O circo é uma junção de técnicas, em que uma pode fortalecer a outra”, comenta Gabi. “É incrível, dentro de um espetáculo, ver a plateia perder o ar com os voos no trapézio, por exemplo, e, logo em seguida, se aliviar dando risada com a palhaçada que vem depois. Adoro também assistir a números virtuosos, como globo da morte, trapézio e contorcionismo, daqueles que tiram o nosso fôlego. Mas tem uma coisa que considero muito importante: uma técnica sem uma relação verdadeira com o público não me interessa tanto. Acho lindo quando o circo não se preocupa apenas em demonstrar uma técnica perfeita, mas também em criar uma relação com quem está assistindo. Para mim, o circo também é a capacidade de reinventar o que já existe, sem perder de vista a história de quem veio antes, e de se conectar verdadeiramente com o público.”
Gislaine Pereira, por sua vez, costuma se encantar “por aquilo que me surpreende em sua lógica, que quebra minhas expectativas ou me oferece uma outra perspectiva sobre algo; que aponta um caminho, mas acaba seguindo por outro”. Ela se lembra do atual espetáculo da trupe: “Em Grancirco DuNavô, brincamos com isso de uma maneira em que todos os números são banhados por uma palhaçaria bem brasileira, calcada em nossa tradição oral da piada, mas que também entrega uma comicidade física escancarada.”
De uma maneira geral, no circo, Gislaine acaba se encantando “por aquilo que me oferece magia, que se aproxima do sublime. É como se, naquele momento, todo o tempo fosse suspenso e elevado a uma dimensão quase não humana”. Ela continua: “Penso que também se trata desse campo da surpresa: amo mágica e números aéreos, porque, neles, parece que a humanidade se alarga em seus próprios poderes.”
“Gosto muito das cenas que questionam as hierarquias”, diz Renato Ribeiro. “Quando os palhaços ocupam posições opostas numa relação de poder e aquele que está embaixo consegue se sair melhor, vencer ou até derrubar quem está acima. Acho fascinante perceber como o público se identifica com quem está em uma posição de desvantagem e torce pela queda desse poder. Para mim, a palhaçaria tem essa potência de inverter as lógicas, subverter as relações e nos fazer rir daquilo que, na vida real, muitas vezes nos oprime.”

A ação eletrizante também comove Renato. “Gosto muito dos números que provocam uma descarga de adrenalina, como o Globo da Morte”, conta ele. “Fico impressionado com a capacidade desses artistas de realizar coisas que parecem impossíveis aos nossos olhos. Existe algo de fascinante em ver o corpo humano desafiar os próprios limites, equilibrando técnica, coragem e risco. É aquele momento em que a gente prende a respiração, se entrega ao que está vendo e se lembra de que o circo tem essa capacidade extraordinária de transformar o impossível em realidade diante dos nossos olhos.”
E qual o número de palhaçaria preferido de Vinícius Ramos? “Os esquetes clássicos como um todo, têm meu coração”, responde. “Por apresentarem uma linguagem universal e popular, e serem o caminho que muitos grupos de palhaçaria escolhem para começar, assim como nós da trupe DuNavô. Alguns esquetes precisaram ser revistos e repensados, vejo isso como algo positivo, porque mesmo repensando partes problemáticas a estrutura funciona e provoca o riso da plateia.”
A respeito dos números de circo, ele arremata: “Sempre gostei dos números de palhaçaria e os números de mágica. Os de palhaçaria, pela diversão, o riso contagiante a maquiagem e os figurinos. Os de mágica pelo mistério e a magia. Os números de mágica de que mais gosto são os que as pessoas somem e aparecem em outro lugar, como a Caixa Moscovita. Inclusive no Grancirco DuNavô realizamos uma adaptação desse número de um jeito que me divirto muito fazendo.” Deu spoiler.
Serviço
Grancirco DuNavô
Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213
22 a 25 de outubro. Quinta-feira a sábado, 20h. Domingo, 19h. R$ 20
