Sob a direção de Ulysses Cruz, a peça de Samir Yazbek estabelece conexões entre os dias de hoje e um país que ainda lutava pela abolição dos escravos
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 19 de outubro de 2026)
O trânsito entre o real e o imaginário marca a obra do dramaturgo paulistano Samir Yazbek. O ponto alto desta lavra criativa pode ser considerado O Fingidor, peça inspirada na persona do português Fernando Pessoa (1888-1935), que rendeu ao autor o Prêmio Shell em 1999. Naquele texto, que acaba de ganhar uma nova montagem, lançada este mês no Sesi de São José dos Campos (SP), o poeta se encontra com um crítico literário e, por meio de disfarces e heterônimos, estimula o interlocutor.
Quase três décadas depois, Yazbek se vale de dispositivos semelhantes para escrever Sarah Bernhardt em São Paulo, que, sob a direção de Ulysses Cruz, estreou no Teatro do Sesc Santana. A atriz Arietha Corrêa interpreta a estrela francesa que visitou a capital paulista em 1886. Na época, a cidade contava com 60 mil habitantes, e a artista se chocou diante dos contrastes de uma província que desejava copiar um modelo europeu de civilização e ainda alimentava a exploração escravocrata como motor das relações de trabalho.
No elenco de nove atores e atrizes presentes no espetáculo ainda estão Bárbara Bruno, Daniel Haidar, Jorge Neto, Gabriela Correa, Flávio Passos, Gabriel Amaral, Gabriel Frossard e Henrique Fredel.

“Olha, eu poderia dizer que Sarah Bernhardt em São Paulo é o melhor texto do Samir, mas, quando me lembro de O Fingidor, confesso que fico um pouco em dúvida”, declara um Ulysses Cruz que tenta controlar o impulso. “Só que, com certeza absoluta, este é o seu texto mais maduro, uma outra fase de sua obra, porque alcança uma profundidade que reverbera em tudo o que estamos vivendo até hoje.”
Sarah Bernhardt (1844-1923) e sua companhia mostraram as peças A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, e Fedora, de Victorien Sardou, no Teatro São José, que ficava nos fundos da futura Catedral da Sé, com vista para o Largo do Rosário. Na plateia, a elite cafeicultora dividia espaço com uma burguesia em ascensão e jovens intelectuais.
Um grupo de estudantes da Academia de Direito de São Paulo – a futura Faculdade de Direito do Largo de São Francisco – não se contentou em vê-la no palco e, depois de uma sessão, se ofereceu para acompanhá-la até o hotel onde estava hospedada. “Eu falei para o Samir: ‘O que eles teriam conversado neste trajeto?’, ‘O que teria acontecido durante e depois deste encontro?’”, conta o diretor. “Como no teatro qualquer liberdade poética é possível, o Samir reconstituiu a situação e sua maior sacada foi perceber que, dois anos depois, a escravidão seria, enfim, derrubada e o movimento abolicionista já convulsionava a cidade durante a visita de Sarah.”
Ulysses Cruz descobriu esse episódio envolvendo a atriz e os futuros advogados ao ler A Capital da Solidão, livro do jornalista Roberto Pompeu de Toledo sobre as histórias em torno da ascensão de São Paulo rumo ao caráter de metrópole que ocuparia em meados do século XX. Em 2024, o diretor e Yazbek, apesar da formação em comum no CPT de Antunes Filho e de uma longa admiração mútua, trabalharam juntos pela primeira vez na peça Perfeita!. A montagem, protagonizada por Sergio Guizé, Sol Menezzes e Gustavo Machado, era calcada em uma distopia sobre o autoritarismo, e veio a ideia de, depois de uma obra pessimista sobre o futuro, analisar um passado que ainda pode se fazer presente em alguns aspectos.
Com a cabeça fervilhando, Yazbek aprofundou a pesquisa e desenvolveu a nova peça por um ano e meio. O tempo, bastante privilegiado para o preparo de uma dramaturgia, propiciou ao autor um estudo aprofundado capaz de estabelecer conexões com o cotidiano atual. Ele cita que o trabalho é um resgate da sua peça Brasil: o Futuro que Nunca Chega, encenada em 2016, um díptico em torno da Princesa Isabel e de Dom Pedro II.
“Eu acredito que através do teatro histórico podemos construir parábolas para discutir temas contemporâneos, como o papel da mulher, o racismo e a importância da arte na sociedade”, observa Yazbek. “Partindo de Sarah, falamos, por exemplo, de um dilema que se mantém vivo em 2026 que é a relevância ou não de um teatro dramático e clássico sobre as peças voltadas para as causas sociais.”

Nesta ficção, Sarah circula por pontos emblemáticos do centro da capital, como o Pátio do Colégio e a casa da Marquesa de Santos, e estreita a relação com um destes garotos, Francisco da Conceição (papel de Daniel Haidar), filho de um poderoso cafeicultor. Também aparece no grupo Esperança Garcia, interpretada por Gabriela Correa, a primeira advogada preta do país, e José Menezes, papel de Jorge Neto, um militante abolicionista. “Todos os personagens são inspirados em pessoas públicas mesmo que sejam de épocas distintas”, avisa Yazbek. “Os estudantes, porém, movimentavam a província com saraus literários e uma atividade teatral dentro e fora da universidade.”
Impactada pelo poder da elite cafeicultora e o abuso escravagista, Sarah é cobrada pelos jovens acadêmicos sobre o dever de assumir uma postura contrária a tudo o que viu praticado no Brasil. “É algo que está acontecendo nesta reta final da eleição e me incomoda um pouco porque não deixa de ser um fascismo às avessas”, declara Ulysses Cruz, em relação à insistência dos colegas para que alguns artistas não permaneçam neutros na disputa entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Quem aparece na trama como contraponto a esse incentivo de engajamento é a pintora e escultora Louise Abbéma, vivida por Bárbara Bruno. Ela era uma espécie de braço-direito da estrela e defensora de posições conservadoras, inclusive no que dizia respeito às escolhas profissionais da artista. “Nesta época, Sarah já andava insatisfeita, querendo diversificar o repertório convencional e uma coisa que inventei na peça é que ela teria sido estimulada por José de Menezes a montar Hamlet”, revela o autor. “A peça de Shakespeare marcou a sua carreira na virada daquele século por interpretar um personagem masculino e mostrou o quanto Sarah era ousada e aberta às provocações.”
Serviço
Sarah Bernhardt em São Paulo
Sesc Santana. Avenida Luiz Dumont Villares, 579
Sexta e sábado, 20h. Domingo e feriado, 18h. Sessões extras na quinta 12/11 e nas sextas, 23 e 30/10, 6 e 13/11, às 15h. R$ 60
Até 22 de novembro (estreou em 16 de outubro)
