Encenação articula teatro gestual, palavra, luz, som e artes visuais, criando uma experiência sensorial e simbólica em que o escurecimento não representa o fim, mas o início de outra forma de ver, de dizer e de existir; peça da Cia Dos à Deux coloca ator pedalando uma bicicleta que gera energia para abastecer a própria luz do espetáculo
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 14 de setembro de 2026)
A partir de uma pesquisa inspirada na obra Esperando Godot, de Samuel Beckett, há vinte e sete anos, a dupla André Curti e Artur Luanda Ribeiro fundou a Cia. Dos à Deux, em Paris. De lá para cá se especializaram em um teatro no qual o gesto e o visual são marcantes e quase não há a presença da palavra, caso raro do mais novo espetáculo que explora pela primeira vez a criação de um texto.
A dramaturgia inédita nasce do gesto e retorna a ele, não como explicação, mas como matéria poética, fricção e pensamento encarnado. Para isso os dois artistas simbolizam na cena duas figuras carregadas de sentidos, o Homem-Árvore e o Homem-Luz.
O primeiro insiste em lançar raízes sobre um solo que o rejeita, sua existência desafia um mundo que decide quem pode ou não pertencer. Já o segundo pedala sem descanso uma bicicleta que produz a energia elétrica da própria cena. Cada volta mantém a luz acesa, mas também o esgota. Enquanto ilumina o mundo, escurece por dentro. Sua luz torna-se, ao mesmo tempo, potência e desgaste, sobrevivência e sacrifício.

É essa possibilidade de breu que dá o subtítulo do espetáculo Confuzo (está escurecendo dentro de mim), que chega no CCBB, em São Paulo, após temporada no Rio de Janeiro. Com direção, dramaturgia, cenografia e performance dos dois artistas que estão juntos há quase três décadas, o espetáculo é uma fábula contemporânea sobre o corpo que resiste e sobre o desejo de pertencimento em um tempo de colapso social, ambiental e emocional.
Enquanto um traz no corpo a imobilidade intrínseca de uma árvore, o outro por meio de seu movimento é o responsável por gerar a luz, inclusive a do próprio espetáculo. “Ela representa o humano contemporâneo – suspenso entre o desejo de enraizar-se e a impossibilidade de permanecer. É um corpo em exílio, que tenta sustentar o peso da memória sem perder o equilíbrio diante de um mundo em constante movimento. A árvore cresce onde não deve, e se torna o retrato da condição humana – bela, frágil, deslocada”, revela André Curti a respeito de seu Homem-Árvore.
Já sobre a figura do Homem-luz, Artur Luanda Ribeiro comenta: “Existe algo profundamente pessoal no fato de a luz depender do meu próprio movimento, porque muitas vezes tenho a sensação de que também sigo pedalando na vida para que certas luzes não se apaguem – dentro de mim, no trabalho, nos afetos, na criação. O corpo acaba revelando aquilo que as palavras nem sempre conseguem dizer: o desgaste, a insistência, a fragilidade e, ao mesmo tempo, a vontade de continuar. O Homem-Luz me atravessa justamente por isso. Ele transforma em imagem uma sensação que conheço intimamente: a de que parar às vezes parece impossível. E talvez a própria dramaturgia tenha nascido daí — desse lugar onde esforço, resistência e escuridão interior convivem o tempo todo”.
Serviço
Confuzo
CCBB. Rua Álvares Penteado, 112
Quintas e sextas-feiras, 19h. Sábados e domingos, 18h. R$ 30
Até 18 de outubro (estreou 10 de setembro)
