Bárbara Sut, Carol Botelho, Fernanda Biancamano e Giulia Nadruz se revezam nas múltiplas facetas da artista em musical que chega ao Teatro do Sesi
Por Dirceu Alves Jr. (publicado em 20 de agosto de 2026)
O diretor carioca Gustavo Barchilon, de 34 anos, transita desde 2017 em uma ponte aérea entre o Brasil e alguns lugares do mundo. Já morou na Inglaterra, em Israel e, agora, vive em Austin, nos Estados Unidos. Em sua agenda por Londres e Nova York, por exemplo, sempre aplaudiu um tipo de espetáculo quase ausente entre as produções brasileiras, as montagens de homenagens, aquelas que celebram, reverenciam ou mantém vivas as memórias de artistas ou efemérides do meio cultural.
Com este objetivo, o musical O Céu de Bibi Ferreira chega ao Teatro do Sesi em temporada gratuita a partir desta quinta, 20, depois de passar pelo Rio de Janeiro e Porto Alegre. Ao contrário do que muitos podem imaginar, a peça com dramaturgia de Gabriel Chalita e direção musical de Carlos Bauzys não é mais um dos tantos espetáculos biográficos que se lançam por aí. Até porque a atriz e cantora Bibi Ferreira (1922-2019) já foi retratada em Bibi, Uma Vida em Musical, texto de Artur Xexéo e Luanna Guimarães dirigido por Tadeu Aguiar e brilhantemente protagonizado por Amanda Acosta entre 2017 e 2018.

A ideia é manter Bibi em evidência e, para isso, não existe no palco uma Abigail Izquierdo Ferreira, o nome de batismo da artista, e sim quatro, simbologia para reforçar o céu luminoso de estrelas do título. Bárbara Sut, Carol Botelho, Fernanda Biancamano e Giulia Nadruz se revezam na personificação das múltiplas facetas de uma atriz, cantora e produtora que atravessou uma vida de quase um século no palco, transitou entre a tragédia, a comédia e o musical, flertou com a política e viveu muitos amores.
“Como encenador, não queria oferecer uma imagem de Bibi, mas evocar a essência de uma artista que merece ser relembrada por seus fãs e descoberta pelos jovens”, diz Gustavo Barchilon. “Bárbara, Carol, Fernanda e Giulia são uma só Bibi e, ao mesmo tempo, são muitos e elas mesmas porque representam a projeção de Bibi nas novas gerações.”
Barchilon ouve falar de Bibi desde a infância. Sua avó, Dona Neide, estudou no Colégio Anglo-Americano, em Botafogo, no Rio, e, quando ele passou a frequentar a mesma escola, por volta do ano 2000, aumentou a sua curiosidade em torno da ilustre aluna de outros tempos. Munido destas e de outras histórias, o escritor Gabriel Chalita elaborou uma dramaturgia que desconstrói e reorganiza memórias através das quatro intérpretes.
Carol Botelho traz à tona uma Bibi Ferreira raiz através de um repertório espanhol e português, influências de seus pais, o ator brasileiro Procópio Ferreira (1898-1979) e a bailarina espanhola Aída Izquierdo (1904-1985). Ainda revisita os clássicos da fadista lisboeta Amália Rodrigues (1920-1999), inspiração do espetáculo Bibi Vive Amália, de 2001, e referências do musical O Homem de La Mancha, baseado na obra Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, montado pela artista em 1972. “Os meus textos falam muito da sua família, de seus afetos e seus amores, como Paulo Pontes”, afirma Carol.
A Bibi politizada e brasileira ganha o palco através de Bárbara Sut, que, entre outros espetáculos, apresenta fragmentos de Gota D’Água, versão de Chico Buarque e Paulo Pontes (1940-1976) para a tragédia grega Medeia, de Eurípides. Giulia Nadruz, por sua vez, evoca a alma de Bibi ligado aos grandes musicais da Broadway, como My Fair Lady, temas célebres a exemplo de New York, New York, e sucessos que ela gostaria de ter cantado, mas não cantou, como os da trilha sonora de A Noviça Rebelde.

A famosa faceta ligada à cantora francesa Edith Piaf (1915-1963), que acompanhou Bibi da década de 1980 até o fim de sua vida, é defendida por Fernanda Biancamano através de canções como Non, Je ne Regrette Rien. Juntas, as quatro protagonistas interpretam Monólogo das Mãos, outro clássico do repertório de Bibi, escrito por Giuseppe Ghiaroni (1918–2008). “A direção de Gustavo não pediu a nós uma representação física ou vocal de Bibi”, comenta Fernanda. “Estamos ali como herdeiras, uma extensão de Bibi nas novas gerações.”
A carioca Fernanda Biancamano, de 36 anos, pode falar com a autoridade de alguém que, como se fosse em um momento mágico, conheceu e até foi abençoada pela grande estrela. Em 1998, aos 8 anos, ela participou da peça infantil Libel, a Sapateirinha, dirigida por Tina Ferreira, filha de Bibi. Parte dos ensaios se realizou na casa da diretora, o amplo apartamento no bairro do Flamengo, onde também, claro, morava a dama do teatro. “Era um apartamento lindo, todo decorado em preto e branco, com um piano de cauda no meio da sala, e eu não tinha a menor noção de onde estava”, lembra Fernanda.
Até que, em uma tarde, a dona da casa saiu do quarto, enrolada em um chambre e comentou com Tina: “Desculpe a interrupção, eu precisava ver quem é essa criança que ouço há dias”. Bibi, mais uma vez, pediu licença, sentou-se ao piano, cantou e tocou Non, Je ne Regrette Rien e, no final, disse a Fernanda: “Minha filha, você tem talento e o que está fazendo aqui é um ofício, nunca se esqueça disto”.
Também carioca, Carol Botelho, de 32 anos, pode não ter conhecido Bibi pessoalmente, mas se sente realizada ao dar uma fala específica, na pele da estrela, durante o espetáculo: “Eu sou o vento agora e sopro nas vozes de Giulia, Carolina, Bárbara e Fernanda”. Com estas palavras, ela se sente uma espécie de porta-voz deste legado, o mesmo que já a arrebatou na interpretação de Amanda Acosta no musical dirigido por Tadeu Aguiar.
“O meu primeiro trabalho profissional foi em O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece, protagonizado pela Amanda em 2016”, recorda. “Quando vi Amanda em Bibi, Uma Vida em Musical, eu renovei os meus votos com o teatro e é disso que estamos falando, da emoção de uma artista levada ao público capaz de atravessar o tempo.”
Serviço
O Céu de Bibi Ferreira
Teatro do Sesi – Centro Cultural Fiesp. Avenida Paulista, 1313
Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h. Grátis. Reservas no site www.sesisp.org.br/evento/o-ceu-de-bibi-ferreira.
Até 20 de setembro (estreia 20 de agosto.
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