“Vidrado”, no Sesc Bom Retiro, com Guilherme Torres e direção de Adriano Mauriz, é um solo circense que faz a tensão entre equilíbrio e queda virar potente dramaturgia, com uma verdadeira ‘engenharia do risco’ criada para gerar estado de transe coletivo
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 3 de julho de 2026)
Um cara obstinado que se equilibra em um monociclo e em uma bicicleta acrobática passando por cima de garrafas de vidro. Isso dá um espetáculo. Que coisa mais circense! Pois é isso mesmo – e o nome do espetáculo é Vidrado, em cartaz por mais três sessões no Sesc Bom Retiro, uma delas no feriado do dia 9.
Guilherme Torres é o artista à frente dessa atração tão inusitada e corajosa. Dirigido por Adriano Mauriz, ele transforma a tensão entre equilíbrio e risco em potente dramaturgia. “Eu convido o público a uma experiência visceral em que ninguém assiste apenas com o pensamento, mas com o próprio corpo – prendendo a respiração coletivamente diante do perigo real do meu erro ao vivo”, diz ele. “É uma performance poética essencial para alcançarmos juntos um novo olhar sobre o mundo. O perigo real de o vidro se quebrar mantém os olhos do público magneticamente fixos na cena.”

Nesta entrevista, Guilherme, abnegado representante da arte periférica paulistana, discorre com entusiasmo sobre sua obra. Seu grau de compreensão sobre o que faz e seu discurso apaixonado e articulado sobre o espetáculo nos empolgam do começo ao fim. É raro um artista saber falar tão bem sobre seu ofício. Confiram.
Como é que se transforma equilíbrio em narrativa?
No universo do circo, as habilidades costumam se dividir entre as acrobacias dinâmicas, os voos dos aéreos e o riso da comicidade. Eu, no entanto, escolhi dedicar minha trajetória a uma vertente mais intimista e tensa: as técnicas de equilíbrio. Essa paixão que nasceu na minha infância transformou-se em uma grande metáfora sobre a existência humana no palco. Viver da arte e equilibrar-se em estruturas instáveis, tentando não quebrar a cara, é apenas o meu ponto de partida. A verdadeira mágica acontece em cena quando a minha obsessão por não cair se transforma em uma jornada poética sobre risco e superação. Cada objeto trêmulo espelha as nossas próprias fragilidades. Eu convido o público a uma experiência visceral em que ninguém assiste apenas com o pensamento, mas com o próprio corpo — prendendo a respiração coletivamente diante do perigo real do meu erro ao vivo. É uma performance poética essencial para alcançarmos juntos um novo olhar sobre o mundo.
Por que o espetáculo se chama ‘Vidrado’?
O título do meu espetáculo nasce de uma poderosa metáfora de duplo sentido. No palco, eu conduzo a plateia por uma infinidade de experimentos de equilíbrios extremos utilizando garrafas de vidro. Sob uma técnica rigorosa que me exige foco absoluto e determinação, esse material tão frágil se transforma em uma base surpreendente, capaz de sustentar meu corpo e outros objetos em composições que desafiam as leis da física. Essa engenharia de risco gera o segundo significado do nome: o estado de transe coletivo. Quando alcanço o ápice de cada equilíbrio, estabeleço uma conexão invisível e tensa na qual palco e plateia ficam, literalmente, “vidrados”. Essa figura de linguagem traduz com precisão o magnetismo de uma performance em que o perigo real de o vidro se quebrar mantém os olhos do público magneticamente fixos na cena.
Conte um pouco sobre seus próximos passos rumo a uma carreira internacional. Onde já tem apresentações marcadas?
Estou em cartaz com o espetáculo no Sesc Bom Retiro até o dia 12 de julho, com sessões sempre aos domingos, e já estamos preparando novos voos. Na sequência, seguimos para mais dois festivais no Brasil — um no Rio de Janeiro e outro em Ilhabela. Logo depois, faremos nossa estreia internacional no prestigiado Fringe de Edimburgo, na Escócia, que é considerado o festival de artes mais importante do mundo. Vamos participar integrando a delegação da São Paulo Showcase. É a primeira vez que saio do Brasil com o meu trabalho, então será uma oportunidade incrível de mostrar o nosso circo para produtores de outros países e romper fronteiras. Logo em seguida, vamos para a França, com apresentações confirmadas no tradicional Théâtre Aleph, em Paris. Depois dessa turnê europeia, voltamos com a expectativa de seguir levando o espetáculo ao público mais amplo possível.
Como o tema da ‘coragem de continuar’ aparece no espetáculo e por que é importante falar disso no teatro?
Para mim, não é exatamente sobre a “coragem” artística. Eu acredito que seja mais sobre resiliência e compromisso. Para um artista que, como eu, é oriundo da periferia, a escolha de viver do próprio ofício exige muito compromisso e uma dose diária de superação. Também não me apoio em ilusões. Criar, sonhar, imaginar e tornar sensível aquilo que imaginei aos olhos de outras pessoas é um projeto concreto que a arte nos proporciona. Nesse sentido, sinto que tenho realizado tudo o que pensei e planejei. Compartilhar no palco as estruturas de equilíbrio mais improváveis é a minha forma de mostrar uma trajetória própria de conquistas. Transformo a técnica circense em uma linguagem viva, capaz de inspirar as pessoas a seguirem em frente, equilibrando as instabilidades do cotidiano.

Sua pesquisa é sobre equilíbrio, risco e movimento. O que você já concluiu sobre esse tema? E o que já aplicou na prática em seus espetáculos?
Eu procuro me distanciar da visão tradicional de que as performances circenses se limitam à repetição mecânica de destrezas técnicas infinitamente. Para mim, o mergulho no equilibrismo abre um universo infinito de possibilidades e aprendizados estéticos e existenciais. É uma pesquisa que sinto que nunca terá fim. Ao mesmo tempo, busco conquistar uma longevidade física como artista. O que é difícil, pois o artista de circo é quase um atleta. Na prática dos meus espetáculos, o equilíbrio me proporciona essa busca pelo eixo entre forças opostas. Por meio do controle rigoroso da minha respiração e de muita calma cênica, opero na fronteira entre a tensão e o relaxamento, o peso e a leveza, o vazio e o cheio. O equilíbrio deixa de ser apenas uma habilidade motora e passa a ser uma busca por serenidade em um mundo caótico — uma calmaria suspensa que faço questão de compartilhar com a plateia.
Como o público reagiu no primeiro fim de semana?
A primeira semana de temporada no Sesc Bom Retiro foi incrível e confirmou a receptividade do espetáculo. Apesar do nervosismo típico de uma estreia, senti o público muito junto comigo, torcendo e vibrando a cada evolução. Tivemos um perfil de público muito diverso, variando entre artistas, estudantes de artes e o público família sempre presente no Sesc. “Vidrado” é um espetáculo muito visual, calcado em uma técnica refinada que mantém a plateia coesa, atenta e em estado de suspensão. Mas, para quebrar essa atmosfera de tensão, eu faço uso da comicidade física e de momentos de interação direta. Exemplo disso é quando convido pessoas da plateia para subir ao palco e bater a corda para eu pular de monociclo. Elas entram na brincadeira e se sentem parte dessa jornada. Vendo essas interações e os feedbacks após as apresentações, fico muito motivado e grato de ver tanta gente prestigiando o circo contemporâneo brasileiro.
O que o diretor Mauriz imprimiu no espetáculo e que surpreendeu você como intérprete?
O trabalho com o diretor Adriano Mauriz foi incrível. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi o modo como ele, logo no início, conseguiu enxergar uma dramaturgia clara nas minhas virtuoses técnicas. Ele trouxe metáforas e provocações que nem mesmo eu tinha consciência. O Adriano me dizia: “Esse truque me remete a tal imagem, e todo o conjunto transmite algo que se torna uma metáfora com o que você está vivendo hoje e com o que quer alcançar”. Outro ponto fundamental que ele imprimiu foi o rigor teatral. Por se tratar de um espetáculo inteiramente físico e que não possui falas, ele sempre reforçava a importância minuciosa das minhas expressões faciais, das reações corporais imediatas e do meu posicionamento no espaço cênico. O resultado é uma costura fina em que a precisão técnica do meu circo se funde à densidade dramática do teatro físico.
De que forma a periferia, mais especificamente Cidade Tiradentes, seu bairro, está presente em ‘Vidrado’?
Cidade Tiradentes está em mim. Sou um artista com um vínculo profundo com o bairro onde nasci e cresci. Tive a grande oportunidade de acessar o universo do circo a partir de uma escola de circo social maravilhosa, que é o Instituto Pombas Urbanas – um projeto pioneiro que é Ponto de Cultura desde o primeiro edital nacional em 2003 e já recebeu premiações importantes como o Prêmio Asas. Mais tarde, me tornei também artista-educador nesse mesmo projeto e vejo de perto como a arte transforma a vida de crianças e adolescentes da nossa comunidade. Ver o meu espetáculo alcançando palcos de grande prestígio nacional e internacional me enche de orgulho. Sei que, de alguma maneira, essa excelência artística ajuda a trazer um outro olhar de mundo para as pessoas com quem convivo e mostra a potência real que nasce no extremo leste de São Paulo.
Serviço
Vidrado
Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185
Dias 5, 9 e 12 de julho, 12h. R$ 40. Grátis para crianças até 12 anos
