Inspirado no conto “Pinguinho”, de Viriato Correia, “Saudade” expande a dimensão coletiva da palavra; grupo Os Geraldos, com treze intérpretes em cena, se utiliza da música em várias línguas para estruturar a dramaturgia
Por Ubiratan Brasil (publicada em 18 de maio de 2026)
É notória a dificuldade em encontrar em outras línguas o equivalente para a palavra saudade. Ela é usada em todo o mundo lusófono, mas tem equivalentes conceituais em outros idiomas. Não à toa o espetáculo Saudade, do grupo Os Geraldos, de Campinas, aconteceu pela primeira vez em língua espanhola, a partir de uma residência artística na Catalunha, na Espanha, com desdobramentos na Itália, França e Inglaterra.
Isso se deu quando o projeto deste coletivo foi contemplado em 2024 na Convocatoria Iberoamericana de Residencias de Creación, do Programa Iberescena, entre mais de 200 propostas inscritas por 24 países. Agora o espetáculo estreou em São Paulo, no Sesc Santana.
O espetáculo nasceu durante a pandemia de covid, quando o grupo, isolado em um sítio, entre a iminência da morte e o desejo de celebrar a vida, redescobriu a arte de estar em grupo.
A montagem narra a história de um vilarejo onde a morte era tratada como brincadeira pelas crianças, até que um acontecimento altera de forma definitiva a maneira como elas compreendem a perda. Inspirada no conto Pinguinho, do jornalista e escritor maranhense Viriato Correia, onde a percepção infantil da vida e da finitude são expostas, e em textos de Rubem Alves, a peça articula infância, morte e memória a partir de uma encenação que integra narrativa e canto coletivo. No vilarejo que se constrói em cena, a saudade surge como experiência compartilhada entre atores e público.

Esse sentimento que carrega em outras línguas um emaranhado de significados, não se fixa, no espetáculo, apenas nos indivíduos, mas acessa o coletivo. Para isso, a encenação articula teatro popular e diálogo intercultural. A música ao vivo reúne treze intérpretes e ocupa função estruturante na dramaturgia, organizando a progressão das cenas. O repertório reúne canções tradicionais em português, espanhol, francês, italiano e latim, mobilizando memórias compartilhadas e reforçando a dimensão coletiva da experiência cênica.
“A dramaturgia de Saudade nasce do desejo de transformar em liturgia teatral a experiência mais temida e inevitável da humanidade: a morte”, observam as dramaturgas Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro. “Por meio de gestos, cantos e palavras, o espetáculo cria um espaço de elaboração e comunhão entre atores e público.”
O espetáculo inaugura a Trilogia do Vidro, ciclo que investiga as fragilidades humanas – aquilo que vive à beira do estilhaço e, ainda assim, revela inesperada resistência. Com direção de Douglas Novais e direção musical de Everton Gennari, a obra une teatro popular e pesquisa multicultural, entrelaçando Portinari e Magritte, o cancioneiro brasileiro e hinos de além-mar, na busca por projetar a alma interiorana em um mundo sem fronteiras.
“O conceito musical do espetáculo nasce da maneira popular de transmitir às crianças o significado da morte”, diz Gennari. “Quando alguém morre, dizemos para uma criança que ela virou estrelinha. Esse imaginário se manifesta nas composições e arranjos, buscando traduzir em som a imagem etérea e delicada do céu estrelado.”
A visualidade do espetáculo, que envolve cenários e figurinos criados por Novais e a iluminação de Caetano Vilela, dialoga com a paleta e o olhar social presentes na obra de Portinari, sobretudo no que diz respeito ao homem comum e ao Brasil interiorano, e ressalta a presença do coro como eixo da proposta cênica.
Serviço
Saudade
Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579
Sextas e sábados. 20h. Domingos e feriados, 18h. Dia 23/05, 21h. Não haverá sessão dia 13/06. Sessões extras dias 29/05 e 12/06, 15h. R$ 60
Até 14 de junho (estreou 15 de maio)
