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Espetáculo investiga o fim da infância e o medo de crescer

Sinopse

Antes de Dormir”, de Liana Ferraz, mostra sonhos, pesadelos, receios e dúvidas de uma menina de 9 anos, inseparável de sua boneca e de um amigo imaginário, com vontade de crescer, mas com muito medo do que virá

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 15 de maio de 2026)

Chega um momento em que crianças param de repente de ser crianças e viram… adolescentes. Mas, antes, vivem seu último ato da infância e experimentam junto com isso um embate entre o medo e a vontade de crescer. Porque, logo percebem, crescer está longe de ser uma tarefa fácil.

Esta é a premissa do espetáculo infanto-juvenil Antes de Dormir, com texto de Liana Ferraz e direção (e idealização) de Joana Dória, em cartaz até 19 de julho, no Sesc Ipiranga. Na trama, enquanto os adultos acreditam que as crianças já dormiram, a menina Pipa, sua boneca Maju e seu amigo imaginário chamado Nada (Carol Vidotti, Dom Capelari e Fábia Mirassos) transformam o quarto em um território fértil para a bagunça, ou, em outras palavras, para a imaginação, os sonhos, os pesadelos, os medos e as lembranças. Em cena, há também uma musicista, Clara Dum.

O espetáculo certamente faz os adultos também entrarem na onda daquele quarto animado. E pensarem em qual foi o último ato de suas infâncias. No caso da diretora e idealizadora da peça, Joana Dória, seu último ato da infância foi “um momento de recolhimento, introspecção”. Ela diz: “Lembro da complexidade das emoções ao ir me deparando com as transformações do corpo e de ficar muito envergonhada quando adultos pontuavam de algum modo essas mudanças. Nessa época, passei a escrever sistematicamente emoções, pensamentos e acontecimentos em diários. Não tinha muita vontade de dividir isso com os adultos”.

Cena do infantil Antes de Dormir. Foto Tomas Franco

Joana hoje reflete assim sobre essa fase: “Me parece que esse é um momento muito intenso e delicado. A gente perde um certo chão que foi construído na primeira infância, caso ela tenha sido bacana, e se depara com um espaço entre. Aquilo que fazia sentido antes deixa de fazer, mas ainda estamos encontrando um novo jeito de encarar o mundo.  A imagem de uma calça que ficou curta me vem à cabeça. Queremos ter mais autonomia e decisão sobre as coisas, mas de repente vem uma vontade de colo. Só que eu, nessa época, já não queria pedir colo, queria descobrir como fazer. Ou seja, essa fase tinha muita alegria, mas também uma melancolia misturada”.

Ela conta de uma experiência importante que teve na época dessa transição. “Foi na Casa do Teatro, espaço que me deu uma sensação significativa de pertencimento, o mesmo que eu acho que fui buscar depois quando cresci. Tenho essa lembrança muito clara da época do vestibular: de não ter certeza do que escolher de faculdade, mas de lembrar que aquele lugar (o teatro) era um lugar onde eu tinha me encontrado lá atrás de algum modo e para o qual eu gostaria de voltar.”

Liana Ferraz, a autora, também puxa pela memória e declara: “O último ato da minha infância foi difuso e não sei ao certo quando se deu. Em um momento, percebi que tinha uma opinião minha sendo levada em conta na roda de adultos, como se eu fosse um deles. Uma mudança no olhar, no gesto, algo que me fez pensar: acho que cresci e é melhor pensar bem no que digo, pois estão ouvindo. Esse é um momento muito bonito e meio triste também. O futuro se apresenta como algo grandioso e você começa a ter acesso a ele, mas dói despedir-se do conforto de ser tão cuidada, do próprio corpo, das brincadeiras”.

Um tema tão sensível quanto esse, que nos leva a viajar pelos meandros de nosso crescimento, precisa de certos cuidados para conseguir fisgar a conexão das crianças de hoje, tão grudadas em multitelas e, dizem, tão pouco afeitas a histórias longas. Joana Dória nos fala das providências que pensou em tomar sobre essa questão. “Cor, música ao vivo, alternância entre os momentos reflexivos que o texto pede e a mágica que os recursos teatrais nos permitem, por meio do jogo de luz e sombra, do movimento, dos objetos de cena, do canto, da sonoplastia, do jogo dos atores”, responde ela. “A escolha do elenco e da musicista, assim como de toda equipe artística, foi muito bem pensada e primordial para construir o universo que eu imaginava para o espetáculo. A ideia era que a encenação acentuasse mesmo a fronteira borrada entre a realidade da menina Pipa, sua experiência subjetiva e a imaginação.”

Outra cena do espetáculo infantil Antes de Dormir. Foto Tomas Franco

“O que mais gosto na direção da Joana”, diz a dramaturga, “é do modo como ela acredita na percepção atenta das crianças e não as priva de detalhes primorosos no espetáculo. Quando ela idealizou e me chamou para a dramaturgia, sabia que eu sou uma pessoa que gosta de longos e filosóficos textos. Ela deixou todos ali, na íntegra, confiando, mais uma vez, na profundidade do público infantil. O espetáculo ganha muito por ter uma diretora que o encara como um projeto da vida e o toca com muita competência e delicadeza.”

“Olha, eu sou apaixonada por esse texto da Liana”, devolve a diretora. “É difícil escolher um único aspecto, ele me comove a cada ensaio, a cada apresentação. Mas acho que vale ressaltar a capacidade que o texto tem de se conectar, por caminhos diferentes, com diversas faixas etárias. Há, em um primeiro plano, uma fábula simples que crianças de muitas idades são capazes de entender. Uma menina de 9 anos, a Pipa, está crescendo e, nesse processo, fez uma escolha difícil: abrir mão da casinha de sua boneca favorita para que caiba no quarto uma estante que comporte livros maiores, já que agora a Pipa não lê apenas livros fininhos e cheios de imagens. Em uma segunda camada, a peça apresenta questões e emoções complexas que fazem parte dessa aventura que é crescer. Crianças maiores captam e se reconhecem nas situações vividas pela personagem, enquanto, em um grau diferente de entendimento, adultos também se identificam, por conta das próprias experiências ao longo da vida ou por acompanharem de perto crianças vivendo esse processo. Os retornos que temos tido do espetáculo são valiosos no que diz respeito a essa diversidade de fruição da peça.”

Joana Dória encerra entrevista lembrando muito poeticamente de quando ela também era Pipa no seu quarto de imaginar. “Eu lembro da minha infância com muito carinho”, começa. “São memórias muito sensoriais: o gosto do pavê de amendoim feito pela minha mãe, o cheiro da pedra molhada em volta da piscina da casa da tia em dias de sol, a observação científica de tatu bolas e minhocas no quintal da casa da vó da minha melhor amiga, a paisagem passando rápido pela janela do carro em viagens sem a distração de telas… Eu gostava muito de criar mundos com bonecas, escrever histórias e brincar durante horas com as amigas. Já havia uma diretora em mim que queria conduzir as brincadeiras, criar coreografias, distribuir personagens. Eu ficava bem frustrada quando elas saiam do roteiro.” 

Serviço

Antes de Dormir

Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822

Domingos e feriados, 11h. R$ 40. Gratuito para crianças até 12 anos 

Até 19 de julho (estreou 1º de maio)

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Ficha Técnica

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Serviço

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