Em monólogo, a artista, que se considerava fracassada, divide sem pudores com a plateia um novo entendimento da profissão
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 14 de maio de 2026)
Com o fim da pandemia, acabaram-se as desculpas para a atriz fluminense Milla Fernandez. O mundo voltou a respirar, a vacinação surtia efeito e as atividades culturais retomavam a normalidade. Os colegas, enfim, engatavam novos projetos e, para Milla, que, hoje, tem 28 anos, não havia mais a justificativa de ficar parada por causa da covid-19. Até porque, mesmo na vida pré-pandêmica, ela nunca esbanjou empregos, então a questão era outra.
O renascimento coletivo, porém, significou o isolamento de Milla. Ao contrário do que todos podiam imaginar, a artista conheceu uma satisfação insuspeita porque, pela primeira vez, trabalhara sem parar e podia se considerar bem remunerada nos últimos dois anos. E agora? Voltaria a enfrentar filas para testes e ouvir “não” como resposta? “Ninguém sabia o que eu tinha feito e fiquei paralisada porque, em dez anos de carreira, nunca tinha me sentido bem-sucedida até então”, diz. “A verdade é que algo, finalmente, deu certo para mim.”
Na contramão do mundo, movimento foi tudo o que Milla praticou nos dois anos pandêmicos e, diante da nova fase de inércia, ela precisou criar coragem para não cair em um retrocesso. Depois de três anos de reflexões, veio à tona o monólogo Tip (antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo), dramaturgia de sua autoria, dirigida por Rodrigo Portella, seu marido, que estreou no Rio em dezembro e, pelo visto, abre um novo ciclo.

Em cartaz desde o dia 1º no Teatro YouTube – Sala Eva Herz, em São Paulo, o solo colhe as mesmas reações surpreendentes junto à plateia, que não fica indiferente à autenticidade da atuação de Milla. No palco, ela conta detalhes de uma experiência real que poucos teriam a ousadia de revelar. Tip, que significa “gorjeta” em inglês, é uma autoficção sobre os dois anos em que a atriz trabalhou com camgirl em plataformas de sexo virtual na pandemia. Em um jogo sincero, Milla dá a real sobre um mercado que, como qualquer trabalho, tem seus prós e contras.
Ah, Tip é aquela peça sobre a atriz que, sem perspectivas, apostou no mundo virtual do sexo e, com o entendimento da nova função, até gostou do que fez? Sim, quer dizer, é isso, mas não só isso. Tip é uma peça sobre a morte de uma artista iludida por uma carreira repleta de idealizações que dá lugar a uma outra profissional, mais pragmática, que percebeu que de pouco vale falar quatro idiomas, tocar saxofone e saber de cor monólogos de William Shakespeare. O riscado é outro.
Pela primeira vez, Milla ganhou dinheiro e, mais profundo ainda, teve diante de si um número considerável de espectadores interessados em assistir às suas performances. “No primeiro mês, eu fui bem, recebi mais que um cachê normal de atriz”, lembra ela, que prestava serviços para um site estrangeiro e recebia em dólar. “Só que, com o tempo, o faturamento engatou e até ajudei financeiramente pessoas a minha volta.”

Milla relutou muito em colocar Tip no palco – até por causa da exposição que atingiria os outros. Desde o começo do trabalho virtual, ela contou com o apoio do marido e dos pais, o ator Raul Gazolla e executiva Fernanda Loureiro, mas existia a ainda a insegurança diante das irmãs, do enteado, da sogra e até dos amigos. Nestes três anos, em meio às sessões de terapia, ela deu vários passos à frente e tantos outros para trás e viu que não podia fugir da sua verdade por mais polêmica que fosse. “Dá muito trabalho tentar enganar tanta gente”, concluiu.
Como diz o subtítulo, antes que fosse queimada, ela se atirou no fogo. “Eu precisava fazer alguma coisa com isso, nem que seja um esquete para o Porta dos Fundos”, brinca. “Se esta experiência me trouxe algum empoderamento não foi sexual, mas a libertação de parar de me preocupar com cálculos e a certeza de que nunca mais vou ser uma atriz imaculada.”
Rodrigo Portella, com quem Milla vive há oito anos, é um dos principais nomes do teatro brasileiro. É o responsável por montagens de sucesso como Tom na Fazenda, texto do canadense Michel Marc Bouchard, Ficções, monólogo com Vera Holtz, e (Um) Ensaio sobre a Cegueira, adaptação do romance de José Saramago protagonizada pelo Grupo Galpão.
Além de Tip, Portella tem em cartaz em São Paulo a peça Fim de Partida, com elenco liderado pelo ator Marco Nanini, e, no Rio, estreou O Deus da Carnificina, peça de Yasmina Reza, com Karine Teles, Thelmo Fernandes, Angelo Paes Leme e Anna Sophia Folch. Logo, além do apoio emocional, Milla estaria bem amparada profissionalmente.

“A palavra de ordem do Rodrigo é movimento e esta peça é uma ode ao movimento”, define ela. “Tivemos cuidado para não fazer um espetáculo vitimista, afinal sou uma mulher privilegiada de classe média, mas queríamos mostrar a profissional no sexo como alguém real e não só aquela que não teve escolhas ou buscou o trabalho como escape.”
A ação já começou a surtir efeito. O diretor Felipe Hirsch, mesmo sem ver Tip, convidou a intérprete para o seu novo espetáculo, com o título provisório de Orquestra Fantasma, que tem estreia prevista para 20 de junho no Sesc Vila Mariana. O elenco, que conta ainda com Georgette Fadel, Pascoal da Conceição, Renato Livera e Roberta Estrela D’Alva, ensaia incansavelmente de segunda a sábado. De lá, Milla corre nas sextas e sábados para as suas apresentações no Teatro YouTube.
Mesmo em uma fase promissora, Milla confessa que, antes de entrar em cena, costuma pensar na possibilidade de trilhar outros caminhos, como estudar biologia, por exemplo, e sabe que reavaliar decisões é fundamental ao desenvolvimento pessoal e para fugir do desencanto com a arte. “As pessoas rejeitam a possibilidade de repensar a carreira, como se fosse uma desonra, o reconhecimento do fracasso e, na verdade, é o entendimento do que é bom ou interessante para você”, comenta. “Podemos imaginar que o ideal de uma atriz seja ser a Renata Sorrah ou a Paolla Oliveira, mas será que é tão legal assim ser a Renata ou a Paolla? Só elas devem saber.”
Serviço
Tip (antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo)
Teatro YouTube – Sala Eva Herz. Conjunto Nacional. Avenida Paulista, 2073
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 17h. R$ 120
Até 31 de maio (estreou 1º de maio)
