A partir da trágica enchente de 2024 no Rio Grande do Sul, peça dirigida por Cristiane Paoli-Quito fala da importância de conversar, de prestar atenção no outro e de compreender mais a fundo a temática ambientalista
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 8 de maio de 2026)
Falar sobre questões ambientais na escola nunca será demais. É matéria obrigatória, sobretudo neste país, que precisa acreditar em gerações futuras mais conscientes e adeptas das medidas sustentáveis. Mas e no teatro? O jeito como a crise do meio ambiente chega aos palcos já não está precisando de um chacoalhão criativo? O “mais do mesmo” já não domina os espetáculos? O risco de abordagem excessivamente didática e, portanto, cansativa é grande, afinal, aula é aula, teatro é teatro. “Vamos salvar o planeta” é uma frase já quase desgastada nos versos das canções de peça infantil, isso quando não é a fala final dos protagonistas, à guisa de lição de moral.
Vale a pena refletir sobre essa questão com quem está à frente de peças com essa temática. A premiada Cristiane Paoli-Quito, diretora e dramaturga cênica do infanto-juvenil Correnteza, conversou sobre isso com o Canal Teatro MF. A peça já fez uma primeira temporada no Sesc Bom Retiro, e agora está em cartaz no Centro Cultural São Paulo até o dia 17. Depois segue para o Teatro Alfredo Mesquita, até 7 de junho. Sempre com entrada franca.
O enredo: em meio a uma enchente devastadora que cobriu a cidade, três sobreviventes encontram refúgio no único lugar que resta, a copa de uma árvore. Um avô, sua neta e uma pessoa desconhecida compartilham o diminuto espaço enquanto a correnteza sobe. A enchente/correnteza acontece realmente em cena, graças a truques do teatro.

“É uma pena que estejamos falando de realidade e não de fantasia”, diz Quito. “Correnteza é quase factual e traz como inspiração um fato real de 2024: um acontecimento nas enchentes do Rio Grande do Sul, que foi o nosso primeiro impacto de gravidade absoluta sobre o volume e a força das águas das chuvas persistentes e sem escoamento. Pessoas, famílias e animais tiveram de subir nos pontos mais altos próximos a eles, como telhados ou árvores. O que inspirou nossa peça: um avô e um menino ficaram 72 horas em cima de uma árvore, buscando sobreviver.”
“A necessidade de discutir no teatro o ambiente ou a questão ambiental se torna cada vez mais premente, para que isso se transforme em um lugar de diálogo com as crianças”, pondera a diretora. “Elas, mais do que nós, têm essa necessidade de envolvimento com as questões do seu futuro.”
Quito admite que é um tema delicado, que precisa sair do didático e avançar pelo lúdico. Ela prossegue: “Tive, de fato, muitas questões ao pegar esse trabalho, por conta do tema mesmo. Para não dormirem e caírem das árvores, as pessoas precisaram ficar o tempo todo conversando umas com as outras. Isso me pegou de forma forte. O tema então se amplia para além da catástrofe ambiental e vai passear pelas relações de afeto entre as pessoas e as oportunidades de conversa. Além da relação ambientalista, a peça fala do ambiente de afeto entre as pessoas, que é também uma questão importante: saber estar junto, conversar, você está aí?, está presente? A sobrevivência pelos afetos e pela conversa”.

Cristiane Paoli-Quito explica também por que, além da direção, ela assina no espetáculo uma tal de “dramaturgia cênica”. O que será isso? “Sou uma dramaturga da ação cênica”, responde. “Não de gabinete, como se diz. Faço propostas colaborativas e coloco o elenco para reagir. É um trabalho ‘improvisacional’ provocado por mim. A enchente, por exemplo, foi assim. Trago inicialmente uma proposta de composição cênica, que neste caso veio da dança. E seguimos juntos. Outro exemplo: a árvore para mim é uma personagem fundamental, porque é ela quem resgata as três pessoas. Fomos pegando elementos da sala de ensaio, como bancos, cadeiras escada, para criar a árvore e decidimos fazer a cena de ensaio virar cena do espetáculo. Construímos essa árvore na frente do público em cada sessão.”
“Tudo vai dar certo.” De repente, em plena cena de enchente, a peça se interrompe e essa frase é dita à plateia. “Eu queria essa metalinguagem”, explica Quito. “Era necessária. Porque a cena da correnteza é muito tensa, de propósito, e as crianças precisam desse respiro, um descanso no susto.” Subtemas como o medo, a fome, também foram trabalhados nos ensaios e aparecem como estrutura de roteiro, encaixando na dramaturgia. O texto final traz muito do que os próprios intérpretes – Aline Moreno, Iris Yazbek e Rodrigo Veloso – foram adicionando durante os ensaios.
Correnteza tem uma ficha técnica impecável. A preparação corporal ficou a cargo de Ana Noronha. “Ela é uma bailarina e trabalha comigo há tempos, me ajudando muito no pensamento corporal das peças”, comenta Quito. Cenografia e Iluminação são de Marisa Bentivegna. “Marisa deveria dirigir”, diz Quito, “porque ela tem um olhar cênico maravilhoso e um conhecimento incrível do teatro.”
Figurinos são de ninguém menos do que Cláudia Schapira. “Quando Claudia chega – e ela também é uma diretora muito especial –, eu paro e dedico uma escuta muito fina à proposta dela para o figurino”, derrama-se Quito. Na trilha sonora, Thomas Huszar e Alexis Huszar. Quito declara: “Que alegria ter esses dois conosco, criando essa condição sonora e ‘sonoplástica’ de uma invenção do ambiente, do lugar. O espetáculo é cheio dessas sonoridades que eles nos trouxeram”.
Como se vê, Correnteza está mesmo longe de ser apenas mais uma peça sobre crise ambiental. Vamos lá aplaudir?
Serviço
Correnteza
Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1000.
Sábados e domingos, 17h. Grátis.
Até 17 de maio
Teatro Alfredo Mesquita. Av. Santos Dumont, 1770
Sábados e domingos, 16h. Grátis.
De 30 de maio a 7 de junho
