Claudia Ohana e Priscila Fantin protagonizam embate feminino na peça do croata Miro Gavran dirigida por Darson Ribeiro
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 8 de abril de 2026)
No começo dos ensaios da peça As Amantes de George Washington, que estreia nesta quinta, 9, no Teatro BDO Jaraguá, a atriz Priscila Fantin desenvolveu uma teoria sobre a sua personagem, Sylvia Carver, que guardou em segredo por, pelo menos, quatro semanas. O texto do dramaturgo croata Miro Gavran, dirigido por Darson Ribeiro, é uma ficção em cima de boatos nunca comprovados sobre a intimidade daquele que foi o primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington (1732-1799). Ele teria tido uma amante descoberta por sua mulher, Martha Washington, imediatamente depois da sua morte.
Recém-viúva, Martha (interpretada por Claudia Ohana) convida Sylvia Carver para um chá em sua mansão. O objetivo é promover um acerto de contas sobre o homem com quem as duas teriam se relacionado e compreender o que o teria levado a procurar uma mulher fora de casa. “Para mim, Sylvia é uma invenção, um alter ego de Martha, resultado da sua imaginação para que ela pudesse entender como agiria no lugar de amante”, comenta Priscila.
Para não interferir na composição da colega, Priscila só comentou sua leitura particular diante da equipe no último fim de semana, às vésperas da estreia, e Claudia adorou a hipótese, comprando-a de imediato. As Amantes de George Washington é sobre esta questão do julgamento que as pessoas fazem em relação aos outros e aos fatos e que, de acordo com diferentes experiências e pontos de vistas, podem contribuir para uma modificação da narrativa. “O olhar de alguém sobre uma coisa nunca corresponde exatamente a uma realidade porque vem fundamentado em opiniões”, justifica Priscila. Claudia endossa a fala da parceira de cena: “Martha era uma mulher ambiciosa, forte e faz todo sentido ela querer assumir este papel para continuar no controle da situação”.

Claro que estas são apenas algumas impressões de duas intérpretes a respeito da dramaturgia de Miro Gavran, que já teve textos montados no Brasil, como Tudo sobre Mulheres e Tudo sobre os Homens, com tramas que refletem sobre relacionamentos. A peça As Amantes de George Washington não foge da temática. Na nobre sala de um casarão do século XVIII, em Mount Vernon, norte da Virgínia, Martha Washington e Sylvia Carver travam um embate em que são obrigadas a revelarem uma a outra verdades do passado que vêm à tona sob uma nova perspectiva. “Martha, muitas vezes, negligenciou o marido, o amante e ficou casada só com o presidente”, comenta o diretor. “Agora, no luto, ela quer entender o que essa outra mulher oferecia a ele, inclusive sexualmente.”
Darson Ribeiro afirma que, ao ler a peça de Gavran, se encantou com os diálogos e a profundidade de uma discussão que, mesmo ambientada em 1799, parece próxima de tudo o que se vive hoje. “O teatro atravessa um momento muito forte em relação ao feminino”, diz. Para ele, as personagens falam da idealização de uma vida pautada por um amor verdadeiro que pode cegar e, quando se trata de sentimentos, o discurso muda muito pouco mesmo com o passar dos séculos.
Na encenação, Ribeiro buscou o contraste entre o preto e o branco para simbolizar o luto e o rancor dessas personagens. “São mulheres que concretizaram a ideia de que não viverão mais em paz por conta da ausência deste amor”, explica ele. “Por isso, busquei na direção um minimalismo absoluto e sempre digo para as atrizes que elas podem expressar as emoções sem levantar um dedo.”
Claudia, de 63 anos, reconhece que Martha Washington é uma das personagens mais complexas que defendeu em 45 anos de carreira. Conhecida por papéis fortes e sensuais, principalmente na televisão e no cinema, a atriz ficou seduzida pelo convite de Ribeiro justamente por se experimentar em uma história de época e uma personagem cheia de conflitos internos. “São duas mulheres que, ao mesmo tempo, são vítimas e vilãs”, observa. “Sem falar nas discussões sobre sexualidade e aparências que estão presentes de hoje de um jeito avassalador com as redes sociais.”

A atriz vinha de duas peças em sequência, Toc Toc e Parabéns, Sr. Presidente, e tinha acabado de rodar o filme Não me Lembro, dirigido por Fábio Flecha, no Mato Grosso do Sul. O descanso, porém, teve que ser adiado porque ela se sente cada vez mais absorvida pelo palco. Cláudia confessa que demorou a se encantar pelo teatro e, por quase duas décadas de carreira, acreditou que trabalharia apenas com cinema e televisão.
Em 1994, ela finalmente estreou no musical Rocky Horror Show, mas só entendeu de fato a magia da cena ao vivo em Callas, espetáculo dirigido por Marília Pêra (1943-2015) em 2014, sobre a cantora lírica Maria Callas (1923-1977). “A Marília me mostrou, com toda a sua rigidez e genialidade, que o teatro poderia também ser a minha casa”, lembra. “Foi como na televisão, que só aprendi a fazer na novela Vamp, em 1991.”
Priscila, aos 43 anos, ganhou popularidade na década de 2000 com novelas de grande sucesso como Chocolate com Pimenta e Alma Gêmea. O teatro lhe rendeu bons trabalhos nas peças Vergonha dos Pés (2008) e A Besta (2014), dirigidas por Alexandre Reinecke, e A Entrevista (2012), texto do holandês Theodor Holman encenado por Daniel Filho.
Nos últimos anos, ela investiu em projetos autorais, como a peça Precisamos Falar de Amor, Sem Dizer eu te Amo e o programa de internet Menos Pausa, em que aborda assuntos relativos ao bem-estar feminino, como a menopausa. “Eu acumulo todas as funções, produzo, entrevisto, edito, e estava completamente focada no programa quando o Darson entrou em contato comigo”, diz. “Só que sou uma apaixonada pela palavra e acho importante colocar em cena embates de valores, porque, à medida em que a peça avança, o julgamento começa a mudar e enxergamos que devemos ouvir todos os lados.”
Serviço
As Amantes de George Washington
Teatro BDO Jaraguá. Rua Martins Fontes, 71
Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h. R$ 150
Até 10 de maio (estreia 9 de abril)