Narrada de forma inusitada, dramaturgia do ganhador do Nobel de Literatura cria artimanha temporal e constrói trajetória que se dá do fim para o começo, criando um quebra-cabeça que revela opressões de um relacionamento
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 7 de abril de 2026)
Quando o dramaturgo britânico Harold Pinter (1930-2008) ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 2005, a Academia Sueca, responsável pela láurea, se referiu às suas obras como “reveladoras do abismo que se esconde por trás da tagarelice cotidiana e que arromba as portas fechadas da opressão”. Três anos depois ele morria e deixou mais de trinta peças de teatro escritas entre 1957 e 2000. Uma delas, de 1978, é considerada um dos pilares da dramaturgia de Pinter, especialmente pela sua estrutura e por sua violência contida que atravessa a relação de um triângulo amoroso.
Narrada de trás para frente, Betrayal, que está em cartaz no Teatro Uol, acompanha a história de Emma, Robert e Jerry, cujos destinos se cruzam e põe à prova as fronteiras entre intimidade, amizade e lealdade entre uma mulher, seu marido e seu amante. O texto expõe segredos e contradições, convidando o espectador a se debruçar sobre os silêncios e ambiguidades que permeiam as relações humanas.

Com direção de Lavínia Pannunzio, o elenco é formado pelo trio Luiza Curvo, Leonardo Brício e Diego Machado, além da participação especial de Miranda Diamant.
Por sua estrutura, o público é responsável a montar o quebra cabeça temporal proposto por Pinter e se depara com uma fotografia um tanto sombria do comportamento masculino. Ao longo da encenação, Emma se vê alvo da misoginia do marido e do amante, onde é manipulada ora por um ora por outro e se transforma em um objeto nas mãos dos dois. Quando é possível, os dois homens se apoiam neste encontro de equívocos. A violência na obra de Pinter não requer agressões físicas, mas palavras e silêncios que caracterizam os ataques.
Na encenação, os conflitos acontecem em torno de um sofá de quase seis metros. O elemento cênico é uma espécie de termômetro que mede a proximidade emocional dos personagens ao longo da história. Quando Jerry e Emma estão no auge da paixão, eles se sentam lado a lado. Quando a relação começa a ruir, ficam distantes.
Com estética minimalista, a direção dá ênfase na força da palavra, na tensão dos silêncios, na precisão dos diálogos e na densidade psicológica dos personagens, características bem marcantes na obra de Pinter. Os três permanecem presentes em cena durante toda a peça, criando um “jogo de presenças” constante, em diálogos humanos e atemporais.
Serviço
Betrayal
Teatro Uol. Shopping Pátio Higienópolis. Avenida Higienópolis, 618 – Piso Terraço
Sexta a domingo, 20h. R$ 120 / R$ 150
Até 24 de maio (estreou 3 de abril)