Encenação minimalista de Marcos Damigo não traz objetos cênicos e potencializa os diálogos do texto e o jogo dos atores Fernando Pavão e Otávio Martins; os três celebram trinta anos de carreira
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 24 de março de 2026)
As relações familiares costumam render bons enredos tanto para o teatro como para o cinema. Nelson Rodrigues é um exemplo disso e suas dramaturgias passam pelos conflitos familiares entre irmãos, mães, tias e casamentos, conduzindo tramas envolventes. O cineasta Thomas Vinterberg expôs os dilemas de família em uma comemoração de aniversário de seu patriarca no filme Festa de Família, de 1998, no qual um dos filhos estraga a tal festa após uma revelação bombástica.
As tensões dos encontros e reencontros são bons disparadores para a estrutura de um texto. O espetáculo Entre Irmãos, que reestreia no Teatro Viradalata, se apropria desta ação para colocar em cena dois irmãos que, depois de 25 anos sem se ver, se encontram no velório do pai. O reencontro é tenso, carregado de ressentimentos e mágoas. Enquanto o mais velho acusa o mais novo de fugir de suas responsabilidades, o irmão mais novo o acusa de ser cúmplice dos erros cometidos pelo pai. No entanto, uma revelação do passado muda totalmente o ponto de vista dos irmãos, que precisam revisitar suas intimidades para dialogar.

O texto, escrito por Otávio Martins, aborda temas universais das relações familiares, como o confronto entre diferentes escolhas de vida e as complexas dinâmicas entre irmãos que tiveram a mesma criação, mas cujas personalidades entraram em rota de conflito. Otávio, que tem um irmão, enfatiza que a peça não é autobiográfica, mas reflete sobre o que acontece quando dois mundos tão diferentes são colocados frente a frente. “Todas as famílias têm um irmão que sai, que desbrava o mundo, e o irmão que fica, que fica responsabilizado por proteger e cuidar”, diz o autor que também está em cena ao lado do ator Fernando Pavão.
Para o diretor da peça, Marcos Damigo, que tem um irmão gêmeo, “a relação entre irmãos é uma das mais complicadas de se explicar. E o texto é um desafio não só pelo que é dito, mas principalmente pelo não-dito, o não-falado, o subentendido”.

As escolhas de encenação foram tomadas em função do texto. “Os diálogos são muito bem estruturados, é um jogo de tênis que o espectador acompanha às vezes como plateia, às vezes como voyeur.” A escolha de uma encenação minimalista, sem objetos cênicos, permite que os atores explorem ainda mais a potência do diálogo. “O grande desafio para os atores é criar todo o ambiente cenográfico através das palavras. A interpretação dos atores ganhou uma outra qualidade”, enfatiza o diretor.
Serviço
Entre Irmãos
Teatro Viradalata. Rua Apinajés, 1387
Sábado, 20h30. Domingo, 19h30. Não haverá sessões nos dias 28 e 29 de março. R$ 120
Até dia 26 de abril (estreou em 14 de março)
