Grupo paranaense ocupa o Sesc Vila Mariana com adaptação inusitada da obra de Saint-Exupèry, “Agora é Minha Vez”, em que luto, depressão, tristeza, melancolia e solidão ganham espaço em um jogo teatral que, apesar dos temas fortes, consegue ser divertido
Por Dib Carneiro Neto (publicada em 20 de março de 2026)
No Sesc Vila Mariana, está em cartaz – vindo de Curitiba – um curioso espetáculo baseado (livremente inspirado) na história de O Pequeno Príncipe, clássico de Antoine de Saint-Exupéry. Trata-se do segundo espetáculo da carreira do grupo GPeTI – Grupo de Pesquisa em Teatro para Infância. O título é Agora é Minha Vez, direção de Gabriela Valcanaia e dramaturgia também dela e de Vinicius Medeiros. Fizeram uma releitura brasileira apoiada em jogos teatrais divertidos, embora o assunto seja muito sério.
Gabriela Valcanaia explica um pouco do processo de criação, levando em conta que se trata de uma obra bastante conhecida no mundo todo. Ela diz: “A história original, por ser um clássico, já chegou ao imaginário das pessoas de diferentes formas. Ficamos pensativos, no início, sobre se deveríamos buscar algo na literatura – se isso seria impactante no nosso trabalho e para o nosso público. Decidimos que sim. Levamos muito em conta, durante o processo, os jeitos que a obra ‘bate’ subjetivamente nos próprios atores em cena. Isso foi rico no processo”.
Ela e toda a equipe criativa não tiveram medo do tema delicado: “Eu queria, como diretora, que o espetáculo ficasse bastante centrado no tema da solidão da infância, na tristeza de uma criança se sentir sozinha no mundo. É um tópico muito evitado, porque idealizam demais a infância, como se tudo fosse alegria e brincadeira o tempo todo. Mas esquecem que as crianças também estão passando por todos os defeitos do mundo – e sofrendo tanto quanto os adultos. Solidão, ansiedade e até depressão são coisas que afligem as crianças, por mais que não se queira acreditar. A história do Pequeno Príncipe foi um ótimo ponto de partida para abordarmos tudo isso, inclusive o luto e a tristeza”.

A dramaturga nos aponta o que ela vê de diferencial em sua montagem, tendo em vista que centenas de adaptações já foram feitas dessa mesma obra. “Na história original, uma pessoa adulta se encontra com a sua versão criança e, a partir desse contato, revisa sua vida”, analisa Gabriela.
“Nas últimas páginas, há o encontro desse personagem com uma serpente, simbolizando o fim, a hora de partir. Isso sempre me interessou. Eu achava melancólico e queria explorar na peça. Na nossa versão, esse momento do fim do livro, o contato com a serpente, ficou mais como um momento do ápice de contato consigo mesmo, uma interação de ego e identidade. Uma psicanalista nos ajudou muito durante a pesquisa. É importante ter contato com outras áreas de conhecimento, para além da camada da fruição artística”, afirma.
Ela arremata: “No fim das contas, partimos de uma premissa muito simples – uma criança perde seu cachorro – para falar de diferentes formas de luto e perda. Acho que, assim, conseguimos atingir diferentes tipos de público e promover identificações interessantes”.
O ator Vinícius Précoma, também cenógrafo, figurinista e bonequeiro da peça, conta como tem sido a temporada paulistana. “Já estivemos em São Paulo anteriormente, em outubro de 2024, com outro espetáculo, o nosso primeiro, No Armário Não Cabe Ninguém”, relembra.

“É muito curioso observar que as crianças de São Paulo, talvez por irem bastante ao teatro, já que a oferta de peças é imensa, têm um incrível repertório de parâmetros opinativos. Elas vêm fazer fotos com a gente no final e ficam dizendo tudo o que acham, do que gostam e do que não gostam. Isso é muito diferente em São Paulo, comparando com outros locais por onde viajamos. Elas têm uma base de pensamento crítico. No início da peça, fazemos uma espécie de mediação, sobre como se comportar em uma sala de teatro. A gente percebe que, em São Paulo, já existe esse hábito e essa familiaridade delas com as regras comportamentais em um teatro.”
O ator lembra que o GPeTI foi fundado há cinco anos por bacharelandos em Artes Cênicas de Curitiba. Ele comemora: “Estar em São Paulo, em temporada, funciona muito como validação de nosso trabalho. Temos viajado bastante, alçado voos cada vez maiores, já fomos para Salvador, Brasília, Rio. Neste ano de 2026, vamos passar com nossos trabalhos por todas as cinco regiões do país”.
Serviço
Agora é Minha Vez
Sesc Vila Mariana – Auditório – 1º andar, Torre A. Rua Pelotas, 141
Domingos, 16h30. R$ 40. Crianças até 12 anos não pagam
Até 5 de abril (estreou em 8 de março)
