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História de avó brincalhona e cheia de vida é um convite à imaginação

Sinopse

“Voz de Vó” retrata idosa com Alzheimer sem falar de ausências e esquecimentos, mas sobre amor e criatividade

Por Dib Carneiro Neto

Houve um tempo em que, no teatro para crianças, a vovozinha boa era só a avó de Chapeuzinho Vermelho – e todas as outras personagens idosas das fábulas e enredos eram bruxas, as vilãs. De alguns anos para cá, os dramaturgos têm criado tramas afetivas e cativantes com – e sobre – avós, partindo da premissa de que velhos (idosos) voltam a ter comportamentos de criança e que, por isso, as avós seriam personagens incríveis para serem exploradas no teatro infantojuvenil.  

Voz de Vó, com dramaturgia final de Sara Antunes – que assina a direção, com supervisão artística de Vera Holtz – é uma dessas criações poéticas contemporâneas, que falam com o público de todas as idades sobre o ritmo da vida madura, a perda da memória e a importância da fabulação, ou seja, o valor de brincar com a imaginação, aos 5, aos 10, aos 20, aos 40, aos 60, aos 90 anos de idade.  A peça chega ao Teatro do Sesi, que vira palco de uma viagem pela busca das memórias de uma vida. 

Dramaturgia e direção casadas à perfeição

“Por se tratar de uma estreia nacional, estamos ansiosos para essa troca com a plateia”, comenta Sara Antunes, a autora-diretora. “A felicidade é absurda: poder falar sobre a delicadeza dos afetos, com humor e poesia.” Ela conta que Vera Holtz, sua grande amiga, faria a direção, mas houve uma coincidência de datas com outro trabalho, e a melhor solução, pela densidade do tema, foi Sara também dirigir o elenco. “Assumi sem receio essa função, porque eu já crio a dramaturgia pensando na cena cheia, com imagem, cor,  temperatura, enfim, o jogo. Então, para mim, de alguma forma a dramaturgia vem junto com a direção.” 

Cena da peça Voz de Vó. Foto Alessandra Nohvais

Sara Antunes nos detalha um pouco mais sobre seu processo de dirigir o próprio texto: “Eu fui para a sala de ensaio com um roteiro, como os canovaccios da Commedia Dell’Arte. Sabia como começava, sabia os ‘causos’ que queria contar, os jogos e o final. Mas o ‘como’ a gente descobriu com os atores convocando suas memórias, abrindo a escuta para incorporar essas memórias à dramaturgia.  Então acho que a diretora e a autora caminharam de mãos bem dadas mesmo”. 

Laços de afeto facilitaram os ensaios

Outro aspecto importante da produção foi que todas as pessoas envolvidas tinham laços de afeto com Sara. Ela confirma:  “São amizades profundas na equipe criativa, a serviço de uma trama também feita de relações fortes. Então eu fiz uma escrita direcionada a cada ator, porque já os conhecia bem. Houve esse alinhamento”.  

A inspiração para a personagem central, vivida por Clarisse Derzié Luz, veio da avó da autora, Dona Genuína, que era vítima do mal de Alzheimer. Que cuidados de dramaturga Sara precisou ter para falar de Alzheimer numa peça que é também para crianças? Ela responde: “Antes de qualquer coisa, eu queria contar a história de uma grande avó. Amei muito essa minha avó, que realmente teve Alzheimer e queria ter sido atriz. Penso sempre que, se estou aqui, é por causa dela, da sua poesia, da sua delicadeza, de seu ouvido musical. A peça é sobre esse amor e não sobre a doença… Essa avó que vai se esquecendo e trocando palavras ficou de forma muito definitiva na minha vida e acho que falamos mais disso do que das ausências. Falamos da memória como criação, inventividade, continuidade e não como ausência”.

Cena do espetáculo Voz de Vó. Reprodução de foto de Alessandra Nohvais

Sara Antunes descreve mais um pouco a forma como retrata a velhice ao palco: “Os velhos não voltam a ser crianças, mas há um giro temporal que a vida apresenta de forma clara. Há uma premissa na peça sobre a possibilidade de um encontro lúdico, afetuoso, dentro desse giro. A avó que esquece, o neto que inventa. Tive uma avó muito sensível que, à certa altura, começou a se esquecer das coisas….  É por essa via lúdica, humorada, com  imaginação e música, que muitas vezes contornamos as dores. Consegui me conectar a ela e guardar momentos preciosos. Essa peça nasce dessa experiência”.

Criança não é ator, é criança sempre

Para contar essa história, a autora queria em cena várias gerações de atores. E conseguiu. Seus dois filhos, Benjamim, de 10 anos, e Antônio, de 8, estão no elenco. “Eles sempre brincaram de atuar. Cresceram em coxia, no palco, no set. A presença deles no espetáculo é como um componente alquímico mesmo, o tamanho deles, a pureza da voz, a risada. Mais do que a atuação, eles me dão o tom da delicadeza, do humor e da comunicação, além de terem concretamente me ajudado na dramaturgia e proposto jogos e desejos dessa infância que não é a minha. Eu queria a identificação direta. Que as crianças se vissem em cena. Mas criança não é ator, é criança sempre. Então eu precisei respeitar e respirar, para que justamente os adultos do elenco entendessem isso também, a força e a beleza de cada criança – e assim a gente conseguir manter um ambiente lúdico. Foi desafiador e emocionante.” 

Há muitas peças para crianças em que personagens de avós ainda são retratadas de forma muito estereotipada, como uma vovozinha cansada. As avós das crianças de hoje são mulheres ativas, fortes, dinâmicas, não são mais como as nossas avós de antigamente. Como Sara dirigiu Clarisse Derzié Luz no papel da Vó? Ela explica com muita precisão. “Isso foi uma conversa entre Clarisse, Analu Prestes (cenógrafa e figurinista), Vera e eu. A avó seria contemporânea. Nossa avó não está cansada daquilo que vale a pena. Ela jogou fora algumas memórias, porque aquilo não fazia mais sentido, mas seguiu fazendo rap, dança, gostando de mangá, videogames, bordados e principalmente de brincar. Clarisse faz uma avó cativante, cheia de humor e vida”, garante a diretora.

Cena da peça Voz de Vó. Foto Alessandra Nohvais

A avó Genuína, mineira, mãe de 5 filhos, foi dona de casa, escrevia receitas, poesias e, para a neta Sara, foi uma referência feminina de muita força na sua delicada presença. Mas Sara quer render outro tributo: “Essa peça a reverencia, mas também é uma homenagem à minha mãe, avó dos meus filhos, que tem muito humor, risada boa, sempre trabalhou e adora brincar.” 

Serviço

Voz de Vó 

Centro Cultural Fiesp – Teatro do SESI-SP. Av. Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon Masp do metrô)

Quinta e sexta, 11h e 15h (exclusivas para escolas e grupos). Sábado e domingo, 15h

Sessões com tradução e interpretação em Libras e audiodescrição: 29/10, 26/11 e 3/12

Grátis. Reservas antecipadas pelo site: sesisp.org.br/eventos (as reservas abrem todas as segundas-feiras, a partir das 8h, para as apresentações que acontecem na mesma semana). 

Até 17 de dezembro 

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Ficha Técnica

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Serviço

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