Em “A História Que Se Repete”, relações de poder retornam sob diferentes formas, criando um universo em que sonho e ilusão se alternam; a dramaturgia de Gabriela Mellão coloca dois homens em uma situação distópica, o que explora a repetição como experiência existencial, social e política
Por Redação Canal Teatro MF (publicada em 13 de outubro de 2026)
O que acontece quando a espera deixa de ser apenas expectativa e passa a representar a própria condição de uma sociedade? É a partir dessa pergunta que foi concebido o espetáculo A História Que Se Repete. Com dramaturgia de Gabriela Mellão e no elenco os atores Rocco Pitanga e Robson Nunes, a montagem dirigida por Eduardo Figueiredo, que está em cartaz no Sesc Ipiranga, transforma a espera, a repetição e o esgotamento das possibilidades em matéria-prima para uma reflexão sobre os impasses do mundo atual.
Com um tema oportuno para o momento em que o Brasil aguarda um segundo turno das eleições presidenciais que colocará o país em destinos tão díspares, a criação também dialoga com diferentes referências da literatura e do pensamento contemporâneo, especialmente pela representação de indivíduos submetidos a sistemas que parecem incompreensíveis e sobre os quais têm pouco ou nenhum controle. Essas referências convergem para uma dramaturgia interessada na repetição como experiência existencial, social e política.
Dois homens habitam um futuro distópico no qual tempo, memória e realidade parecem submetidos a ciclos intermináveis. Eles se encontram, desencontram, esperam e novamente recomeçam. Entre a resistência e a resignação, os personagens enfrentam uma realidade em que as possibilidades de transformação parecem se esgotar e a opressão é normalizada. Ao mesmo tempo, encontram na música, no humor, no desejo e na própria presença um do outro, pequenos lampejos.

“Eles ensaiam a celebração da vida, ou o que restou dela, festejando os mistérios da existência. Exaltam a beleza da humanidade, mesmo que em um mundo reduzido à miserabilidade de um cotidiano insensato que parece não ter ponto de partida ou chegada, não servir a propósito algum a não ser a manutenção da incerteza, da insegurança e da solidão”, comenta a dramaturga Gabriela Mellão.
Para o diretor Eduardo Figueiredo, o conceito de esgotamento atravessa a encenação: “Diante dessa experiência estética em que o possível se realiza, mas tudo se esgota – inclusive o ser humano -, chegamos à ideia do esgotamento como uma experiência em que o possível se realiza até seus limites”.
É na espera que o espetáculo encontra uma de suas principais singularidades: ela não é apresentada apenas como paralisia, mas também como possibilidade de resistência. Mesmo quando as circunstâncias apontam para o vazio, os personagens insistem em existir, relacionar-se e celebrar o que ainda resta da vida. Aqui a brasilidade aparece, no paradoxo entre escassez e celebração. Em meio à precariedade, há música, humor, festa e desejo.
A perspectiva brasileira ganha força na própria composição do elenco, formado pelos atores Rocco Pitanga e Robson Nunes. A presença de dois protagonistas negros em uma obra inspirada em um clássico do teatro ocidental europeu também é entendida como um gesto de afirmação de outras vozes e perspectivas dentro de um repertório historicamente marcado pela sub-representação de artistas negros.
Serviço
A História Que Se Repete
Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822
Quintas, sextas e sábados, 20h. Domingos (exceto 25/10) e feriados, 18h. Sessões extras 17 e 24/10, 15h. R$ 70
Até 8 de novembro (estreou em 9 de outubro)
