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“Bertoleza” celebra seis anos em diálogo com a evolução do debate sobre as questões raciais

Sinopse

Em cartaz desde 2020, musical da Gargarejo Cia. Teatral dá protagonismo à personagem esquecida do romance “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo

Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 19 de fevereiro de 2026)

A nova temporada de Bertoleza, musical da Gargarejo Cia. Teatral dirigido por Anderson Claudir, celebra o amadurecimento de um espetáculo que, ao longo de anos, amplia as possibilidades de leitura. Lançada em fevereiro de 2020 e premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como melhor espetáculo do ano, a montagem volta à cena nesta sexta, 20, no Teatro Alfredo Mesquita em constante transformação para manter a atenção do público.

A peça fica em cartaz até o dia 1º, com entrada franca, e segue para o Teatro Rosinha Mastrângelo, de Santos, nos dias 7 e 8, e para o Sesi de Campinas nos dias 27 e 28 de março. “Tem gente que fala que virou moda se identificar como negro e trabalhar em cima desta temática, só que o enfoque de hoje não é o mesmo de seis ou sete anos atrás”, comenta Claudir. “Pode até ter um certo modismo, mas é inegável que isto movimenta uma sociedade e promove uma importante evolução no debate sobre o racismo.” 

O olhar atento e flexível é uma característica desde o nascimento do projeto. Inspirado no clássico da literatura naturalista O Cortiço, escrito em 1890 por Aluísio Azevedo (1857-1913), o espetáculo deveria ser uma adaptação do livro e não focar em Bertoleza, personagem fundamental esquecida nas revisões do romance. No filme, por exemplo, dirigido em 1978 por Francisco Ramalho Jr., a trama é centrada em Rita Baiana e Jerônimo (vividos por Betty Faria e Mário Gomes), e Bertoleza (papel de Jacyra Silva) é quase uma figuração.

Cena do musical Bertoleza. Foto José de Holanda

Bertoleza começou a ser desenvolvida em 2015 como uma peça de encomenda da Unicamp para ser apresentada a estudantes do ensino médio. Naquele ano, o romance seria exigido no vestibular. “Quando comecei a estudar o livro, vi que não queria falar dos tantos personagens, mas sim de Bertoleza, porque sem ela aquele cortiço nem existiria”, diz Claudir, responsável pela dramaturgia ao lado de Letícia Conde. “É uma história comum à de muitas mulheres negras que são vistas como mão-de-obra, como alguém que está ali para servir, e podem ser descartadas a qualquer momento.” 

É a escrava Bertoleza (interpretada por Lu Campos), uma mulher de espírito empreendedor, quem empresta sua força de trabalho e as economias para o ambicioso português João Romão (papel de Roma Oliveira) construir as moradias populares. Quando ele, estabilizado financeiramente, encontra a chance de se casar com uma jovem rica, Bertoleza precisa ser escanteada para não atrapalhar a sua ascensão social. “Durante as pesquisas, fiquei incomodado porque não existia material sobre Bertoleza e toda a representação ficava centrada em Rita Baiana, Jerônimo e no próprio Romão”, conta Claudir. “Nem posso dizer que foi uma escolha consciente, mas para criar um espetáculo relevante tudo nos levou a falar de Bertoleza.”

Em 2014, a Gargarejo Cia. Teatral foi fundada em Campinas e montou clássicos literários, como A Cartomante, de Machado de Assis (1839-1908), Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1892-1953), e Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente (1465-1536), interessada nos vestibulandos. Com a necessidade de se aprofundar no ofício, em 2016, o campineiro Claudir veio morar em São Paulo para estudar direção na SP Escola de Teatro e, na sua cola, outros integrantes do grupo fizeram as malas. 

“Vamos voltar a trabalhar em cima de Bertoleza para fazer aqui”, ouviu ele de um dos colegas. Claudir pensava em dar novos passos, seguir adiante e, sem entusiasmo, jogou um empecilho no ar. “‘Mas só podemos fazer Bertoleza com a Lu Campos e ela mora em Campinas, não temos verba para trazê-la a São Paulo’ foi o que disse”, lembra ele. “Só que a Lu ficou tão entusiasmada que veio e bancou as próprias despesas.”

Lu Campos em cena do musical Bertoleza. Foto José de Holanda

Quem vê Bertoleza nos palcos como um vigoroso musical, com canções compostas por Claudir, Andréia Manczyk, Juliana Manczyk e Eric Jorge, que também assina a direção musical, não imagina que a montagem não se enquadraria neste gênero. Claudir começou a escrever as letras das canções como um exercício para ser praticados nos ensaios e, provocado pelos atores e atrizes, inseriu uma ou outra em partes da montagem. “Confesso que não sou fã de musicais, e o único de que realmente gosto é Gota D’Água, do Chico Buarque e do Paulo Pontes, então relutei até aceitar essa transformação na peça que tinha na minha cabeça”, reconhece. “Só que, graças a isto, Bertoleza ganhou uma outra amplitude e tem gente que chegou a vê-la cinco ou seis vezes, algo típico do público dos musicais.”  

Claudir conta com certo orgulho que, nas últimas temporadas, conversou com espectadores entusiasmados, como uma mãe e um filho que já tinham assistido à peça quatro vezes e o tema da redação do rapaz no vestibular foi Bertoleza. A personagem, antes renegada, baseou uma tese de doutorado e tem sido citada em debates sobre o apagamento de personagens pretas na literatura brasileira. 

Com a repercussão de Bertoleza, a Gargarejo Cia. Teatral prepara projetos que seguem a trilha de recuperação da memória embalados em uma linguagem contemporânea. O mais ambicioso é O Cortiço por Elas, uma pentalogia musical, que, depois de Bertoleza, enfocaria em peças individuais, quatro personagens femininas do romance de Azevedo: Rita Baiana, Florinda, Pombinha e Paula, a Bruxa. 

A obra realista de Machado de Assis (1839-1908) será objeto do que o diretor chama de “uma leitura empretecida” de principais criações do autor nesta fase. O espetáculo Machado Real é inspirado nos protagonistas dos romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba. “Em Quincas Borba, vamos usar o rap e o funk e teremos no palco um DJ e um trio de cordas para criar um atrito entre o popular e o erudito”, diz. “Escrevo sempre pensando na cena, mas é preciso estar atento à evolução do olhar até para o espetáculo ganhar longevidade e não ficar restrito ao que foi determinado na sala de ensaios.”

Serviço

Bertoleza

Teatro Alfredo Mesquita. Avenida Santos Dumont, 1770, Santana.

Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h. Grátis. Ingressos distribuídos uma hora antes na bilheteria

Até 1º de março (reestreia 20 de fevereiro)

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Ficha Técnica

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Serviço

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