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Formas de brincar e viver de cinco meninas chamadas Ana

Novo espetáculo da Cia. Lúdicos, “Ana”, em cartaz no Museu da Imigração, usa as brincadeiras como método de encenação e, assim, fala de coisas muito sérias de forma envolvente, propondo reflexões necessárias sobre a diversidade nas famílias contemporâneas

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 23 de janeiro de 2026)

Comemorando o raro feito de 25 anos de trajetória dedicada ao teatro para as infâncias, a Cia Lúdicos de Teatro Popular, que você e seus filhos conhecem de espetáculos como A Ciranda do VillaMário e as MariasPiolin e Avós, entre outros, está de volta em clima de festa com um espetáculo de nome Ana, em cartaz no Museu da Imigração – depois seguirá para mais dois teatros, nesta primeira temporada.

Ana é definido como um mosaico poético sobre o brincar. No palco, você vai ver cinco cenas com cinco personagens, todas chamadas Ana. Uma ideia luminosa, instigante, muito curiosa. A intenção é falar de diferentes infâncias. Dito de outra maneira, retratar diferentes formas de ser criança. Mas Gira de Oliveira, o experiente diretor, faz uma importante ressalva no material de divulgação: brincar não é tema, brincar é método.

Isso é bem interessante de ouvir. Ele explica: “Nosso processo de pesquisa foi atravessado pelo pensamento pedagógico do educador e antropólogo brasileiro Tião Rocha, especialmente a pedagogia da roda e a pedagogia do brinquedo, nas quais ensinar e aprender acontecem no encontro, na troca e na experiência compartilhada. Parte-se da compreensão de que a cultura popular produz jogos, cantos e brincadeiras como matéria-prima de conhecimento e invenção”.

Cena do espetáculo infantil Ana, da Cia Lúdicos de Teatro Popular. Foto Heberth Borges

Ele prossegue: “Essa perspectiva expandiu nosso campo de criação, o brincar que em alguma esfera esteve presente em trabalhos anteriores, em Ana se explicita e se assume como eixo organizador do processo criativo.  As brincadeiras tradicionais, os jogos, as músicas e as cantigas atravessam as cenas, não como ornamentos lúdicos, mas como estruturas dramatúrgicas. O brincar organiza as relações em cena, revela conflitos, tensiona hierarquias e sugere caminhos de transformação. A brincadeira se afirma como instrumento de descoberta, ferramenta narrativa e ponte entre gerações; é nela que as cenas respiram, se articulam e encontram a potência de transformar memórias pessoais em dramaturgia coletiva”.

As histórias apresentadas em cena, segundo ele, são atravessadas por diferentes configurações familiares, afetivas e sociais. Gira dá exemplos, que não são spoilers, mas chamamentos para um espetáculo de natureza multifacetada. “Uma das Anas”, relata ele, “vive a solidão de uma infância confinada em um pequeno apartamento, enquanto os pais, absorvidos pelo trabalho, se ausentam do convívio cotidiano. Em outra cena, nos inspiramos nos desafios e na beleza do processo de adoção, acompanhando a construção de vínculo entre uma criança e uma mãe solo, marcada pela escuta, pelo cuidado e pela reinvenção do afeto. Há ainda a Ana que cresce em uma relação de liberdade e confiança com sua mãe e seu pai, o que possibilita uma performance cênica disruptiva, potente e transformadora”.

Como se vê, o espetáculo lança uma lupa sobre questões sociais muito significativas no cotidiano das famílias contemporâneas. Por exemplo, a realidade de mães que trabalham fora. “Mulheres historicamente julgadas”, lembra o diretor. “Em outra situação, um pai solo está diante da filha prestes a vivenciar a primeira menstruação e isso abre espaço para o debate sobre tabus, revelando como o silêncio pode gerar dor, mas também como a escuta pode fortalecer vínculos e criar confiança.”

É alentador ouvir um diretor preocupado verdadeiramente em propiciar que crianças se vejam representadas em cena. “Não existe um único modelo de família ou de infância”, comenta. “A diversidade torna-se, assim, um gesto de acolhimento, identificação e ampliação de mundo. Queremos provocar a reflexão de que as relações familiares não são fixas nem imutáveis: diante dos conflitos e desafios, não há fórmulas prontas, mas há sempre a possibilidade de transformação quando se abre espaço para a escuta, para o afeto, para o riso e para o cuidado. Esses pequenos movimentos constroem crescimento, aprendizado e novas formas de compreender o que significa ser família.”

Outra cena do espetáculo infantil Ana, da Cia Lúdicos de Teatro Popular. Foto Heberth Borges

Ana estreou na semana passada e as primeiras sessões surpreenderam a companhia. “Achávamos que o espetáculo poderia dialogar melhor com crianças a partir de 8 anos”, conta Gira, “mas a experiência nos tem revelado surpresas muito positivas. Sim, o espetáculo comunica e dialoga muito com crianças a partir de 8 anos. Mas também com as menores de 8 anos. Essa é a surpresa! Bebês com menos de 1 ano de idade têm se atentado durante toda a apresentação. E não trouxemos como propostas grandes elementos visuais”, ele conta.

“Temos músicas, cores nos figurinos, um corpo um pouco mais presente que o dia a dia, e isso deve chamar a atenção dos pequenos, mas a peça tem também bastante texto, provocações sociais, camadas de reflexão… As crianças maiores têm avançado algumas camadas. Os adultos também têm se envolvido muito. As devolutivas têm sido ótimas, desde nossas aberturas de processos. Foi comentado sobre um elenco coeso e equilibrado, que reflete um processo de criação bem horizontal. Sabíamos que teríamos adultos com olhares atentos à nossa dramaturgia. Estamos curiosos para ver o que vem pela frente e o quanto tudo isso nos afeta e nos transforma nesse processo que continua aberto”, continua.

E como é chegar aos 25 anos de uma companhia de teatro em um país como o nosso? A resposta do diretor é cativante e muito esperançosa: “Acreditamos que o processo deste espetáculo atual responde bem a esta pergunta: escuta atenta! Estamos sempre em diálogos pedagógicos para além do nosso trabalho dentro da cia. Lúdicos. A experiência de educar está presente em nossas práticas em salas de aula (aulas de teatro), em nossas conversas sobre nossos filhos e outras crianças que fazem parte de nossa vida, em observar nosso mundo com tanta urgência em diálogos saudáveis. Isso tudo reverbera, não só em ‘Ana’, mas em nossos 25 anos de grupo. Cada espetáculo, uma urgência – nossa e do mundo. Não damos conta de todas as urgências, mas contribuímos com parte delas. E não com respostas, mas com perguntas. O caminho é poesia”.

Serviço

Ana

17 a 25 de janeiro de 2026, sábados e domingos, 11h e 16h.
Museu da Imigração – Rua Visconde de Parnaíba, 1.316 – Mooca, São Paulo.

21 e 22 de fevereiro de 2026, sábados e domingos, 15h e 19h
Centro Cultural Arte em Construção (Pombas Urbanas)
Av. dos Metalúrgicos, 2.100, Cidade Tiradentes, São Paulo

21 de março a 12 de abril de 2026, sábados e domingos, 16h
Teatro Arthur Azevedo – Av. Paes de Barros, 955, Mooca, São Paulo

Ingressos gratuitos

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Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990 na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo, o Caderno 2, de 2003 a 2011. Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij (Centro Brasileiro de Teatro para Infância e Juventude). Por sua peça Salmo 91 , adaptação do livro Estação Carandiru, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.
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