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As Meninas do Conto estreiam nova pérola que exalta o valor da oralidade

Sinopse

Com “Joana e o Príncipe Silencioso”, grupo veterano, sempre apoiado na narração de histórias, decide adaptar um conto que fala da força das memórias e da importância de usar o silêncio e treinar a escuta

Por Dib Carneiro Neto

Em todas as áreas profissionais, não importa se artísticas ou não, sempre há aquelas pessoas ou aqueles grupos que são garantia de qualidade. Cada setor tem os que são considerados o máximo, o suprassumo da excelência. Pensa que não há isso também no teatro para crianças? Claro que há. Sempre que ouvimos alguém citar o grupo As Meninas do Conto já sabemos: é um selo de qualidade. O espetáculo vai ser bom! Há 28 anos o grupo se dedica a narrar histórias, dando a elas roupagem de teatro. São referência e servem até hoje de inspiração para o surgimento de mais e mais companhias e coletivos. O grupo criou uma trajetória consistente tendo a palavra como o centro e a vontade de combinar literatura, música, arte popular e teatro – sem limites para a imaginação.

Isso posto, saibam vocês, com toda a pompa e circunstância, que neste fim de semana As Meninas do Conto estreiam obra nova em São Paulo – e isso é motivo para rojões, fanfarras e trombetas. O Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, recebe Joana e o Príncipe Silencioso, com direção de Eric Nowinski e recomendada pelo grupo para crianças a partir de 8 anos. As sessões, como de costume naquela unidade do Sesc, serão sempre aos sábados, às 11h, e até 20 de julho. 

“É um espetáculo que fala sobre a importância das histórias, do seu poder de cura, ainda mais evidente na realidade pós pandêmica”, declara o diretor. “E há na peça o contraponto não menos importante do silêncio. Num mundo de tantas vozes simultâneas e sobrepostas, precisamos reaprender a escutar.”

Cena de Joana e O Príncipe Silencioso. Foto Beto Amorim

Nowinski, rigorosamente atento aos últimos ensaios, comenta que sua parceria com As Meninas do Conto é sempre desafiadora e especial. “Esse grupo me instiga no aprofundamento da pesquisa com a narração de histórias, que é a especialidade dele. E o diálogo constante com a música, e a visualidade, o corpo e a voz , que também exercem função narrativa, desdobrando outras camadas de compreensão. Além do desafio de ter de entregar tudo com apenas duas intérpretes – e que intérpretes! Simone Grande e Helena Castro em cena são apoiadas por uma equipe sensacional. Esse desafio nos leva a explorar recursos como formas animadas, bonecos e sombras, para dar conta das várias paisagens e personagens que a história (e as histórias dentro da história) apresentam.”

Na equipe mencionada tão efusivamente por Eric Nowinski temos: Renata Mattar na música, Telumi Hellen na cenografia e figurinos, Paulo Rogério Lopes na dramaturgia (repetindo a dobradinha com Simone Grande), Letícia Doretto nas coreografias e movimentos, Ricardo Silva na luz (dividida com o diretor) e Bruno Rudolf nos efeitos de sombras). Não disse antes que era um selo de qualidade?

Trajetória e memória

Simone Grande, fundadora da companhia, atua aqui como autora, narradora, atriz e foi a mentora da ideia de transformar o conto em teatro. “O grupo está maduro e fazer esta peça é comemorar toda nossa trajetória e memória”, diz ela. “Cada história que vira peça pede coisas muito diferentes das outras, então me ponho na escuta, para dizer de outro jeito, que só poderia ser dito assim mesmo. Foi um processo longo, começamos com um trabalho de texto, alguns encontros – pesquisa de outros contos… Estou em cena com Helena Castro, grande parceira do grupo de muitos anos, nunca estivemos num processo juntas em cena e está sendo muito prazeroso e criativo.”

Ela lembra que outro espetáculo da companhia, Caminho da Roça, também foi dirigido por Nowinski e escrito por ela e Paulo Rogério Lopes. Repetir as parcerias muito a agrada. “Caminho da Roça era uma homenagem às avós, às mulheres mais velhas que guardam a memória das famílias e as compartilham por meio das histórias. Volto agora ao mesmo ponto. Você sabe que sou avó, e quando isso aconteceu na minha vida foi uma grande transformação. Um sentimento de alegria profunda, de poder continuar uma história, algo que recebi de minhas avós. Então, há alguns anos venho contando histórias com velhas e velhos, avôs e avós, que nos contos são ajudantes sábios, muitas vezes divertidos, surgem de repente ou vão embora sem avisar. Como na vida…”

Cena de Joana e O Príncipe Silencioso. Foto Beto Amorim

Chegar à história de Joana foi um processo lento e profundo. Ela relata: “Quando, há muitos anos, escutei esta história (que deu origem ao novo espetáculo) na voz de um contador de histórias chamado Dan Yashinski, que admiro demais, a guardei no meu coração. E ela ficou pulsando em silêncio, até que um dia achei que era necessário lhe dar voz. Achei que era importante falar com as crianças sobre o silêncio e sobre a escuta, sobre o lembrar e o esquecer, assuntos tão necessários em tempos tão apressados e impessoais como o nosso. Dizer da importância do encontro e das histórias. Em Joana e o Príncipe Silencioso continuo falando desses encontros e dos saberes que as pessoas mais velhas podem nos passar. Acho que quando contamos uma boa história, daquelas que nos fazem sair do lugar comum, de falar de sentimentos, problemas, e que nos propõe uma trajetória surpreendente, que nos fazem chorar e rir, percebemos o quanto uma história é importante, o quanto ela fala da gente e com a gente. Esse é o poder da arte de contar histórias.”

Reinventar memórias com as palavras certas

“Trabalhar com a Simone é como visitar um grande amigo da infância, que a gente adora rever para lembrar de coisas que nem sabe se são mesmo verdadeiras ou inventadas”, diz o coautor Paulo Rogério Lopes. “Reinventar memórias, num jogo de descobrir as palavras certas para cada cena, aciona um prazer imediato que até é difícil chamar de trabalho; e, “trabalhar” junto com a Simone é assim: diversão garantida ou a cena de volta até ficar com a cara que sonhamos separados.”

Paulo Rogério Lopes descreve a parceira e a parceria: “A Simone é a dona da história. A trama do conto – tradicional e revisitado inúmeras vezes por artistas do mundo todo – a acompanha já em várias ‘versões’ em forma de contação de história. Então, receber o convite para transformar esse material em um espetáculo teatral me fez pensar no que poderia contribuir para algo que já faz parte do imaginário dela, Simone. O caminho mais claro seria o pensamento de coisas como “onde”, “quem”, “como” e “por que” aquela história especificamente precisava ser contada; e, temas que me eram muito doloridos vieram à tona para serem refletidos (de forma divertida e poética, se possível): primeiro a Pandemia com seus autoexílios; depois a Guerra na Ucrânia, com os refugiados obrigados a escolherem o que levar e o que deixar; e, ainda depois, a questão de Gaza, com a possibilidade de fuga sendo tolhida. Todas essas questões me emocionavam muito e senti que seriam um material bom para trabalhar como a moldura que conteria a narrativa.”

Paulo agora esmiúça um pouco o enredo: “A missão da moça simples enfrentar o grande problema do reino, onde nem mesmo os mais sábios, estudados e experimentados cidadãos conseguiram, me levou direto para a velha questão do pequeno herói armado com sua coragem enfrentando o gigante. Mas há uma diferença: o gigante era apenas um jovem que, inesperadamente, se silenciava, e, aqui, a coragem da heroína é muito bem abastecida por histórias e saberes que sua avó lhe contava antes da empreitada. Ou seja: alguém que resolve melhorar o mundo provido com todo um repertório de oralidades é tudo o que eu, singelamente, busco, então, como não me encantar com material tão fértil e estimulante em um mundo cada vez mais distante dos convívios e conversas reais, longe de telas?” E, brincalhão, ele arremata: “Pela volta da janela das ‘fofocaiagens’, já!”

Serviço

Joana e o Príncipe Silencioso

Teatro Anchieta – Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. Telefone: (11) 3234-3000

Sábados, 11h – exceto dia 8/6. Dia 30 de maio, feriado, 11h. R$ 10 – Gratuidade para crianças até 12 anos (retirar na bilheteria).

Até 20 de julho

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Ficha Técnica

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Serviço

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