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“A História Sem Fim” chega ao teatro para unir fantasia e realidade

Sinopse

É como a diretora Carla Candiotto vê a importância atual de se encenar o livro de Michael Ende: celebrando a imaginação depois da crueza da pandemia

Por Dib Carneiro Neto

Um clássico da literatura alemã, que virou filme famoso, ganha uma versão no teatro paulistano. Uma superprodução com entrada franca. E para jovens. Sim, para público acima de 10 anos de idade. Trata-se de A História Sem Fim, que estreia neste fim de semana no palco do Sesi, na Avenida Paulista, com direção de Carla Candiotto, uma respeitada e laureada profissional, para se dizer o mínimo sobre ela. 

O livro de Michael Ende (1929-1995) foi publicado em 1979, já traduzido para 44 idiomas. Um caso claríssimo de  “best seller mundial”, com mais de 9 milhões de exemplares vendidos – um fenômeno na história do mercado editorial. De cara, pedimos para Carla Candiotto nos contar o que ela tanto vê nesse autor, já que sua premiada montagem anterior, com quase o mesmo elenco, também era baseada em livro dele, Momo e o Senhor do Tempo. E aí, Carla, o que é que você tanto gosta nesse tal de Ende?

Cena do espetáculo A História Sem Fim. Foto Ayrton Vignola / Fiesp

“Michael Ende, em seus livros, aborda as tristezas, os problemas, as dificuldades, as loucuras – tudo em forma de fantasia”, sentencia ela. “Ele usou o que sabia fazer – escrever – como forma de entender os outros lados de cada história. Todos os temas que ele escolhe, o tempo, a feitiçaria, a fantasia versus a realidade, todos abrem conversas possíveis entre pais e filhos, nos fazem pensar e até filosofar. A gente se coloca nas histórias que ele cria. Foi um visionário em sua época. Uma pessoa delicada que pensava no ser humano em geral, não só crianças nem só adultos, e em como a gente pode viver bem neste mundo, deixando o real mais fantástico.” 

Um estado de imaginação ilimitada

Isso de deixar o real mais fantástico é o que ainda vai nos salvar, Carla tem toda razão em escolher Michael Ende. A julgar por tudo o que essa diretora e atriz já “aprontou” nos palcos, incluindo a gloriosa fase da companhia Le Plat du Jour, essa tal de História Sem Fim tem tudo para explodir em nós uma riquíssima experiência, um convite para vivermos na plateia um estado de imaginação ilimitada. E que história é essa de não ter fim? A peça vai ser daquelas que não têm final? Carla acha graça da pergunta. “A minha peça tem fim, assim como a vida tem fim. Tudo tem fim. O espetáculo tem um fim – um fim sendo apenas um começo.” Ah, que lindo jogo de palavras. E ela prossegue: “Entendo o título desse livro do Ende da seguinte forma: Cada pessoa que lê o livro faz uma reflexão muito grande sobre si. Você acha que a história é para você. Então, como cada pessoa é diferente da outra, isso vira algo inumerável, sem fim – a história é sem fim porque o mundo é incontavelmente sem fim, as pessoas continuam nascendo e lendo e relendo o livro em diferentes fases da vida.” 

Cena do espetáculo A História Sem Fim. Foto Ayrton Vignola / Fiesp

Contado de forma linear, e portanto de um jeito sempre mais pobre do que veremos no palco, o enredo, nas palavras resumidas da sábia diretora, “fala de um garoto que vive o luto da perda da mãe, entrando literalmente em um livro de fantasia e não querendo mais sair de lá, de dentro das páginas, porque naquele mundo fantasioso ele se sente o chefe, ele conhece o poder, ele se acha o mais bonito, o mais bacana, o mais ‘biscoito’. Aí acontecem coisas com ele que eu não vou contar aqui, porque viram spoilers, claro.”

Luto foi um tema caro para Carla Candiotto enfrentar no dia a dia dos ensaios e na ebulição de um processo criativo, pois foi  justamente no início desses trabalhos de A História Sem Fim, que ela enfrentou na vida a perda do pai. Fazer teatro tem dessas coisas. O teatro é danado para nos pegar de jeito e nos chacoalhar subitamente, nos esfregar os temas na cara, assim sem a menor condescendência. Foi como Carla se sentiu: “Paralelamente à criação de um novo espetáculo, eu precisava viver o luto do meu pai, que faleceu no início do ano, em 11 de janeiro. A vida real, então, me deu motivo para mergulhar naquela fantasia. Despencou em mim um sentido para a história que iríamos encenar.” Carla se emociona, engole a saudade na voz embargada e acrescenta: “Essa história foi que me escolheu, não o contrário. Eu estava exatamente na fase de saber para onde eu caminharia com a trama e veio a morte do meu pai.” 

“Desta vez é papo de jovem”

Hora de respirar e descontrair. Poxa, Carla, então abandonou as criancinhas sem dó nem piedade? Quer dizer que seu lance agora é com a moçada? Ela responde categórica como nunca: “Desta vez, é um teatro para jovens. Mesmo. Eu, como diretora, não gostaria que os pais levassem crianças de menos de 10  anos. É um texto muito subjetivo, em que você tira as suas conclusões. Não é uma fábula conhecida, como Os Três Porquinhos ou Chapeuzinho Vermelho, por exemplo. Não tem nada objetivo.”

Cena do espetáculo A História Sem Fim. Foto Ayrton Vignola / Fiesp

A sugestão de faixa etária mais elevada também passa por outra questão, muito premente, segundo Carla. “Depois da dura pandemia de um vírus mortal, é preciso pensar que as crianças vivenciaram muitas perdas, elas ouviam, com 10 anos de idade, que morriam milhares de pessoas por dia, no mundo, no seu país, na sua cidade, no seu bairro. Quando eu me lembro disso, eu vejo o quanto é preciso falar agora para elas da fantasia como aliada do mundo real. A importância do brincar. A importância de se imaginar podendo tudo com 12 anos de idade, fantasiar que você pode ter um unicórnio azul, que você pode passear com um dragão. É tão importante isso para a criança de sempre, imagine para as de hoje… E a peça fala desses dois mundos, da fantasia e da realidade. Eu senti isso tudo enquanto eu criava, e por isso quero que isso chegue também dessa mesma forma ao público, porque foi maravilhoso para mim e para a equipe. A gente amadurece em contato com a criação fantasiosa. O teatro nos permite esse presente. A peça virou um portal para a criança (re)começar a brincar, a imaginar. Eu espero realmente que isso aconteça com cada um da plateia. O próprio cenário tem essa ideia de portal: é um píer que vai para algum lugar no mar e nos leva, ou traz os viajantes, o ir e o vir, ou seja, um lugar em que as histórias chegam e partem.” 

Confronto Carla com a polêmica provocada na época do filme, 1984, em que críticos proclamaram que a película de Wolfgang Petersen resultou sombria e pesada demais para público infantil. Houve, ainda, duas sequências. Ela garante: “Não achei os filmes sombrios nem pesados. Dizem até que o Michael Ende pediu para tirarem seus nomes dos créditos, por não concordar com o que viu na tela. Na versão que a gente fez, tratamos de uma perda, tratamos da morte dentro de uma fantasia. Pode ser um assunto um pouco sombrio, mas junto com isso temos os momentos lúdicos das personagens. Sim, e ao mesmo tempo  temos um cavalo que morre em cena e isso é triste, mas é importante essa perda dentro do contexto do enredo. Na nossa peça, a linguagem física não é nada sombria, a história não fica sombria, mas a estética teve de ser um pouco sombria, sim, pelo menos na primeira metade do espetáculo. Afinal, o Nada está dominando a Fantasia. Imagine como seria um Nada. Ou seja, não tem como não ser sombrio.” 

Dissecando um clássico para virar peça

Carla Candiotto assina o texto adaptado final com o ator Victor Mendes, que está no elenco. Ela nos conta o método que usou antes de entrarem em sala de ensaio: “Antes de começar, eu fiz o que se chama de ‘análise ativa’ do livro e até contratei alguém especializado nesse método russo de adaptação teatral, Michelle Zaidon, e passamos cerca de três meses estudando minuciosamente, dissecando o livro, porque eu tinha de fazer escolhas, claro, tinha de cortar personagens e precisava entender quais deles eram importantes para fazer a trama seguir. Fomos para a sala de ensaio quando eu tinha, portanto, um roteiro de ação já pensado e escrito – era hora de iniciar a criação das cenas.”

Isso se deu com um time da pesada. Marco Lima na cenografia e bonecos, Wagner Freire na Iluminação, Fábio Namatame no figurino, Roberto Alencar na coreografia, Marcelo Pelegrini na trilha original, André Grynwask e Priscila Argoud no vídeo, Georgette Fadel e Ana Paula Gomes para ministrar as aulas de aikidô ao elenco, Bia Fonseca na produção, Michelle Gabriel na gestão de projetos, Fernanda Teixeira e Macida Joachim na divulgação. E o incrível elenco: Camila Cohen, Eric Oliveira, Ernani Sanchez, Carol Badra, Victor Mendes e Thiago Amaral. 

Carla comenta: “Com o time que sempre tenho, de amigos criadores e criativos,  tudo fica bem mais precioso, principalmente quando percebo que cada um deles, no processo, faz a sua viagem particular. Cada um viveu essa criação junto comigo, e não houve uma direção exata, houve um rumo dado. Neste momento em que nós estamos, ‘permitir criar’ ficou muito mais necessário do que dirigir a criação.” 

Serviço

A História Sem Fim

Centro Cultural Fiesp. Teatro do Sesi – SP. Av Paulista, 1313.

Quintas e sextas, 11h. Sábados e domingos, 15h. Gratuito, com agendamento pelo Meu SESI.

De 31 de março a 30 de junho de 2024.

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Ficha Técnica

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Serviço

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