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Mito do Minotauro inspira peça sobre afeto e empatia

Sinopse

Regina França leva seu primeiro livro para crianças, “A Chave do Labirinto”, para os palcos, com auxílio luxuoso do diretor e adaptador Paulo Rogério Lopes; juntos, contam uma aventura alegórica sobre o valor de olhar verdadeiramente para o outro

Por Dib Carneiro Neto (publicada em 30 de outubro de 2026)

Reverenciar os mitos, recontar os mitos, reler os mitos, atualizar os mitos, divulgar os mitos, dessacralizar os mitos, reavivar os mitos, homenagear os mitos. A arte faz isso há tempos e tempos. Mitos e lendas. O teatro para crianças é um instrumento apropriado para esse nobre exercício de cultivar narrativas mitológicas e lendárias, com todas as suas cargas alegóricas, suas simbologias e seus significados. Temos mais um caso neste fim de ano teatral paulistano: A Chave do Labirinto, escrito e protagonizado por Regina França, a partir de seu livro homônimo, lançado no fim do ano passado pela editora Miolo Mole. 

A montagem, que estreia no Sesc Vila Mariana, leva o mito do Minotauro para um canavial brasileiro, transformando a lenda grega em uma aventura sobre imaginação, memória e a possibilidade de olhar ao lado de outro jeito. Paulo Rogério Lopes foi convidado para direção e adaptação. No elenco, ao lado de Regina, estão Claudemir Santana, Julia Oliveira Tavares e Dudda Pecego. O cenário e os adereços são assinados por Paulo Rogério Lopes e Juliana Vieira, que também cria a luz. O figurino é de Cláudia Shapira, e Regina França participa diretamente da criação visual, pintando os figurinos, tênis, boné e parte dos adereços. A trilha sonora é de Bruno Serrone, parceiro do projeto desde sua primeira experiência, realizada em formato audiovisual on-line.

 “Conheci o texto da Regina ainda na forma de conto, quando fui convidado para conversar sobre a possibilidade de levá-lo ao teatro. E, imediatamente, as ideias começaram a fervilhar”, conta o diretor. Ele detalha por que se atraiu pelo projeto: “A trama, por si só, já oferecia um universo de possibilidades: a aventura de um garoto do interior paulista que, mergulhado nos livros que alimentam sua imaginação, se vê transportado para dentro das próprias histórias. Logo me veio à cabeça um Dom Quixote mirim que, em vez de moinhos de vento, teria de enfrentar ninguém menos que o Minotauro! Quer dizer… não exatamente enfrentar. Porque é justamente aí que reside a poesia dessa história”.

Cena do infantil A Chave do Labirinto. Foto Tiago Silva

A conversa se prolongou, as ideias ganharam corpo, mas algo muito grave interrompeu os planos naquela altura. “Veio a pandemia”, relata Lopes. “Mas o bichinho da criação já havia picado e, se naquele momento não era possível levar a história ao palco, decidimos nos aventurar em uma versão audiovisual, viabilizada pela Lei Aldir Blanc. Quando as portas dos teatros finalmente se reabriram, retomamos o desejo de levar essa história aos palcos. Mas já não era a mesma peça que havíamos imaginado antes da pandemia. A experiência daquele período nos levou a olhar com mais atenção para a poesia, para o contato humano e para a potência da simplicidade: a de contar uma boa história e confiar que a imaginação de quem assiste fará o resto.”

O experiente encenador define exatamente sobre o que fala esse espetáculo: “Antes de tudo, é uma história sobre o afeto, sobre a capacidade de se colocar no lugar do outro, compreendê-lo e aprender a coexistir com as diferenças. E não há tema mais necessário nem mais urgente”.

Paulo Rogério Lopes lembra que raramente dirige textos que não sejam os seus. “Quando essa oportunidade surge, ela se torna um convite especialmente estimulante: o de revisitar minhas referências, abandonar caminhos já conhecidos e me lançar ao desconhecido. É um exercício de escuta, de abertura e de descoberta. Ao mergulhar no imaginário de outro criador, acabo encontrando também ecos de inquietações próprias, dos temas que me mobilizam e das coisas que desejo expressar. Esse encontro entre universos distintos amplia meu olhar, renova minhas ferramentas e enriquece o repertório do meu ofício.” E arremata, com a sabedoria que lhe é peculiar: “Dirigir uma obra de outro autor é, portanto, mais do que interpretar uma história: é descobrir, dentro dela, novas possibilidades de contar, sentir e compartilhar”.

Regina França entra na conversa para nos contar o que mais a agradou na transposição de seu livro para o palco. Ela diz: “Foi perceber como uma obra pode ser rica e plural, independentemente da linguagem em que é apresentada. Quando escrevi o livro, tinha personagens e uma história que foram me conduzindo por um caminho muito próprio. Ao levar essa obra para o palco, como atriz, precisei zerar o fato de ser a autora. Decorei as falas como se estivesse lendo o texto pela primeira vez e, nesse processo, as personagens ganharam outra cor, outra voz e outros rumos — tão ricos quanto os que eu havia imaginado na escrita, mas completamente diferentes”.

Pelo jeito, tem sido para ela uma grande aventura. Regina confirma: “Foi fascinante ser atriz de um texto que eu mesma escrevi e descobrir, por meio da interpretação, tantas outras camadas dessa mesma história. Essa experiência me fez perceber que uma obra nunca se esgota na forma como foi concebida: ela continua viva, se transforma e revela novas possibilidades a cada encontro com outra linguagem e com o público”.

Outra cena do infantil A Chave do Labirinto. Foto Tiago Silva

“Nesta peça, acompanhamos a aventura de um menino que leva o Minotauro para voar”, resume ela. “A partir dessa jornada, falamos sobre a importância da imaginação como ferramenta para nos conectarmos com o sagrado que existe em cada um de nós. Apresentamos livremente personagens da mitologia grega, recriando suas características e histórias de maneira que as crianças possam se aproximar desse universo e estabelecer as próprias conexões com ele.”

E por que tudo isso é tão relevante para as crianças? A resposta nos enternece: “Acredito que criamos paralelos lúdicos que permitem às crianças se aproximarem de questões filosóficas, mitológicas e espirituais sem que seja necessário oferecer respostas prontas. Nossa intenção é abrir espaço para a curiosidade, a imaginação e a brincadeira, convidando as crianças a se relacionarem com o sagrado de maneira livre, sensível e inteligente. Afinal, brincar também é uma forma de conhecer. E talvez seja justamente pela liberdade de imaginar, rir e reinventar histórias que possamos construir nossas relações com os mitos, com o mistério e com aquilo que reconhecemos como sagrado”.

Regina dá spoiler sobre alguns personagens, para exemplificar tudo isso que defende: “Sócrates, por exemplo, filósofo conhecido pela célebre frase ‘Só sei que nada sei’, aparece em nossa peça fazendo musculação. Em vez de repetir sua famosa máxima, ele brinca com o esquecimento daquilo que seria mais importante. Assim, o pensamento filosófico ganha uma dimensão lúdica, aproximando-se do cotidiano e do imaginário das crianças por meio do humor. A Pitonisa, por sua vez, surge como uma benzedeira antropofágica, que revela verdades de maneira cômica sem perder sua dimensão sagrada. Essa personagem transita entre o mistério, a sabedoria popular e o humor, criando um espaço em que o sagrado pode ser experimentado de maneira inesperada e divertida”.

Desafios sempre existem, sobretudo quando a proposta é tão séria e bem embasada. Regina França fala disso e do que a “chacoalhou” como intérprete: “O mais desafiador, como atriz, foi justamente esquecer que eu havia escrito a peça e me permitir ser conduzida pelo diretor, pelos outros atores e pelo próprio texto. Precisava me abrir para descobrir aspectos das personagens que talvez nunca encontrasse se permanecesse apenas no lugar de quem analisa intelectualmente aquilo que escreveu”.

E continua: “Para criar, é necessário abandonar o controle, jogar fora certezas, errar, arriscar-se a ficar ridícula e também permitir-se ser sublime. É preciso estar disponível para o inesperado, para aquilo que escapa ao planejamento e que só se revela quando nos colocamos verdadeiramente em jogo”.

Emocionam em seu depoimento a humildade, o desprendimento e a disponibilidade para o novo. Vejam que belas palavras: “Acredito que o texto pode ser um pretexto para entrarmos em contato com a verdade – não uma verdade pronta, mas aquela que emerge do encontro, da escuta, do corpo e da relação com o outro. Foi maravilhoso e, ao mesmo tempo, muito desafiador atravessar esse caminho: primeiro, escrever a peça; depois, abrir mão do domínio sobre ela para me tornar atriz dentro do universo que eu mesma havia criado. Foi preciso deixar de saber para voltar a descobrir, permitir que a obra ganhasse vida para além das minhas intenções e reconhecer que, no teatro, criar também é aprender a se surpreender com aquilo que não sabíamos que sabíamos”.

Serviço

A Chave do Labirinto

Sesc Vila Mariana – Auditório. Rua Pelotas, 141

Domingos, 16h30. R$ 40. Grátis para crianças até 12 anos

Até 13 de dezembro (estreia 1º de novembro)

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Ficha Técnica

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Serviço

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