Elias Andreato dirige o monólogo sobre pessoa transgênera que assume o papel da mãe em uma família de homens
Por Dirceu Alves Jr. (publicada em 26 de outubro de 2026)
Em 2021, o dramaturgo Newton Moreno lançou Cidades Sensíveis (Folhas de Relva Edições, 128 páginas, R$ 65,90), livro de contos sobre personagens envolvidos em conflitos sociais, identitários e de gênero. Era o auge da pandemia e, impossibilitado de colocar as palavras em cena, o autor desafogou a criatividade através da literatura.
Entre as 27 histórias curtas, uma se destacava naturalmente pela densidade poética e diálogo com aquela que talvez seja até hoje a mais bem-sucedida de suas peças, Agreste (2004). No conto A Raiz, Moreno enfoca um garoto, o caçula de uma família formada somente por homens, que assume o papel e as funções domésticas da mãe que acaba de morrer.
Com o livro nas mãos, o ator Claudio Fontana, de 64 anos, se sentiu profundamente impactado e decidiu que que este seria o projeto pessoal que devia a si mesmo em mais de 35 anos de carreira. Mostrou o texto para Elias Andreato, de 71, escolha natural para a direção devido a uma parceria que estende há duas décadas, e A Raiz estreou na Sala Paschoal Carlos Magno do Teatro Sérgio Cardoso, com Fontana em seu primeiro monólogo.

Não houve a necessidade de qualquer adaptação dramatúrgica. O texto publicado na coletânea de contos ganha a cena na íntegra. É a prosa poética de Moreno que ocupa naturalmente um lugar no teatro e um ator que não procura outros recursos para conquistar a plateia além da emoção da narrativa.
“O Claudio experimenta uma linguagem diferente de tudo o que está acostumado a fazer em que o texto e a emoção comandam tudo”, define o diretor. “Não é cenário, figurino ou maquiagem o que conta nesta peça, ele precisar estar totalmente à vontade para tocar o público com a verdade”.
A Raiz enfoca a trajetória de uma pessoa identificada com feminino e o caminho percorrido até a descoberta de sua identidade, do amor e da aceitação ou não pela família e pela sociedade. Moreno, de 57 anos, se inspirou na rotina de uma tribo andina onde só as mulheres cuidam do plantio e se tornam responsáveis pela alimentação da comunidade. “O protagonista desenvolve a mesma conversa que a mãe costumava ter com a natureza e fazia tudo brotar das raízes”, explica o autor.
Se, através de A Raiz, Moreno realiza o sonho de trabalhar com Andreato, Fontana e o diretor são parceiros constantes há mais de 20 anos. O começo de tudo foi a peça Adivinhe Quem Vem para Rezar, texto do Dib Carneiro Neto protagonizado por Paulo Autran e Fontana em 2005 sob o comando de Andreato. Desde então foram nove montagens, seja como companheiros de cena, ator e diretor ou ator e produtor. As comédias Amigas, Pero no Mucho e Andaime, os clássicos Esperando Godot e Estado de Sítio e o sucesso de bilheteria A Última Sessão de Freud são exemplos.

“O Elias é uma unanimidade, quanto mais quando se fala em monólogos e só quem viu os solos Van Gogh e Oscar Wilde nos anos de 1990 entende o que estou falando”, elogia o intérprete. “Quando li o texto, vi que só ele podia tratar desta questão da identidade de gênero de uma forma tão onírica e sem adotar um tom panfletário como fez o Newton no conto.”
Para evitar que qualquer polêmica se espalhe antes mesmo da estreia do monólogo, é preciso deixar claro que Fontana não interpreta o personagem transgênero. O ator está no palco como o narrador de uma fábula sobre aquilo que nasce quando alguém ousa ser quem é e busca na terra um símbolo de memória e lugar de renascimento. “Está na hora de a sociedade pensar com mais profundidade que a não identificação da pessoa com o gênero é uma vontade inerente”, declara Fontana. “Muitos tratam como malandragem uma questão que deve ser respeitada.”
A encenação de A Raiz até propõe caminhos que, por vezes, aparecem outros personagens, como o de uma prima ou de um fazendeiro, mas é basicamente focada nos episódios que envolvem o garoto. “Eu me sinto mais confortável e protegido ao contar a história do personagem sem recorrer a um psicologismo”, ressalta o protagonista. “Eu me apaixonei um pouco pelo distanciamento proposto pelas teorias de Bertolt Brecht (dramaturgo e diretor alemão) no jeito de interpretar.”
O distanciamento pregado pelo teatro épico de Brecht, porém, não deve comprometer em nada a identificação do público, pelo contrário. Entre as escolhas de Andreato para reforçar as projeções está a de não regionalizar a trama, deixando de especificar a localização no nordeste brasileiro, como no conto.
O diretor alerta para o momento perigoso de uma dominação crescente do conservadorismo na América Latina e acredita que as manifestações artísticas não podem ignorar o que acontece na política brasileira e internacional – só preciso entender qual a melhor forma de contribuição. “Nós, como artistas, temos o compromisso propagar poesias como esta do ponto de vista humano e sem didatismo”, afirma. “Claudio está ali inteiro porque algo do que está dizendo também passa por ele e o público vai se sentir representado por causa disso.”
Serviço
A Raiz
Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno. Rua Rui Barbosa, 153
Sábado e domingo, 18h30. R$ 50
Até 29 de novembro (estreou em 24 de outubro)
